Crítica | Fear the Walking Dead – 3X07 e 3X08: The Unveiling / Children of Wrath

The Unveiling

estrelas 4

Children of Wrath

estrelas 4,5

– Há spoilers. Leia  a crítica de todos os episódios da série, aqui.

Assim como a terceira temporada começou, com dois episódios transmitidos no mesmo dia, ela chega à sua metade. The Unveiling e Children of Wrath encerram espetacularmente um arco que reimagina o Destino Manifesto com a eterna luta entre o nativo americano e o homem branco em um mundo pós-apocalíptico, coloca Madison em posição de absoluto destaque, estabelece Nick como uma força da natureza e tem um dos mais memoráveis momentos da série até agora, protagonizado por Victor Strand finalmente de volta à Abigail.

Uma primeira temporada que começou muito bem, mas que desandou ao final e uma segunda temporada medíocre para usar um eufemismo prometiam uma terceira temporada daquelas para enterrar de vez a série filhote de The Walking Dead. Mas, subvertendo toda as expectativas, Fear the Walking Dead, pelo menos nessa primeira metade de sua terceira temporada, mostra-se extremamente poderosa, sem medo algum de mergulhar com vontade na podridão da alma humana e, mais do que isso, sem tentar agradar os espectadores com personagens com quem possamos nos identificar. Como mencionei na crítica de Red Dirt, é impossível simpatizar de verdade com quem quer que seja.

Madison é fria e calculista, com apenas um objetivo em mente: manter seus filhos a salvo, custe o que custar, algo sem dúvida nobre, mas que a faz cometer atos terríveis em sucessão. Nick é um jovem que se adaptou melhor a esse mundo destruído do que jamais se adaptara ao mundo “normal” e vive capítulo a capítulo como se aqueles 45 minutos fossem seus últimos. Alicia é uma jovem de um lado muito inteligente, mas, de outro, inocente e perdida, com seu caminho incerto e enevoado. Troy é um louco furioso e seu irmão Jake, por mais que tenha boas intenções, parece viver em uma história da Carochinha. Jeremiah é um doente preconceituoso que tenta afogar seu passado em bebida. Daniel, bem… Daniel Salazar, por mais que tenha protagonizado 100, o melhor episódio da série até agora, foi um assassino frio e calculista. E, por fim, Strand é um homem egoísta e sem rumo que vive para ele mesmo.

No entanto, por incrível que pareça, ao longo de apenas oito episódios, Dave Erickson conseguiu estabelecer seus personagens-legado de maneira mais do que inteligente e construir os recém-introduzidos de maneira que o conjunto seja harmônico em mostrar o lado negro da humanidade. Claro, é perfeitamente possível torcer por um deles aqui e ali, mas gostar de verdade como gostamos por exemplo de Rick Grimes ou de Carol Peletier da série-mãe é simplesmente uma tarefa hercúlea (quiçá impossível mesmo) e Erickson em nenhum momento realmente nos pede isso ou mesmo deseja isso. Fear the Walking Dead, que nasceu prometendo contar o início da praga zumbi e logo traiu essa premissa, mostra-se, em seu terceiro ano, uma série bem mais adulta e com pés no chão do que a criação máxima de Robert Kirkman na TV.

Reparem como The Unveiling é bem trabalhado, por exemplo. Partindo imediatamente do final do episódio anterior, vemos Jake correndo para tentar fazer as pazes com Walker e sendo surpreendido por Alicia, que o seguira. Quando ela explica o que havia acontecido, ele não arreda o pé e os dois acabam na base de Walker em que uma trégua frágil é alcançada. Além disso, descobrimos finalmente o paradeiro de Ofelia e ela está do lado dos nativos, servindo de moeda de troca, com Alicia ficando de refém com Walker e ela seguindo com Jake para o rancho.

Não é segredo algum, porém, que Madison não iria concordar com esse arranjo, por mais temporário que fosse e, em um arroubo de insanidade, ela manobra Troy (o que não é lá muito difícil, convenhamos) para que um resgate seja montado, resgate esse que, como esperado, acaba em banho de sangue e catalisa a guerra. Se é fácil entender a decisão de Madison de destruir qualquer chance de paz, fica um pouco complicado aceitar que a Ofelia seja dado amplo acesso ao rancho, especialmente à comida, depois que ela estranhamente é espancada e expulsa da tribo por Walker. Será que realmente ninguém desconfia de nada?

Mas esse aspecto – a traição de Ofelia – é o ponto fora da curva em um episódio sólido, bem dirigido, com sequências noturnas que nos desnorteiam e criam o caos necessário para que sintamos na pele o desespero do momento. Cada personagem tem função bem estabelecida, inclusive Alicia recebendo uma aula sobre o passado de Walker em seu trailer.

A decisão da AMC de transmitir os dois episódios no mesmo dia foi acertada mais uma vez, pois é realmente como se The Unveiling e Children of Wrath fossem um longo episódio só de 97 minutos, quase sem solução de continuidade. Digo “quase”, pois quando o segundo capítulo da dupla começa, vemos um breve flashback que estabelece o que aconteceu com Ofelia desde que a vimos pela última vez em North. Não é nada muito original ou diferente do que poderíamos esperar, mas estabelece, de forma até maniqueísta, mas perdoável, os lados da briga futura, colocando Jeremiah como o grande vilão e Walker como o anjo salvador. Mas não é nada que quebre o ritmo, pois, ao contrário, ajuda a reforçar a traição de Ofelia com o envenenamento do acampamento, algo que ganha nuances quando ela mesma é surpreendida pela informação de que o veneno é Antrax(!!!).

