Crítica | Fear the Walking Dead – 3X13: This Land Is Your Land

– Há spoilers. Leia, aqui, a crítica de todos os episódios da série.

Eliminar o rancho e seus habitantes tão cedo da equação foi uma aposta arriscada de Fear the Walking Dead. Se, por um lado, a série passa a impressão de ritmo acelerado, por outro ela pode voltar a transmitir a sensação da falta de rumo que marcou sua famigerada segunda temporada. No entanto, se considerarmos This Land Is Your Land isoladamente como o grande ponto de virada na vida de Alicia, temos um dos melhores episódios da temporada, ainda que não seja perfeito.

Continuando exatamente do ponto em que Brother’s Keeper parou, os sobreviventes do Rancho Broke Jaw estão entocados no depósito subterrâneo de comida e armamentos, com os zumbis da horda do lado de fora em quantidades bíblicas. Mais distantes, Nick e Troy – este último o causador de toda a desgraça – se juntam, depois da morte de Jake, para tentar salvar todo mundo com um plano que parece tão mal feito quanto sua execução. Madison, Strand e Walker não aparecem até os minutos finais.

Nesse beco sem saída, o foco é nos sobreviventes e, dentre eles, em Alicia. Assumindo de vez a liderança que ela começou a demonstrar nos episódios anteriores, a jovem precisa lidar com uma terrível sinuca de bico: matar para que os demais possam sobreviver mais tempo, já que a ventilação do local está bloqueada e Ofelia e Lee estão rastejando pelo sistema para descobrir o que aconteceu. Separando o grupo entre aqueles mordidos e os sadios, Alicia tem a dificílima missão de matar quase que ritualisticamente cada um do primeiro grupo, em um processo que, claro, a destrói internamente ao longo do pouco tempo que passa ali.

Se a personagem demorou a encontrar sua função na série, sempre rumando perdida de um lado para o outro, na terceira temporada ela foi se encontrando, seja pelo romance “com interesses escusos” com Jake, seja pela forma com ela enfrenta e substitui Madison em diversos momentos. Tudo, quer parecer, caminhava para este clímax, um dos mais torturantes até agora neste zumbiverso de Robert Kirkman. Na verdade, chega a ser terrivelmente injusto como toda a responsabilidade recai, quase que em um piscar de olhos, sobre seus ombros. Não só ela precisa liderar e inspirar, como ela precisa executar seu plano quase que completamente sem ajuda. E isso, lógico, tem um preço, preço esse ainda difícil de medir, mas que já fica delineado pela vontade de Alicia de simplesmente ir embora ao final, sozinha para a cabana que Jake mencionara antes de morrer.

O trabalho de maquiagem no episódio merece destaque. E não falo, aqui, dos zumbis, pois é chover no molhado. O ponto que merece comenda é a regressão física de Alicia, com seu rosto cada vez mais cansado e cavado, que, lá por seus momentos finais, a transforma em uma verdadeira “morta caminhante” como diria Rick Grimes. Esse tipo de abordagem sempre foi o coração de Fear the Walking Dead e de sua série-mãe e é quando a natureza humana é desafiada que normalmente os melhores episódios vêm à tona.

Da mesma forma, a direção de Alrick Riley é excelente, com a câmera fechada em Alicia, fazendo-nos viver de forma vicariante os terríveis dilemas da personagem, mas ao mesmo tempo deixando claro que ela não tem saída. A sensação de claustrofobia e finalismo é massacrante, algo que é também amplificado pelo quase completo desaparecimento das cores.

O roteiro de Suzanne Heathcote é inteligente nessas sequências ao criar uma conexão entre Alicia e Christine, uma das poucas que oferece algum tipo de ajuda para ela. Quando elas, com o ar acabando, conversam sobre o passado – Christine sobre o primeiro marido que estava em uma das Torres Gêmeas no 11 de setembro e Alicia sobre uma lembrança constrangedora em um acampamento em que ela e Nick esqueceram a letra da música que batiza o episódio – vemos, ali, que a humanidade tem saída exatamente ao mesmo tempo que percebemos que elas não. Sim, é intuitivo que Alicia sobreviverá, mas a forma como a sequência é trabalhada, notadamente a menção ao 11 de setembro, estabelece o fim do rancho e de todos os seus habitantes, ao mesmo tempo que faz da personagem de Alycia Debnam-Carey, mostrando toda sua capacidade dramática, uma das mais fascinante da série em um piscar de olhos.

Mas é na forma como esse fim é arquitetado que minhas reservas começam. Primeiro, assim como aconteceu com a água, os problemas com a ventilação me pareceram aleatórios e repentinos demais, ainda que haja uma explicação lógica quando Ofelia e Lee descobrem o desmorto enganchado na hélice do ventilador. Mas o elemento principal é a forma como todos – menos Alicia – morrem sem ar e são transformados em zumbis. Conveniente demais, fácil demais. Não há nem mesmo uma outra pessoa que, junto com a personagem, pudesse oferecer resistência?

E, se o plano atabalhoado de Nick e Troy não dá em nada, algo que é de se esperar, a chegada deus ex machina de Madison, Strand e Walker no proverbial último segundo irrita. O roteiro vinha construindo Alicia magistralmente, demonstrando que a personagem tem força suficiente para se virar sozinha, mesmo sem ar e cercada de zumbis. Foi desnecessário que “mamãe” chegasse de repente para salvar o dia e tirá-la daquele inferno. Teria sido muito mais digno se tivessem deixado a jovem livrar-se do problema integralmente sozinha.

Além disso, a dizimação completa do rancho, que ainda tinha potencial para lidar com o conflito oriundo da versão pós-apocalíptica do Destino Manifesto, é um pouco desapontadora. No entanto, a grande verdade é que reservo esse julgamento para depois que a temporada acabar, pois pode ser que a nova divisão do grupo ao final funcione e leve a série a novos e ainda mais interessantes caminhos. Apenas lamento que a história do Rancho Broke Jaw e tudo o que ele significava tenha chegado a um abrupto e cataclísmico fim.

Mesmo diante de problemas, This Land Is Your Land é um episódio potente que deixa o espectador tenso e angustiado, ao mesmo tempo que termina de construir – no processo de destruição do rancho – a personagem de Alycia Debnam-Carey que, espero, terá um futuro que faça jus aos seus sacrifícios. Partindo para uma nova fase, a terceira temporada de Fear the Walking Dead permanece firme e forte em sua intenção de nos fazer esquecer seu passado claudicante, e isso só para usar um eufemismo.

Fear the Walking Dead – 3X13: This Land Is Your Land (EUA, 1º de outubro de 2017)
Criação: Robert Kirkman, Dave Erickson
Showrunner: Dave Erickson
Direção: Alrick Riley
Roteiro: Suzanne Heathcote
Elenco: Kim Dickens, Frank Dillane, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Danay García, Paul Calderón, Karen Bethzabe, Brenda Strong, Daniel Sharman, Sam Underwood, Dayton Callie, Lindsay Pulsipher, Rubén Blades, Jason Manuel Olazabal,  Jesse Borrego, Lisandra Tena
Produtora: AMC
Disponibilização da série no Brasil (na data de publicação da presente crítica): Canal AMC
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.