Crítica | Fear the Walking Dead – 4X04: Buried

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Crossover permanente com The Walking Dead, novos showrunners, salto temporal e morte do protagonista. Realmente, Fear the Walking Dead está fazendo de tudo para reinventar-se e devo dizer que, até agora, nessa “metade da metade” da 4ª temporada, vem conseguindo alcançar seu objetivo com louvor, apesar da boa qualidade de sua temporada anterior.

Buried é um episódio quase lírico que dá continuidade ao mote desta metade de temporada: contar a conta gotas o que aconteceu com Madison e companhia na gigantesca elipse entre a explosão da represa e o encontro deles com Morgan, acompanhado do pistoleiro John e da cinegrafista Althea. Na verdade, o conta gotas, aqui, é duplo, pois os eventos mais remotos têm sido espertamente deixados para um segundo momento, com o foco, agora, ficando mesmo com os eventos mais recentes – ainda é difícil determinar o quão recentes – a partir do cerco ao estádio de beisebol onde todos estavam morando pacificamente.

O lirismo começa com o filtro esverdeado utilizado para as sequências em flashback a partir dos depoimentos de Strand, Alicia e Luciana para Althea a caminho do lugar onde querem enterrar Nick. Ainda que a narrativa volte ao presente por várias vezes, o ritmo determinado pelas voltas ao passado funciona bem e lida com três grupos que partem do estádio para procurar comida: Strand e Cole, Alicia e Naomi e, finalmente, Nick e Luciana. As cores esmaecidas tendem a criar uma atmosfera de estranha tranquilidade, ainda que, ao mesmo tempo, acentuem a putrefação dos mortos e um sentimento constante de infelicidade, de desesperança.

Cada dupla ganha um mini-arco em que, por diferentes razões e com diferentes planos, um membro de cada decide abandonar o estádio. Egoísmo marca a decisão de Strand, medo a de Luciana e descrença a de Naomi e cada uma dessas decisões é revertida pela ação, direta ou indireta, de seu parceiro. Apesar de conveniente, aqui temos que entender que o episódio é simbólico, com cada um dos três sobreviventes no caminhão da S.W.A.T. de Al sentindo-se culpado pela morte de Nick e pelo que aconteceu ao estádio, este último evento permanecendo no ar. Com essa estrutura, o episódio serve como estudo de personagens e como aprofundamento do mistério cultivado por Andrew Chambliss e Ian Goldberg e que, pelo visto, perdurará pelo menos até a metade da temporada.

O roteiro de Alex Delylse destaca-se pela tranquilidade com que aborda os momentos seguintes à morte de Nick, fugindo do lugar-comum e oferecendo uma visão em perspectiva para a situação que conhecemos, já que o que sabemos é muito pouco, notadamente sobre o destino de Madison que é mantido como um grande ponto de interrogação flutuando sobre a temporada. De certa forma, se pararmos para pensar, a aposta é em narrativa intimista, pequena mesmo, que coloca a família Clark e agregados como um detalhe narrativo em uma história maior. Com isso, Fear the Walking Dead consegue ao mesmo tempo distanciar-se do escopo maior da série-mãe (que, agora, é prelúdio desta, tecnicamente, em uma inversão interessante de papeis) e, também, da estrutura que  havia adotado. É quase como se estivéssemos vendo uma série sobre um crime cujo objetivo é revelar, aos poucos, o quem, como, onde e o porquê do assassinato.

Outro ponto de destaque do episódio é a canalização do espírito de Z Nation no quesito “zumbis originais”, mas sem o exagero do escracho do canal Syfy. Primeiro, vemos zumbis espinhudos atacando Strand e Cole em uma estufa e, depois, zumbis aquáticos e lodosos infernizando a vida de Naomi e Alicia no que restou de um parque aquático em boas e originais sequências de ação, com genuína construção de tensão.

Ao final, porém, há uma sensível quebra de estrutura com a localização da mochila de “Laura” por John, que, então, descobre que seu amor era, na verdade, Naomi. Isso em tese, pelo menos. Mas a quebra acontece não com a descoberta em si da arma dentro da mochila, mas sim da revelação de que ela estaria morta, que não sobrevivera ao estádio e, aparentemente, às ações dos Abutres. Creio que há mais nessa história, mas o uso de diálogos expositivos no lugar de flashbacks acaba ferindo, ainda que brevemente, o que Magnus Martens vinha fazendo com maestria na direção, somente para permitir um final em que John e Morgan afastam-se do grupo novamente. Somente espero que haja uma boa justificativa para isso e que não seja um salvamento deus ex machina do grupo que foi com Al.

Buried é um belo exemplar do que uma série de zumbis pode ser. Um episódio contemplativo, mas repleto de tensão e que é sábio ao revelar apenas o minimamente necessário para deixar o espectador salivando por mais. Em meio à tanta mesmice, nada como ver uma série subestimada como Fear the Walking Dead dar uma liçãozinha de como fazer boa TV, não é mesmo?

Fear the Walking Dead – 4X04: Buried (EUA, 06 de maio de 2018)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Magnus Martens
Roteiro: Alex Delyle
Elenco: Lennie James, Garret Dillahunt, Maggie Grace, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Frank Dillane, Andrew Lincoln, Melissa McBride, Tom Payne, Kevin Zegers, Jenna Elfman, Alexa Nisenson, Sebastian Sozzi
Duração: 49 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.