Crítica | Fear the Walking Dead – 4X03: Good Out Here

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Good Out Here é um episódio tão meticulosamente feito para nos surpreender, que ele acaba não surpreendendo. E, ainda que isso não seja algo ruim – esse negócio de imprevisibilidade e de surpresa é um artifício superestimado -, a trama acaba ficando presa a algumas amarras que impedem seu desabrochar integral, que efetivamente sintamos o grande momento em que vem a virada.

Para começar, a intercalação dos flashbacks com paleta de cores mais claras com o presente em um tom único mais sombrio é o primeiro sinal de “opa, algo errado não está certo”. Não é uma novidade na temporada, pois essas paletas radicalmente diferentes já haviam sido usadas em What’s Your Story? e Another Day in the Diamond, só que separadamente e, portanto, sem criar o choque que é estabelecido aqui. É um bom trabalho de fotografia nas duas pontas, mas que, com certeza, desde os segundos iniciais, já nos faz levantar as sobrancelhas. Em seguida, temos a ausência completa de Madison no presente e um foco quase bucólico nela nos flashbacks, com direito até mesmo a um campo de flores e a uma caracterização mais leve e feliz que, convenhamos, não combina em nada com a construção da personagem até aqui. Finalmente, claro, há o mistério sobre o porquê Nick e os demais querem tão desesperadamente achar os Abutres, ou seria apenas aquele sujeito específico que dirige o carro azul de caçamba aberta junto com Charlie?

Peguem uma peça aqui, outra ali e mais outra acolá e pronto, temos a estrutura que classicamente preludia um momento importante e em tese imprevisível, no caso a morte estúpida de Nick. Digo estúpida no sentido da violência em si, que fique claro, pois o episódio carrega as cores (sem trocadilho) na lição de moral que Morgan, daquela sua maneira estoica e hesitante, tenta passar e que pode ser resumida parafraseando o Profeta Gentileza e, também, o Mestre Yoda: “Violência gera violência”. A morte violenta infligida por Nick volta imediatamente para cima dele, cortesia de ninguém menos do que a própria Charlie que se materializa ali usando os mesmos poderes de invisibilidade de Drax (sim, ainda estou sob a influência de Guerra Infinita). É um “olho por olho” duro, frio e, apesar da inevitabilidade roteirística, muito bem feito e chocante.

O choque vem também pelo fato de que a vítima é Nick, claro. Considerando que ainda não sabemos exatamente o que motivou o grupo a caçar os Abutres, o destino de Madison é incerto e torna a eliminação de seu filho ainda mais interessante, pois deixa Alicia como a última Clark claramente viva. É realmente como se os novos showrunners estivessem providenciando uma limpeza na série, um efetivo reboot não só ao trazer Morgan de The Walking Dead, como acrescentando o cowboy John e a jornalista Althea e, agora, tirando os Clark do protagonismo integral. Ainda acho, porém, que Madison está viva em algum lugar e ela eventualmente dividirá os holofotes com Morgan, mas só o tempo dirá se estou certo.

De toda forma, por mais estranho que Nick tenha sido ao longo das temporadas, ele jamais foi um personagem previsível. Travis era o herói honesto, Alicia a irmã que não serve para quase nada a não ser ficar andando pelos cantos emburrada e Madison era a líder impiedosa. Papéis muito bem definidos e, de certa forma, arquétipos que esperamos em séries assim. Nick, por sua vez, era um sujeito bizarro que passou a viver no mundo dominado pelos mortos como se ele não fosse muito mais do que uma extensão de sua vida de entrega às drogas, ele mesmo vivendo como um morto-vivo. Havia estofo narrativo ali que, infelizmente, somente foi abordado de maneira tímida pelas temporadas anteriores. Sua morte é uma surpresa e, com ela, vai embora um personagem que não conseguiu ganhar o grau de exploração que merecia. Uma pena.

Mas há que se dar um voto de confiança. Não é toda série que tem coragem de fazer isso, pois é perfeitamente razoável afirmar que Nick era o personagem principal. Sem ele, fica um vácuo que pode ser preenchido pelo eventual alargamento do papel de Madison e por alguma abordagem diferente para Morgan, pois a manutenção de seu silêncio padrão não funcionará direito para esse objetivo, ainda que sua política radical do “não matarás” simplesmente precise ser mantida agora. Afinal, Good Out Here é a forma como a série coroa o posicionamento do ninja do cajado de madeira e, para mudá-lo, será necessário um evento que radicalmente altere sua natureza.

Espremido em sua função de nos surpreender, Good Out Here é mais um bom episódio de Fear the Walking Dead. Simplesmente não dá para não ficar curioso com as alterações profundas que os showrunners estão encabeçando. Tomara, porém, que isso significa mudanças para algo diferente e não para que a série-filha torne-se uma cópia carbono da série-mãe.

Fear the Walking Dead – 4X03: Good Out Here (EUA, 29 de abril de 2018)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Dan Liu
Roteiro: Shintaro Shimosawa
Elenco: Lennie James, Garret Dillahunt, Maggie Grace, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Frank Dillane, Andrew Lincoln, Melissa McBride, Tom Payne, Kevin Zegers, Jenna Elfman, Alexa Nisenson
Duração: 49 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.