Crítica | Fear the Walking Dead – 4X07: The Wrong Side of Where You Are Now

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Em qualquer série normal, o conteúdo de The Wrong Side of Where You Are Now seria abordado em algo como cinco, talvez 10 minutos, mas Fear the Walking Dead, apesar do estupendo começo da temporada, parece estar fazendo escola com a série-mãe, espalhando a tolkeniana pouca manteiga em um pedaço muito grande de pão. Sim, já percebemos que ficaremos no suspense sobre o que aconteceu mesmo no estádio e especialmente com Madison, mas um capítulo inteiro da mais pura e absoluta enrolação que segue outro não muito diferente foi uma experiência frustrante para dizer o mínimo.

Afinal, temos que lembrar que FTWD vinha nadando de braçada nesta inesperada 4ª temporada, simplesmente devorando qualitativamente tudo que TWD vem oferecendo há pelo menos duas temporadas. Depois de Laura então, um daqueles episódios para se assistir de joelhos e que seguiu o já espetacular Buried, o céu era literalmente o limite. Mas, assim como Ícaro e seu pai Dédalo, Andrew Chambliss e Ian Goldberg talvez tenham chegado muito próximo ao sol com suas asas de cera que, já em Just in Case, começaram a derreter. The Wrong Side of Where You Are Now, agora, coloca a temporada em queda livre, tudo dentro do espírito bobo e, francamente, desprezível de se esticar a revelação de uma surpresa qualquer a todo custo, subestimando a inteligência e a paciência do espectador.

E o problema já vem nos primeiros segundos de projeção, com um tiroteio para lá de genérico entre Alicia, Strand e Luciana e os Abutres que, conforme vimos ao final do episódio anterior, eram muito – mas MUITO – mais numerosos, mas que apanham como cão ladrão ao ponto de Morgan e Al não precisarem fazer absolutamente nada, Naomi poder andar para lá e para cá incólume e Charlie aparecer e desaparecer como a versão mirim de David Coperfileld (sim, aquele do Fantástico – puxei do fundo do baú mesmo). Ainda que a violência mortal de Alicia seja debilmente interessante, toda a situação é forçada demais e, no final das contas, completamente anti-climática.

Quando John Dorie – mais conhecido como o único personagem por quem me importo no momento – é transportado para o Caveirão de Al, imediatamente uma nuvem negra relampejante e chuvosa formou-se sobre a minha cabeça, com um único pensamento vindo à minha mente e fixando-se por lá: pronto, agora os showrunners vão nos deixar pendurados sobre o destino do cowboy. Dito e feito, o moribundo pistoleiro fica lá estendido na traseira do caminhão até o segundo final, quando finalmente voltamos para o estádio no presente para descobrirmos os zumbis bronzeados lá dentro.

Entre as sequências pouco inspiradas no presente, o roteiro de Melissa Scrivner Love insere flashbacks com nível de tensão zero e nível de burrice 10, algo muito bem exemplificado pela permanência de Nick e Alicia paralisados dentro do carro esperando serem cercados por desmortos oleosos como dois parvos que não são sequer dignos de figurarem na franquia Debi & Lóide. Afinal, para além da burrice em si, há o simples fato que sabemos que nem Alicia nem Nick morrerão ali, já que, claro, nós os vimos no “futuro”. O mesmo vale para Mel. Com isso, fica a pergunta: para que exatamente aquilo ali serviu? Para mostrar que os dois irmãos ainda retém sua humanidade? Para contrastar com a frieza de Madison? Se foi, então eu poderia listar pelo menos uma dezena de outras formas de chegar à mesma conclusão, isso se, claro, ignorarmos que essa questão já havia ficado evidente de forma bem mais eficiente em praticamente todos os episódios anteriores da série inteira.

A direção de Sarah Boyd, por outro lado, faz o melhor proveito da estrutura de presente e passado, mesmo considerando o roteiro natimorto que ela tem para trabalhar. Não é nada particularmente excepcional, mas ela consegue demonstrar um bom trabalho de câmera que emula filmes clássicos de horror, com direito a tomadas noturnas com névoa e um belo plano geral da zumbizada saindo dos caminhões. Mas é pouco demais para colocar o episódio na linha da mediocridade, infelizmente.

Pensando bem, The Wrong Side of Where You Are Now deveria ter tido não mais do que três minutos e ser todo ele contido na sequência que antecede os créditos de um episódio que efetivamente contasse uma história e não apenas o semblante de uma. Com apenas mais um episódio antes do longo hiato, Fear the Walking Dead precisa desesperadamente encontrar-se novamente, sob pena de deixar seus valorosos espectadores (pois sobreviver à 2ª temporada e continuar em frente merece comenda!) extremamente aflitos pelo que parecia ser a promessa de redenção do universo de Robert Kirkman na TV.

Fear the Walking Dead – 4X07: The Wrong Side of Where You Are Now (EUA, 03 de junho de 2018)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Sarah Boyd
Roteiro: Melissa Scrivner Love
Elenco: Lennie James, Garret Dillahunt, Maggie Grace, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Frank Dillane, Andrew Lincoln, Melissa McBride, Tom Payne, Kevin Zegers, Jenna Elfman, Alexa Nisenson, Sebastian Sozzi
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.