Crítica | Fear the Walking Dead – 3X12: Brother’s Keeper

– Há spoilers. Leia, aqui, a crítica de todos os episódios da série.

A primeira imagem que vemos em Brother’s Keeper, episódio que marca a metade da segunda metade da terceira temporada, é a de uma cobra cascavel, ou uma serpiente, fazendo uma perfeita rima visual com o nome do episódio anterior que, por sua vez, é o apelido dado a Strand por Daniel. Mas a verdadeira serpente que vemos é Troy, de volta à temporada, depois de uma curtíssima ausência pós-banimento do Rancho Broke Jaw, que é o foco principal do capítulo.

Sobrevivendo aos trancos e barrancos nas terras desoladas e infestadas de desmortos, o desequilibrado jovem chega ao antigo acampamento de Walker, agora abandonado, mas ainda com o corpo de um dos fundadores do rancho sentado na mesma cadeira em que foi morto. Achando comida e uma espingarda com lançador de granadas, Troy enterra o corpo, senta-se na cadeira e, aparentemente, prepara-se para cometer suicídio quando, então, ele ouve o som dos desmortos em um desfiladeiro e, sem que a câmera de Alrick Riley revele exatamente o que ele vê, percebemos sua fisionomia desesperançosa mudar para uma de loucura incontida. É, sem dúvida alguma, um belo momento representativo do personagem em específico e do efeitos que a situação extremada que séries e filmes pós-apocalípticos abordam, podem ter na humanidade.

Sem dúvida alguma, quem já está acostumado com as séries de zumbi do universo criado por Robert Kirkman reconheceu de imediato a nova ameaça e, quando ela se concretiza – e não demora nem cinco minutos para isso – a única coisa que se espera mesmo é saber como os sobreviventes enfrentarão a horda de mortos-vivos. Mas, antes de chegarmos lá, talvez seja muito mais importante mergulharmos no triângulo formado por Nick, Troy e Jake.

Primeiro, cada um deles aparece separadamente. Troy é a ameaça, a vingança, a raiva e a loucura. Nick é, surpreendentemente, cotado para ser líder do local justamente porque ele não aparenta ter qualquer pretensão de liderança. Será interessante ver como isso será desenvolvido, especialmente o potencial choque entre ele e Madison e talvez Walker. Jake, finalmente, revela-se como alguém muito mais sábio do que esperado, deixando evidente para Alicia que ele sabia do plano tripartite e silencioso de Madison para dominar a família Otto e, claro, o rancho. Mesmo que Alicia efetivamente goste do jovem, não há duvidas que sua aproximação inicial se deu por interesses outros que não apenas os carnais e emocionais. Estabelecidos os personagens por meio do agilíssimo e esperto roteiro de Wes Brown, vemos Nick e Jake partirem para encontrar-se com Troy, depois que, em um momento assustador e que poderia ser uma alucinação de Nick, ele avisa ao ex-viciado que o fim do rancho está chegando. Já aí vemos uma espécie de simbiose estranha e doentia entre os dois, cada um claramente reconhecendo partes de si no outro e aceitando seus respectivos defeitos. Dois desajustados complementando-se.

O confronto, então, diante da horda a caminho do rancho, é definitivo e só poderia dar mesmo no que deu: Jake é mordido depois que, inexplicavelmente, Nick o derruba barranco abaixo (se ele tivesse acertado Jake na barriga com a espingarda, o que seria a solução mais óbvia, ele não cairia). Mesmo com o braço cortado, percebemos que o final chegou ao jovem e que nada mais pode ser feito. A aliança de Nick e Troy, dois lados de uma mesma moeda, ganha mais força ainda e isso será potencialmente explorado pelo menos no episódio seguinte e, se Troy não morrer (e espero que não morra para fins dramáticos), poderá gerar bons momentos para a frente.

No rancho, a tensão criada pela barricada de automóveis foi dramaticamente muito eficiente e bem construída, mas ela perde seu peso quando percebemos que nada daquilo teria sido realmente necessário se todo mundo simplesmente tivesse se escondido no porão onde eles armazenam mantimentos, exatamente o local onde eles vão ao final. Mas convenhamos que, se a estratégia fosse essa desde o início, o episódio acabaria em 25 minutos e, claro, era necessário algo “idiota” para ganharmos alguns bons momentos, com a direção de Riley lidando muito bem com os embates ao usar uma câmera que coloca o espectador no meio da ação e ao trabalhar a montagem de maneira a nos manter desnorteados e com o campo de visão reduzido, esperando mortes significativas que, porém, acabam não acontecendo. Plasticamente, portanto, o trabalho foi impecável, com o roteiro também dando um ar de liderança à Alicia, outro elemento que poderá ser a base para conflitos no seio da família Clark em futuro próximo.

Brother’s Keeper é mais um belo episódio desta temporada que não parece disposta a errar uma vez sequer. Nick e Troy têm uma missão ingrata que, porém, poderá solidificar ainda mais o elo entre os dois. Resta saber se ambos sobreviverão aos zumbis e, especialmente, à sede vingativa de Walker quando a poeira assentar.

Fear the Walking Dead – 3X12: Brother’s Keeper (EUA, 24 de setembro de 2017)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Meera Menon
Roteiro: Wes Brown
Elenco: Kim Dickens, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Danay García, Paul Calderón, Karen Bethzabe, Brenda Strong, Daniel Sharman, Sam Underwood, Dayton Callie, Lindsay Pulsipher, Rubén Blades, Jason Manuel Olazabal,  Jesse Borrego, Lisandra Tena
Produtora: AMC
Disponibilização da série no Brasil (na data de publicação da presente crítica): Canal AMC
Duração: 42 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.