Crítica | Fear the Walking Dead – 4X01: What’s Your Story?

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Tudo mudou. Depois de uma primeira temporada curta que começou bem, mas acabou mal, seguida por uma segunda temporada tenebrosa, Dave Erickson finalmente acertou na terceira, trazendo uma boa história de conflito inspirada, dentre outros elementos, no Destino Manifesto. Mas a AMC anunciou que Erickson sairia da qualidade de showrunner da série justamente quando estava achando seu caminho. E, mais ainda, rumores e desejos antigos foram confirmados: haveria um crossover com a série-mãe The Walking Dead.

E, então, as especulações começaram. Como seria esse crossover, que personagem faria a conexão, se ela seria efêmera ou perene e em que momento temporal de uma e de outra série ela aconteceria. Quando Morgan (Lennie James) foi finalmente revelado como o personagem que migraria de TWD para FTWD, as especulações continuaram, já que ele tem toda uma época em sua história que não sabemos exatamente o que ele fez e esse período poderia ser utilizado para fazer o encaixe.

Mas, audaciosamente indo aonde nenhum zumbi jamais foi, Fear the Walking Dead, sob responsabilidade agora de Andrew Chambliss e Ian Goldberg, ambos tendo Once Upon a Time de mais relevante no currículo, faz um salto temporal de anos e converte a série de prelúdio em, tecnicamente, uma continuação e altera completamente o status quo de seu elenco principal pelo menos nesse primeiro episódio que tem foco exclusivo em Morgan e em outros dois novos personagens, um pistoleiro solitário e de bom coração (pelo menos em tese) chamado John Dorie (Garret Dillahunt, de The Sarah Connor Chronicles e The Gifted) e Althea (Maggie Grace), uma jornalista que dirige um mega-Caveirão da S.W.A.T. armado com meigas metralhadoras.

E o que realmente chama a atenção em What’s Your Story? é o foco dado a esses novos jogadores desse apocalipse zumbi, com Morgan, de certa forma, servindo muito mais com um fio narrativo para que John e Althea sejam trazidos para o palco do que qualquer outra coisa. Além disso, já que “mudança” certamente foi o mandamento dos novos showrunners, eles não hesitaram em, de certa forma, voltar para o básico, para aquele lado mais desolado, violento e finalista de uma situação limítrofe como a que todos se encontram nesse universo.

Para conseguir passar visualmente esse objetivo, a direção de John Polson retira qualquer traço visual de vida, com uma fotografia dessaturada e uma paleta de cores emudecida e homogênea em tons de cinza e marrom que fazem o episódio ficar naturalmente “pesado”, algo que é amplificado pela atmosfera Mad Max trazida pela gangue aleatoriamente violenta, a boa quantidade de zumbis, e, talvez principalmente, a delicada belezura que Althea pilota sem qualquer relutância de puxar sua alavanca moedora de carne. Além disso, o roteiro escrito pelos próprios showrunners em parceria com ninguém menos do que Scott M. Gimple, trabalha o ângulo do “cavaleiro solitário”, com Morgan sozinho, mas querendo paz, John sozinho mas desesperadamente querendo companhia e Althea sozinha, mas sonhando com um senso de legado, de comunidade, de conhecimento em sua insistência em entrevistar em vídeo todo mundo que conhece.

A união dos três é inevitável e bem trabalhada no episódio, ainda que a insistente presença da gangue pareça um pouco cansativa, por ser repetitiva. Lennie James, fazendo seu Morgan daquele seu jeito soturno que parece querer autoflagelar-se a todo momento, funciona bem dentro desse enquadramento, mas creio que será muito limitativo para a estrutura de qualquer série se seu protagonismo for mantido com ele calado daquele jeito, mesmo que ele tenha impulsos suicidas (afinal, quem é que sobe no telhado de uma casa para enfrentar com uma vareta um cara com um rifle, não é mesmo?). Dillahunt, por sua vez, constrói um personagem que é em partes iguais um Clint Eastwood spaghetti anacrônico e um Don Quixote romântico atrás de sua amada Dulcineia, ou seja, um sujeito que transparece bom mocismo, mas que reage com violência quando necessário, tendo um véu de loucura como pano de fundo. A personagem de Grace é a mais, digamos, comum do trio, mas cuja juventude e dinamismo tendem a equilibrar o lado soturno de seus parceiros.

A história em si é bastante linear, começando com o lado “louco e solitário” de John, em um longo monólogo – ou tentativa de diálogo – no escuro que acaba apresentando Morgan, levando-os a uma aventura que lhes coloca em frente à Althea e seu caminhão-monstro. Se existe um problema maior no episódio, ele está no flashback para Morgan ainda no lixão de The Walking Dead, conversando com seus colegas de lá. O roteiro, aqui, parece ter querido oferecer uma boa dose de fan service ao espectador, com pontas de Rick (Andrew Lincoln), Carol (Melissa McBride) e Jesus (Tom Payne) ao mesmo tempo tentando convencer Morgan de não partir e se despedindo dele. Confesso, porém, que me pareceu um pouco de tempo demais para objetivo de menos. Além disso, se havia também a pretensão de contextualizar a saída de Morgan para aqueles que porventura não assistam a série-mãe, então houve uma falha aqui também, já que os diálogos são quase crípticos para os não-iniciados, dando impressão mais de filler (são quase 10 minutos disso) do que qualquer outra coisa. No entanto, o que vem a seguir quase que consegue compensar esse início moroso.

E, claro, os segundos finais em que finalmente vemos o elenco efetivo da série spin-off aparecer – Alicia, Strand, Luciana e Nick – nos lembram exatamente de onde estamos, mas não de quando. Com os anos que se passaram, será que os quatro foram reduzidos a isso, um bando selvagem que assalta pessoas no meio do caminho? Como eles se reuniram depois do final explosivo na represa do México? Onde está Madison? Será ela a líder “malvada” desse grupo que mais uma vez nos faz lembrar de Mad Max? Essas perguntas e outras – como o quanto Morgan será importante daqui para frente – ficam completamente no ar, mas que, tenho certeza, serão respondidas ao longo da temporada, ainda que, espero, sem pressa para manter o mistério (acho que seria um erro preguiçoso simplesmente fazer um episódio-flashback para construir a ponte dos anos que se passaram, mas não duvidaria que isso acontecesse).

Se What’s Your Story? indica alguma coisa é coragem. Coragem para mudar tudo, colocando o que esperamos e sabemos sobre a série de pernas para o ar e deixando-nos no ar em relação a respostas. Se isso foi apenas um artifício para dar largada de maneira diferente somente para, depois, tudo cair na mesmice, só saberemos mais adiante, mas que foi um baita (re)começo, ah foi!

Fear the Walking Dead – 4X01: What’s Your Story? (EUA, 15 de abril de 2018)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: John Polson
Roteiro: Scott M. Gimple, Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Elenco: Lennie James, Garret Dillahunt, Maggie Grace, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Frank Dillane, Andrew Lincoln, Melissa McBride, Tom Payne
Duração: 49 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.