Crítica | Fear the Walking Dead – 3X05: Burning in Water, Drowning in Flame

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estrelas 4

Obs: Há spoilers. Leia  a crítica de todos os episódios da série, aqui.

Conhecendo Fear the Walking Dead e depois do inacreditavelmente excelente 100, era de de se esperar uma queda vertiginosa de qualidade em Burning in Water, Drowning in Flame, especialmente logo que se constata que o episódio abordaria todas as linhas narrativas, não ficando circunscrito a um ou dois personagens de destaque. Mas a grande surpresa é que mais uma vez a série surpreende, com uma pegada que coloca de lado a ação e aborda as questões existenciais e filosóficas dos diversos núcleos.

E o resultado é mais uma vez bom, melhor até que o comecinho da temporada. Não chega ao nível do episódio anterior, claro, mas esperar algo assim é até injusto de qualquer série que seja, pois 100 teve a vantagem de ter foco exclusivo em Daniel Salazar, certamente o melhor personagem atualmente.

A expedição de Madison e Troy em busca do helicóptero derrubado é, queiramos ou não, o eixo narrativo aqui, o que novamente abre a oportunidade para estabelecer a relação complicada entre os dois e a liderança de Maddy que, aos poucos, vai se transformando no equivalente a Rick Grimes, da série-mãe. Mas essa liderança parece vir com um preço e o primeiro deles é o enfrentamento do completamente desequilibrado Troy que promete dar muito trabalho ainda para ela e para todo o restante do elenco.

Além disso, o conflito principal parece ter surgido: há uma disputa centenária de terras entre indígenas americanos e Jeremiah Otto que gira em torno do rancho-santuário. Confesso que a reedição do conflito criado pelo Destino Manifesto em uma série de zumbis é, ao mesmo tempo, inusitada e perigosamente estranha, ainda que tenha atiçado minha curiosidade. Minha desconfiança é que, no lugar de uma exploração temática mais profunda, a série passará por cima dos aspectos mais sérios do assunto como o fez na questão imigratória em Eye of the Beholder e The New Frontier, reduzindo a questão a uma rivalidade básica pontilhada como desejos de vingança de uma parte a outra. Mas, claro, isso sou eu já afobado, apressando-me em julgar algo com base no histórico da série (não consigo evitar!).

No disputado rancho, há uma bifurcação narrativa entre Nick e Alicia, ambos tentando entender exatamente o que querem da vida.

Vamos começar por Nick, que considero um personagem fascinante, ainda que nem eu mesmo saiba exatamente o porquê. De um drogado auto-destrutivo a alguém que conseguiu, diria, adaptar-se a esse mundo devastado e populado por versões do que ele era, Nick sempre foi um enigma, bandeando-se de um lado a outro dos conflitos e sempre tendo uma postura própria, ainda que sempre respeitosa a Madison. Aqui, ele tem um dilema: ficar com a mãe no rancho ou ir com Luciana para o mundo. Na verdade, minto. Não é um dilema. Está clara sua decisão desde o início e, mesmo sentindo o que sente por Luciana, ele nunca pareceu de verdade ter intenção de sair dali com ela. O episódio, então, lida com suas últimas tentativas de convencer a jovem mexicana a ficar por ali, a morar com os assassinos do restante de seu grupo na fronteira americana. É, sem dúvida, pedir demais, ainda que, por enquanto, o único cowboy verdadeiramente perturbado – vamos descontar Jeremiah por um momento, pois ele ainda não se mostrou exatamente perigoso – seja Troy e mesmo ele tem sido inteligentemente manobrado por Maddy em uma relação edipiana de dar calafrios.

A aproximação de Jeremiah e Nick, portanto, parece natural e combina com o ambiente em que eles estão: uma casa que acabou de pegar fogo depois do prelúdio em que vemos uma bela e trágica história de amor eterno. Ambos têm demônios com que lidar e tanto Frank Dillane como o veterano Dayton Callie demonstram ter uma excelente química que cria uma vibe de pai e filho hesitantes que pode dar pano para manga, especialmente no vindouro conflito com Troy.

Alicia, por sua vez, aos poucos vai literalmente se encontrando. Sua personagem sempre foi apagada e, convenhamos, narrativamente inútil. Assim, vejo como acertada a decisão dos roteiros anteriores e deste aqui escrito por Suzanne Heathcote em aos poucos reinseri-la nesse universo de maneira crível. Diferente de seu irmão, ela tem enorme dificuldade em adaptar-se a esse mundo, em entender as novas regras. Sua visão é muito dicotômica – preto ou branco – sem espaço para os necessários tons de cinza e ela, aos poucos, vai se adaptando, nem que seja por intermédio da entrega à festas “bíblicas” noite a dentro ou ao sexo com Jake que, obviamente, vai enamorar-se por ela. Mas seu ponto de reentrada efetiva na série já passou. A catarse ao final, com seu mergulho no lago, espero, funcionará como uma nova Alicia sendo recrutada para FTWD. Chega de ficar depressiva pelos cantos sem oferecer nada à narrativa.

Por último, há Daniel Salazar e Strand em busca de Ofelia. Esse rabicho de história pareceu-me completamente deslocado e desnecessário aqui. A desconfiança de Salazar em relação a Strand não me parece razoável a não ser que ele tenha enlouquecido de vez e a mentira de Strand também não faz muito sentido. No final das contas, algo que poderia ser abordado como um epílogo no episódio acaba tomando tempo das outras e mais interessantes histórias. Não que a busca por Ofelia seja desimportante, claro, mas sua construção, aqui, pareceu-me fora de esquadro.

Mesmo com o deslize resumido ao tempo dedicado a Daniel e Strand, Burning in Water, Drowning in Flame é mais um sólido episódio da temporada, o que mostra que Dave Erickson parece ter aprendido com sua completa falta de rumo na temporada anterior. Se o conflito por terras não for escanteado em favor de uma resolução simplista, há potencial para ótimos desenvolvimentos que podem começar a nos fazer esquecer do que veio antes.

Fear the Walking Dead – 3X05: Burning in Water, Drowning in Flame (EUA, 25 de junho de 2017)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Daniel Stamm
Roteiro: Suzanne Heathcote
Elenco: Kim Dickens, Cliff Curtis, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Danay García, Paul Calderón, Karen Bethzabe, Brenda Strong, Daniel Sharman, Sam Underwood, Dayton Callie, Lindsay Pulsipher, Rubén Blades, Jason Manuel Olazabal,  Jesse Borrego, Lisandra Tena
Produtora: AMC
Disponibilização da série no Brasil (na data de publicação da presente crítica): Canal AMC
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.