Crítica | Fear the Walking Dead – 4X05: Laura

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Sempre gostei assim “de graça” de Garret Dillahunt, desde que conheci o ator como John Henry/Cromartie em Terminator: The Sarah Connor Chronicles, uma das séries, juntamente com Deadwood e Firefly, cujo cancelamento mais me deixou com incuráveis chagas psicológicas. Portanto, pode ser que minha particular apreciação pelo ator tenha contaminado minha visão de Laura, que, em poucas palavras, considerei ainda melhor do que o excepcional Buried, em uma dobradinha que já coloca Fear the Walking Dead como uma daquelas séries que realmente conseguiu ressurgir das cinzas como a proverbial Fênix, mesmo diante da ousada quantidade de mudanças que a 4ª temporada trouxe.

Deixando Dillahunt de lado só por um momento – e só um momentinho mesmo – o grande destaque do episódio é o roteiro old school de Anna Fishko, que certamente o escreveu tendo em mente os clássicos de George A. Romero, mas emprestando-lhes uma roupagem de romance que realmente encanta. A simplicidade é a chave desde sua premissa que já vimos um milhão de vezes: situação idílica em uma distopia é interrompida pela chegada de uma pessoa e, depois, por eventos devastadores. Em cima disso, Fishko constrói um episódio quase que integralmente em flashback para nos contar como John Dorie, o cowboy um tanto maluquinho que conhecemos nos primeiros segundos de What’s Your Story? conheceu a misteriosa Laura que, como ele descobre ao final do episódio anterior, era, na verdade, Naomi, a enfermeira loira que vimos a família Clark resgatar em Another Day in the Diamond.

A natureza estoica dos personagens de Dillahunt é explorada ao máximo aqui, colocando-o como o homem solitário que vive em estado de extremo T.O.C. em sua muito prática e quase auto-suficiente cabana à beira de um rio. Nada lhe falta, a não ser companhia e eis que ela chega na figura de Naomi, ferida e que recebe cuidados dele. Sem dizer seu nome e, ato contínuo, sendo batizada de Laura por um John muito respeitoso que tudo dá e nada pede em troca, a relação dos dois vai sendo fortalecida enquanto a mulher se recupera de seu ferimento. A arredia Laura vai, aos poucos, aproximando-se do tímido John, com o episódio muito calmamente construindo um simpático romance em um pequeno pedaço do paraíso cercado de monstruosidades.

E cercado o paraíso realmente está, pois a primeira linha de defesa da casa de John é um fosso que ele cavara para atrasar o avanço dos mortos-vivos, mas que uma brecha na ponte mais próxima alimenta seu jardim cada vez mais frequentemente de zumbis. Há um forte lirismo permeando o episódio, com a mesma paleta de cores dos flashbacks multipartites do episódio anterior, que evocavam podridão e um fim iminente, aqui ganhando uma conotação diferente e fundamentalmente oposta, passando-nos, primeiro, uma ideia de tranquilidade, isolamento e solidão e, depois, a partir da chegada de Naomi, uma aura de esperança e, sim, de romance. Michael E. Satrazemis, que notabilizou-se, primeiro, como diretor de fotografia de The Walking Dead e, depois, diretor da mesma série, tem o status de produtor em Fear the Walking Dead e, pela segunda vez na temporada, vai para atrás das câmeras usar sua experiência na criação de uma atmosfera de horror com elementos básicos do gênero, tão básicos que chega a ser uma surpresa notar o quão eles são eficientes aqui, especialmente considerando que sabemos que nenhum dos dois personagens pode morrer.

Para isso, basta reparar o ponto alto da ação em Laura, quando vemos o enxame de desmortos chegando à noite na cabana, imediatamente fazendo nossa mente voltar décadas no passado para o primordial A Noite dos Mortos-Vivos. A tensão e o medo são construídos dentro de algo que absolutamente esperamos e já vimos mil vezes, mas que funciona justamente por ser trivial: noite, monstros, câmera subjetiva, claustrofobia, momento de triunfo. Esperamos exatamente cada um daqueles passos, especialmente quando John finalmente empunha suas belas pistolas como um Clint Eastwood pós-apocalíptico e, mesmo assim, sentimos a força que as imagens evocam.

Dillahunt, que sempre vi como aquele ator caladão que justifica sua presença muito mais por seu jeitão estranho do que por dotes dramáticos, usa essas características para criar um personagem fascinante. Torturado por um passado que não quer relembrar, ele é um homem fundamentalmente bom ao ponto de irritar. Seus olhares de soslaio para Laura, os trejeitos corporais de alguém que só quer fazer o bem, mas que já foi obrigado a fazer o mal, são lancinantes, de realmente emocionar, com Jenna Elfman gerando a necessária química ao construir uma Naomi ressabiada, arredia, mas desejosa de segurança e de um semblante de vida normal. Quando há a entrega, o momento da declaração de amor envergonhada, certamente não esperando qualquer traço de reciprocidade, vemos uma catarse de se tirar o chapéu, capaz de realmente trazer aquela lágrima furtiva aos olhos mais incautos. E não escrevo isso à toa, pois tenho total consciência que não é nem um pouco razoável esperar-se algo assim de nada menos do que a 4ª temporada de uma série spin-off de outra série que já está para chegar em seu 9º ano, ambas sobre a vida em um mundo tomado por zumbis. Não havia nada de novo a ser mostrado. Não poderia haver e os novos showrunners simplesmente não tinham o direito de fazer isso com seus espectadores.

Mas Andrew Chambliss e Ian Goldberg fizeram. E, com Laura, mostraram que menos é mais e que um roteiro muito bem escrito que retrabalha conceitos mais do que batidos e que é trazido à vida pelas lentes de um diretor de mão cheia pode ser ouro em uma terra arrasada pela mesmice morta-viva. Realmente não sei se eu me deixei levar pela minha admiração por Dillahunt, mas creio que não. Esse episódio aqui merece a mais alta comenda por transformar o trivial em triunfo. E isso não é fácil.

Fear the Walking Dead – 4X05: Laura (EUA, 13 de maio de 2018)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Michael E. Satrazemis
Roteiro: Anna Fishko
Elenco: Lennie James, Garret Dillahunt, Maggie Grace, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Frank Dillane, Andrew Lincoln, Melissa McBride, Tom Payne, Kevin Zegers, Jenna Elfman, Alexa Nisenson, Sebastian Sozzi
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.