Crítica | Fear the Walking Dead – 4X06: Just in Case

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Depois do magnífico Laura, que seguiu o também excelente Buried, fiquei com receio por Just in Case. Afinal, manter a qualidade do que veio imediatamente antes não seria uma tarefa das mais simples e, dito e feito, o episódio deixa muito a desejar em diversos quesitos, além de nos brindar com uma reviravolta final que, muito sinceramente, pode ser uma questão de vida ou morte para a série em si.

Mas comecemos pelo começo. Ou pelo meio, tecnicamente, já que quero abordar o longo flashback que é enquadrado por duas sequências breves no presente. Em mais essa volta ao passado, outras peças do quebra-cabeças do que aconteceu no estádio de beisebol são oferecidas, com foco integral em Naomi que, mais uma vez tentando fugir dali sem avisar ninguém, acaba levando Madison e Strand para um estabelecimento da FEMA, a agência americana de gerenciamento de emergências onde vivera por um tempo. Lá, ela enfrenta seu passado e aprendemos do que exatamente ela foge, já que, em sua confissão, ela acaba revelando sobre a doença de sua filha e como a morte da menina deflagrou a conversão de todos os demais sobreviventes de seu grupo em zumbis.

Se as sequências dentro da FEMA com Naomi sozinha vendo sua vida pregressa pesando sob seus ombros são momentos bem construídos e que levam a um bom clímax de tensão com ela cercada de mortos-vivos, toda a explicação do que ocorrera com ela a Madison e Strand é exagerada na exposição, atravancando o momento e quebrando a lógica estrutural da temporada, muito mais focada – ainda bem! – em mostrar o passado do que falar sobre ele. No entanto, por incrível que pareça, esse nem é o momento menos inspirado do episódio, pois, em uma decisão extremamente equivocada do roteiro de Richard Naing, temos um vislumbre verbal do que acontecera aos Clark, Luciana e Strand depois da explosão da represa no México.

Por mais incrível que possa parecer, um momento tão esperado e tão importante para fazer a ponte entre a e a 4ª temporadas é abordado de forma burocrática e quase como se os novos showrunners quisessem apagar a temporada anterior da existência. Então quer dizer que todos eles viveram em uma caverna(!!!) até Strand poder andar novamente? Madison ajudou o traidor pela bondade de seu coração e com sua capacidade infinita de perdoar? Assim, só com essas três ou quatro linhas de diálogo o passado remoto foi abordado e rechaçado? Mesmo que Andrew Chambliss e Ian Goldberg venham a corrigir isso em episódio posterior, o fato permanece que, aqui, esse momento é forçado e completa e absurdamente equivocado. Tudo bem que estamos diante do que pode ser sim chamado de um reboot da série, mas se é para enterrar completamente o que passou, então seria mais honesto começar a temporada com todo o elenco original morto e enterrado. E isso é especialmente ruim considerando que foi justamente a temporada anterior que conseguiu finalmente mostrar do que Fear the Walking Dead era capaz.

Mas voltando aos acontecimentos do episódio, fica evidente que os showrunners estão fazendo de tudo para manter o mistério sobre o que aconteceu afinal no estádio e especialmente com Madison e quem exatamente é Naomi. E isso em si é louvável, mas não a qualquer custo. Já havíamos entendido muito bem sobre o passado da enfermeira fujona quando a vimos como Laura no capítulo anterior. Claro que era importante sabermos mais sobre a filha dela, mas será que tudo sobre ela foi só uma cortina de fumaça para revelar que Naomi faz parte dos Abutres e que talvez até seja mãe da menina que matou Nick? Se for uma tentativa de desviar nossa atenção, diria que é um trabalho elaborado demais e repleto de voltas e mais voltas que não levam a lugar nenhum. Repito: já entendemos quem Naomi parece ser. Manter o disfarce por mais tempo – se é que é um disfarce – pode ser cansativo.

E, com isso, voltamos para o presente nos dois momentos que margeiam o flashback. No primeiro, vemos uma excelente sequência em que um Abutre é emboscado por John Dorie, com a câmera mantendo o foco no homem e deixando-nos apenas ouvir a voz do pistoleiro. Foi um belo artifício narrativo que, em conjugação com a fotografia quase sem cor alguma, evocou demais o espírito de filmes de faroeste clássicos, mas com uma pegada moderna em termos de jogo de câmera. Mas o plano de John e de Morgan – evitar mais banho de sangue – parece-me deslocado, especialmente porque eles, assim como nós, não sabem exatamente o que aconteceu no estádio e com Madison. Ao tentar impedir uma potencial tragédia, vem então a reviravolta do roteiro que coloca o apaixonado John Dorie na mira de Alicia.

Teria ela mirado em Naomi e acertado em John? Ou ela atirou mesmo diretamente em John por achar que ele é um Abutre? Devo confessar que, independente dos possíveis eventos terríveis no estádio ou da confusão mental de Alicia, essa sequência não me pareceu fazer muito sentido. Além disso, espero fortemente que Dorie não morra, pois ele seria mais um de uma longa lista de pessoas boas que morrem em Fear the Walking Dead, quase que negando completamente a própria necessidade de existir gente assim. E isso sem contar que, dramaticamente, faria muito mais sentido explorar o relacionamento pregresso entre ele e “Laura”, diante do que eventualmente Naomi revele-se ser. Sem John, a série perderá muito, pois Morgan, até onde me consta, é apenas o equivalente de cajado do Grilo Falante.

Just in Case foi um tropeção feio, daqueles de rolar escada abaixo, na qualidade desta temporada. Claro que Fear the Walking Dead ainda tem crédito para gastar, mas tudo realmente vai depender do destino de John Dorie…

Fear the Walking Dead – 4X06: Just in Case (EUA, 20 de maio de 2018)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Daisy von Scherler Mayer
Roteiro: Richard Naing
Elenco: Lennie James, Garret Dillahunt, Maggie Grace, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Frank Dillane, Andrew Lincoln, Melissa McBride, Tom Payne, Kevin Zegers, Jenna Elfman, Alexa Nisenson, Sebastian Sozzi
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.