Crítica | Fear the Walking Dead – 3X09 e 3X10: Minotaur / The Diviner

Minotaur

The Diviner

– Há spoilers. Leia  a crítica de todos os episódios da série, aqui.

Depois de um longo hiato planejado de forma que a terceira temporada de Fear the Walking Dead acabasse na semana anterior ao início da oitava temporada de The Walking Dead, mais dois episódios foram lançados simultaneamente, algo que tem se tornado padrão na série e que será repetido ao seu final. Com Minotaur e The Diviner, que funcionam bem em conjunto, FTWD continua seu surpreendente caminho de recuperação depois de começar bem e acabar mal a primeira temporada e de ser incrivelmente frustrante em sua medíocre segunda temporada.

Os objetivos dos novos capítulos são claros. Primeiro, há uma tentativa de se encerrar – pelo menos por enquanto – o conflito entre os habitantes do Rancho Broke Jaw e os nativos liderados por Walker que clamam propriedade sobre as terras do falecido Jeremiah. Depois, há o começo da união das linhas narrativas envolvendo a família Carter, Victor Strand e Daniel Salazar. E os dois propósitos são alcançados, mesmo que tenhamos que aceitar algumas conveniências narrativas aqui e ali.

Sem perder muito tempo, Minotaur começa com a chegada de Walker e sua “nação” ao rancho, como parte do acordo entabulado com Jake, mas com Madison fazendo as vezes de manipuladora de bastidores. Fica desde logo patente que a coexistência entre os povos é impossível, com os conflitos se avolumando em velocidade vertiginosa que afetam a liderança de Jake que, por sinal, ainda não se recuperou dos eventos de Children of Wrath (a primeira conveniência, já que ele é o único com sequelas) e não consegue se impor. Alicia percebe a questão muito claramente, tentando ajudar ao máximo, mas percebendo a manipulação por sua mãe que ajuda a minar qualquer semblante de comando por Jake.

Em meio a tudo isso, claro, o roteiro não poderia esquecer do pavio curto de Troy que, como esperado, catalisa os eventos quase trágicos do episódio que levam ao seu exílio – mas que, tenho certeza, será temporário – e uma reviravolta que coloca Nick como líder da milícia que resta depois que o controle das armas do rancho é entregue completamente a Walker, depois que Madison chancela esse acordo. A saída de Troy da série, pelo menos por alguns episódios, era essencial para que fosse possível manter a tensão por todo esse reinício, já que não havia outro jeito de lidar com o personagem que não fosse matando-o, o que roubaria a série de um personagem de cunho vilanesco que vinha sendo muito bem desenvolvido. Com isso, no lugar de desperdiçá-lo, Dave Erickson o resguarda para uso futuro.

Em meio a esse clima de guerra civil – ou melhor, de reedição do Destino Manifesto só que com zumbis, como mencionei em outras críticas -, que mereceria a atenção integral do episódio, o showrunner e Mike Zunick, que co-escreveram Minotaur, decidiram intercalar breves sequências lidando com Daniel Salazar e Lola e o novos status quo da represa que agora controlam e que, pelo menos em tese, com isso, querem reverter a tirania que havia sido imposta por Dante. Por mais que a direção de Stefan Schwartz tentem minimizar o enfoque nessa narrativa paralela, ela parece completamente deslocada e quebra o ritmo e a tensão da situação do rancho. Sem dúvida alguma que o objetivo era paralelizar o tema “escassez de água” que Madison descobre nas anotações de Jeremiah (outra conveniência narrativa, aliás). No entanto, a questão é que esses intervalos perdem o sentido no episódio, enquanto que fariam perfeita lógica em The Diviner, esse sim focado na mesma questão.

Falando em The Diviner, ele é a continuação mais do que direta do anterior, o que, como disse, faz a dupla de capítulos funcionar muito bem em conjunto, sem solução de continuidade. Sem Madison e Walker no rancho, já que eles saíram para procurar água, cabe a Alicia lidar com o ônus da liderança, mantendo a paz no lugar que cada vez mais chega ao ponto de ebulição.

Aqui, o roteiro de Ryan Scott é muito feliz em finalmente estabelecer uma personalidade forte para a personagem que, apesar de alguns lampejos aqui e ali ao longo da temporada, permanecia sem um propósito. Sem os líderes naturais e convenientemente com o completo sumiço de Jake do episódio, ela precisa abraçar a responsabilidade, mas não sem antes entrar em rota de colisão com o próprio irmão. A narrativa consegue deixar o espectador na dúvida sobre o destino do rancho até literalmente os momentos finais, pois ela brinca com o esfacelamento da própria relação dos irmãos, com Nick vestindo o casaco de líder rebelde que quase impõem a ele.

Apesar de termos que aceitar que a água estava para acabar mesmo sem Jeremiah ter jamais sequer mencionado isso, algo razoavelmente improvável, o importante é que esse artifício funciona organicamente, depois de estabelecido, para tensionar as forças em Broke Jaw e fazer a narrativa flutuar entre Alicia, Nick e Ofelia, voltando finalmente a Alicia e sua demonstração de união e liderança. O quanto isso durará, só o tempo – e provavelmente a volta de Troy – dirá, mas pelo menos a temporada parece querer manter-se primordialmente em um só lugar até pelo menos seu final.

Paralelamente aos eventos no rancho, vemos Madison e Walker chegarem a um mercado dentro de um estádio que muito me lembrou Bartertown, de Mad Max – Além da Cúpula do Trovão. Lá, Madison se reúne com Victor e usa toda sua inteligência para livrar o amigo da enrascada em que se metera, ao mesmo tempo colocando-os em uma rota que poderá resolver, definitivamente, o problema da água. Claro que Victor, por seu turno, deve desejar vingança contra Daniel, por tê-lo abandonado no que restou do hotel, mas a confirmação de que Ofelia está viva provavelmente resolverá qualquer momento de tensão entre ex-colegas que veremos mais para a frente.

Minotaur e The Diviner marcam um bom recomeço para a mais do que sólida terceira temporada de Fear the Walking Dead, que parece finalmente ter acertado o tom. Se continuar assim e The Walking Dead não melhorar, teremos, potencialmente, uma nova “melhor série de zumbi”. Que Rick e companhia se cuidem!

Fear the Walking Dead – 3X09 e 3X10: Minotaur / The Diviner (EUA, 10 de setembro de 2017)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Stefan Schwartz (3X09), Paco Cabezas (3X10)
Roteiro: Dave Erickson e Mike Zunic (3X09), Ryan Scott (3X10)
Elenco: Kim Dickens, Cliff Curtis, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Danay García, Paul Calderón, Karen Bethzabe, Brenda Strong, Daniel Sharman, Sam Underwood, Dayton Callie, Lindsay Pulsipher, Rubén Blades, Jason Manuel Olazabal,  Jesse Borrego, Lisandra Tena
Produtora: AMC
Disponibilização da série no Brasil (na data de publicação da presente crítica): Canal AMC
Duração: 43 min. cada

 

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.