Crítica | Fear the Walking Dead – 3X01 e 3X02: Eye of the Beholder / The New Frontier

3X01 – Eye of the Beholder
e
3X02 – The New Frontier

estrelas 3,5

Obs: Há spoilers. Leia  a crítica de todos os episódios da série, aqui.

Fear the Walking Dead tinha, em sua primeira temporada, a premissa de contar o início do apocalipse zumbi que já vemos a todo vapor em The Walking Dead. E, de fato, ao longo da curta temporada de apenas seis episódios, fomos apresentados ao começo de tudo sem que, porém, explicações científicas fossem trazidas, algo preferível, pois desvirtuaria por completo o espírito da criação de Robert Kirkman.

No entanto, essa premissa logo desapareceu e aquilo que parecia uma visão de como a humanidade reagiria ao início da praga transformou-se em uma versão da série mãe só que com outro grupo de sobreviventes em outras locações, o que fez com que a série perdesse muito de sua vivacidade na medíocre segunda temporada. Mas, diferente do que aconteceu na primeira temporada, a segunda acabou na ascendente, o que poderia significar uma retomada da qualidade que a série demonstrou ter em seu começo.

Com isso, Eye of the Beholder não perde tempo e começa alguns minutos depois do cliffhanger de North, em que os protagonistas são atacados por uma milícia quando tentam voltar aos EUA vindos do México. A metáfora sobre imigração que a série ameaça construir, porém, logo dá espaço para uma trama muito mais objetiva e direta do que poderíamos imaginar. E isso é bom e ruim ao mesmo tempo.

A introdução de Troy (Daniel Sharman) como mais um jovem sinistro e desequilibrado é cansativa. O roteiro do showrunner Dave Erickson e a atuação de Sharman não ajudam em nada na geração de sentimentos no espectador que possam ser expressados com mais do que um ou dois bocejos. E o pior é que ele e sua milícia assassina não têm, aparentemente, relação alguma com o controle de fronteira como o episódio de encerramento da temporada anterior havia dado a entender. Uma linha narrativa potencialmente interessante é trocada por outra repetitiva e sem nenhuma inspiração que é encerrada de maneira simplista demais com a chegada de Jake (Sam Underwood), o irmão sensato de Troy que promete mais um santuário ao grupo.

Por outro lado, essa “finta” que o episódio faz funciona para contar uma boa história de reunião da família Clark, com Madison junto de Alicia e Travis finalmente encontrando Nick junto com Luciana, aparentemente a única sobrevivente do massacre, ainda que muito ferida. Toda a fraqueza que o roteiro demonstra com as introduções clichês de Troy e Jake transforma-se em força ao lidar com uma Madison cada vez mais certa de si, violenta e capaz de absolutamente qualquer coisa para salvar seus entes queridos – aquela colher no olho jamais será esquecida! -, e um Travis relutante, mas invencível, mostrando todo o seu valor diante dos agressores e também no fosse de desmortos.

O que também funciona no episódio inaugural da temporada é a direção de Adam Bernstein que não cai na armadilha de ambientações escuras demais ou cenas rápidas e desorientadoras. Há um fluxo no trabalho dele, que transita bem entre cada pequeno núcleo, gerando um bom ritmo que naturalmente nos leva ao bem fotografado e coreografado clímax que intercala planos gerais com americanos em uma bela convergência de ações.

Mas a grande verdade é que a AMC acertou ao transmitir o segundo episódio da temporada, The New Frontier, logo em seguida. Caso contrário, haveria o perigo dele não ter o mesmo impacto que tem depois de se assistir Eye of the Beholder que, apesar de seus claros problemas, consegue restabelecer de forma precisa o núcleo da família Clark. O roteiro de The New Frontier surpreende ao trazer a inesperada morte de Travis não nos momentos finais, mas sim em seu começo, invertendo a lógica da segurança que o helicóptero passa e mostrando que, ao contrário do comboio de automóveis, o perigo está no céu. E o melhor é a trivialidade da morte do personagem. Nada de atos heroicos, nada de algo sendo construído há muito tempo ou mesmo algo que possa ser extraído das entrelinhas do que é visto logo antes. Ela simplesmente acontece, o que a torna mais real e, por isso mesmo, chocante e eficaz.

Eu só espero com todas as minhas forças que Travis tenha realmente morrido mesmo e que isso não seja uma reedição da ridícula e irritante “não-morte” de Glenn na sexta temporada de The Walking Dead. Partindo dessa premissa – de que ele realmente morreu -, é interessante notar como o episódio já estabelece Madison mais ainda como líder de seu grupo, fazendo-a lidar com o rancho-santurário e com o comando do aparentemente benigno Jeremiah Otto (Dayton Callie, o xerife moribundo de Sons of Anarchy). Kim Dickens vem cada vez mais tomando conta de sua personagem, tornando-a mais complexa e interessante a cada episódio que lhe permite assim fazer.

O segundo episódio também emprega tempo para voltar ao hotel no México e mostrar o que aconteceu com Strand. Lá, ele usa sua esperteza para posar de médico e acalmar a turba que quer invadir o local. No processo, ele tem uma bela – mas previsível – conversa com Ilene Stowe (Brenda Strong) e nós o vemos indo embora para local incerto e não sabido em grande estilo, em um carrão esportivo. Ainda que fosse importante lidar com Strand, o poder dramático do episódio se perdeu um pouco ao sair do núcleo dos Clark, especialmente porque o que acontece com Strand não era particularmente essencial que fosse mostrado agora ou que tomasse tanto tempo de The New Frontier. Tudo poderia acontecer no prólogo do episódio seguinte ou no epílogo deste aqui, sem quebrar o ritmo narrativo estabelecido com as perdas de Travis e de Charlene (Lindsay Pulsipher) e a tensão criada por Nick em sua tentativa desesperada de salvar Luciana das portas da morte.

Dessa forma, os dois primeiros episódios da terceira temporada de Fear the Walking Dead funcionam melhor juntos do que separados. Cada um tem várias fraquezas e problemas, mas ambos vistos de maneira encadeada atuam mentalmente como um telefilme inaugural da nova temporada, o que de certa forma suaviza e relativiza os pontos negativos. Foi, portanto, um bom começo de temporada e uma chance da série reerguer-se. Tomara que a oportunidade não seja desperdiçada, mesmo que a premissa original já tenha sido esquecida há muito tempo.

Fear the Walking Dead – 3X01 e 3X02: Eye of the Beholder / The New Frontier (EUA, 04 de junho de 2017)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Adam Bernstein (Eye of the Beholder), Stefan Schwartz (The New Frontier)
Roteiro: Dave Erickson (Eye of the Beholder), Mark Richard (The New Frontier)
Elenco: Kim Dickens, Cliff Curtis, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Danay García, Paul Calderón, Karen Bethzabe, Brenda Strong, Daniel Sharman, Sam Underwood, Dayton Callie, Lindsay Pulsipher
Produtora: AMC
Disponibilização da série no Brasil (na data de publicação da presente crítica): Canal AMC
Duração: 48 min. (Eye of the Beholder), 49 min. (The New Frontier)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.