O que retira um pouco do realismo do episódio é que a substância só atinge mortalmente coadjuvantes da série. Troy nada sente. Jake tem efeitos quase imperceptíveis e Nick, apesar de ser atingido em cheio, sobrevive como se tivesse tomado mais uma dose de suas drogas (e talvez por causa  disso mesmo, vai saber…). É uma conveniência de roteiro que faz os olhos revirarem, ainda que qualquer um calejado por séries de TV saiba que isso é mais do que comum para fins narrativos.

De toda forma, o cerne do episódio que parece fechar o conflito de terras é mesmo em Madison. Entendemos sua força e sua capacidade de fazer o que for preciso para salvar seus filhos quando de sua confissão sobre o passado. Há uma convergência rítmica entre o que ela revela e o que Jeremiah representa, tornando as narrativas confluentes quase que imediatamente. Mas, antes que alguém levante a bola, já vou logo dizendo: esse passado sombrio de Madison parece ter sido convenientemente criado agora, justamente para funcionar de maneira lógica dentro da terceira temporada, mas o ponto que permanece é que sua história faz sentido e tem lógica interna. Não havia razão alguma para que esse assunto fosse abordado antes e muito menos para que Nick ou Alicia soubessem disso. E, melhor ainda, essa terrível revelação realmente justifica esse comportamento frio e mortal de Madison, assim como explica o afastamento dela de seus filhos, algo que já havia sido estabelecido pela entrega de Nick às drogas e pela semi-rebeldia de Alicia.

Com isso, o confronto finalista entre ela e Jeremiah é estruturalmente perfeito e que ganha um prelúdio cuidadoso quando Nick literalmente desencava um esqueleto de debaixo de sua casa e extrai a confissão de que o velho matara o tio e o pai de Walker, elevando a disputa de terras a algo muito mais pessoal e mortal. Madison entende o que precisa ser feito, mas Nick também e talvez muito mais até do que Maddy, considerando o tempo que dividiu com a figura paterna representada por Jeremiah, sempre com um verniz de bom velhinho que é “só um pouquinho perturbado”. Quando a máscara cai, Nick não quer mais que sua mãe carregue esse ônus e corajosamente o divide com ela em uma sequência tensa e bem filmada com plano e contra plano entre Maddy e Jeremiah seguidos de uma silenciosa entrada em segundo plano de Nick, com pouca profundidade de campo para nos impedir de ver a arma em sua mão até o último segundo.

A questão que fica é: será que a justiça foi feita? Será que a morte de Jeremiah realmente era justificada? Será que o pleito de Walker era efetivamente legítimo ou só fumaça para ele alcançar justamente esse objetivo? Considerando que Madison – ao som de, quem diria, Stand by Me, por Ki: Theory (também conhecido como Joe Burleson) – parece ter se estabelecido como a líder de fato do rancho e alcançado a paz, resta saber se ela suportará todo esse peso em seus ombros, mesmo que Nick a ajude a carregá-lo.

No entanto, não poderia encerrar essa já longa crítica (mas são dois episódios!) sem falar dos momentos com Victor Strand nos holofotes. O personagem já havia perdido sua força ao final da temporada anterior e ela não havia ressurgido na terceira, mas, em Children of Wrath, ele protagoniza um dos mais belos momentos da série em que, desesperançoso e talvez até suicida mesmo depois de achar Abigail encalhada e cheia de zumbis, ele, mexendo em seu rádio, consegue conversar com um cosmonauta russo (Vaschenko) na Soyuz em órbita da Terra.

O inusitado da situação justifica plenamente a quebra da narrativa principal e seu diálogo com Vaschenko é belíssimo, com a perspectiva do homem condenado a ver a Terra morrer, sem poder fazer nada e ele mesmo aos poucos morrendo. Um momento breve que mostra a beleza da humanidade e que devolve a esperança a Strand, que decide apagar seu passado com fogo e voltar à vida, seja lá o que isso significa exatamente. Será no mínimo interessante ver como a história dele fará interseção com a da família Clark e, claro, com Daniel Salazar (nesse caso, mais um vez).

Se eu tivesse que apostar, teria jogado todas as minhas fichas contra a terceira temporada de Fear the Walking Dead e, feliz, teria perdido todo o meu dinheiro. Sim, ainda estamos na metade do caminho, mas essa metade foi tão boa que o showrunner terá que se esforçar muito para destruir o que ele construiu. Claro que isso é possível, mas a esperança do cosmonauta russo invadiu este crítico que, agora, espera que a série continue firme e forte, sem esmorecer.

*Fear the Walking Dead entrará em hiato e voltará para mais oito episódios a partir de 10 de setembro de 2017.

Fear the Walking Dead – 3X07 e 3X08: The Unveiling / Children of Wrath (EUA, 09 de julho de 2017)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Jeremy Webb (3X07), Andrew Bernstein (3X08)
Roteiro: Mark Richard (3X07), Jami O’Brien (3X08)
Elenco: Kim Dickens, Cliff Curtis, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Danay García, Paul Calderón, Karen Bethzabe, Brenda Strong, Daniel Sharman, Sam Underwood, Dayton Callie, Lindsay Pulsipher, Rubén Blades, Jason Manuel Olazabal,  Jesse Borrego, Lisandra Tena
Produtora: AMC
Disponibilização da série no Brasil (na data de publicação da presente crítica): Canal AMC
Duração: 44 min. (3X07), 52 min. (3X08)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.