Crítica | Fear the Walking Dead – 3X04: 100

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers. Leia  a crítica de todos os episódios da série, aqui.

Quase que completamente falado em espanhol, em formato de flashback, desconectado da trama principal e focado em apenas um personagem, 100 é, sem sombra de dúvidas, o melhor episódio de Fear the Walking Dead até agora e, também, um dos melhores episódios de todo o “zumbiverso” de Robert Kirkman na TV. Exagero? Maluquice? Pode ser, mas tenho para mim que não. E explico.

Passando por cima da coragem de se produzir um episódio inteiro em espanhol para o público americano que notoriamente desgosta de legendas, o que, por si só já merece comenda, o foco exclusivo em Daniel Salazar foi uma inspiradíssima escolha. No lugar de simplificar a explicação sobre sua volta, que vimos no cliffhanger do episódio anterior, Dave Erickson escolheu colocar o personagem debaixo dos holofotes de um episódio inteiro, com um roteiro mais do que preciso de Alan Page, que escrevera os apenas medianos Ouroboros e Los Muertos da segunda temporada. E a precisão vem no mergulho no passado do personagem como militar em El Salvador responsável pela morte de 96 pessoas, segundo ele próprio (o nome do episódio vem dos outros quatro que ele mata, sendo que um ele deixa morrer) e o que isso significa para seu momento presente.

Que Daniel carregava uma culpa pesada em seus ombros, já sabíamos de episódios anteriores que o levaram inclusive ao limiar da loucura quando passou a ver sua esposa morta. Mas, aqui, esse seu passado ganha extremo relevo não só como o ônus que ele leva para onde vai, mas também como sua irônica tábua de salvação no memorável primeiro encontro com Dante em que descobrimos que ele fora membro do famoso esquadrão da morte Sombra Negra, que atuava como uma milícia não oficial e era composto por militares e policiais.

Mas estou me adiantando. O episódio é repleto de detalhes que realmente o alça a um dos melhores das duas séries de desmortos da AMC, como o memorável início em que vemos uma figura cambaleante andando por lugares desertos. Ainda que a direção de Alex Garcia Lopez não tenha a efetiva intenção de nos enganar, ela funciona muito eficientemente para equalizar um quase morto Daniel – meio queimado, mancando fortemente – com os totalmente mortos ao seu redor, com direito até mesmo a uma tragicômica perseguição que mais parece um ensaio de Thriller. Ali, ele é um homem sem salvação, ainda que o que mais ele tenha procurado depois que encarou seus fantasmas tenha sido justamente isso: algum tipo de redenção.

E ela vem não com seu sacrifício, mas sim pelas mãos de um homem aparentemente simples que nada pede em troca. Efrain (Jesse Borrego) vive de altruisticamente distribuir a água que clandestinamente colhe de uma fonte misteriosa dentro de uma galeria que jorra religiosamente às 17h e ele não hesita em fazer das tripas coração para cuidar de Daniel, com a ajuda de Lola (Lisandra Tena). A dinâmica apresentada em poucos minutos de certa forma desperta sentimentos há muito adormecidos em Daniel, retirando-o do torpor e fazendo-o sentir por sua filha Ofelia, que ele acha que morreu no incêndio que ele causara na fazenda.

O pano de fundo religioso é onipresente. Sua busca por salvação e propósito o coloca de frente a um zumbi que certamente o matará, mas que, por intervenção “divina” é liquidado por um raio que, por tabela, arremessa Daniel no rio e o faz acordar dentro da represa de Dante, milagrosamente vivo e inteiro. O círculo, então, se fecha, com uma narrativa fluida e fácil de ser seguida em que finalmente entendemos a verdadeira natureza da fonte milagrosa na galeria e o papel de Lola e Efraim como instrumentos para driblar a tirania de Dante. É essa tirania, vale dizer, que Dante vê nos olhos – ou nos lábios, seria mais correto dizer – de Daniel ao descobrir sua verdadeira natureza no refeitório de seus “reino”.

Mas Daniel Salazar não é mais aquele membro do Sombra Negra. Sua humanidade, que um dia perdeu e chegou a ganhar novamente com o nascimento de Ofelia e que perdeu de novo, ressurge nos potentes momentos finais em que voltamos ao presente e ele lida com Strand – colocando-o interessantemente como vilão – e salva quase todas as vítimas de Dante, acabando com a opressão local. De monstro, ele se torna um herói e isso é refletido nos olhos de Lola e se encaixa como uma luva em tudo o que vimos sobre o personagem até o momento.

O episódio, porém, vai além de um roteiro inteligente, circular e bem aparado, com atuações excelentes de todo o elenco, especialmente, claro, Rubén Blades em seu tormento libertador. Há um quê autoral que há muito não se via em Fear the Walking Dead. Minto, quer dizer. Nunca vimos em FTWD. A série se salvou na primeira temporada por tentar algo diferente nesse universo de zumbi, perdendo-se completamente na fraca segunda temporada. O peso de episódios burocráticos e perdidos puxou a história para baixo, afundando-a na falta de desenvolvimento e objetivo de seus personagens, além de direções até eficientes, mas pouco inspiradas.

Em 100, vemos um pouco do que há de melhor em The Walking Dead, que notabilizou-se por episódios de altíssima qualidade que desviam da narrativa principal (às vezes nem tanto) e focam em um, dois ou um pequeno grupo de sobreviventes, como foi o caso de The Same Boat, Here’s Not Here, Try, What Happened and What’s Going On e outros vários. Há uma pegada própria para o episódio, algo que o marca e o diferencia completamente dos demais, desde a já citada transformação de Daniel em um zumbi no começo, passando pelo momento de fúria divina no canal e desaguando na completa virada do protagonista e seu encontro com seu futuro, com o que precisa fazer.

Todavia, é importante deixar muito claro que 100 é um episódio completamente fora da curva em se tratando de Fear the Walking Dead. Apesar dos três primeiros episódios da temporada terem sido melhores do que a média da anterior, o brilhantismo de 100 não me parece ainda suficiente para justificar afirmações do tipo “agora a série ficou boa” ou “finalmente vale a pena assistir”. Ainda é cedo – muito cedo – para isso. No entanto, uma coisa é certa: o caminho é realmente esse e, se Erickson souber aproveitar o bom momento, FTWD poderá deslanchar.

Fear the Walking Dead – 3X04: 100 (EUA, 18 de junho de 2017)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Alex Garcia Lopez
Roteiro: Alan Page
Elenco: Kim Dickens, Cliff Curtis, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Danay García, Paul Calderón, Karen Bethzabe, Brenda Strong, Daniel Sharman, Sam Underwood, Dayton Callie, Lindsay Pulsipher, Rubén Blades, Jason Manuel Olazabal,  Jesse Borrego, Lisandra Tena
Produtora: AMC
Disponibilização da série no Brasil (na data de publicação da presente crítica): Canal AMC
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.