Crítica | Fear the Walking Dead – 4X08: No One’s Gone

  • Há spoilers. Leia, aqui, a crítica de todos os episódios da série.

Já disse algumas vezes, mas não me canso de repetir: poucas séries tiveram coragem de mudar tanto em momento tão avançado quanto Fear the Walking Dead. Mesmo com os dois episódios anteriores muito fracos e extremamente destoantes da qualidade apresentada neste primeiro arco da 4ª temporada, testemunhar a troca de showrunner, a interseção com personagem vindo da série-mãe e sua correspondente transformação de prelúdio em continuação (pelo menos até o começo da 9ª temporada de TWD), a introdução de personagens completamente novos, a sublimação (para o mal ou para o bem) dos eventos finais da 3ª temporada e a morte não de um, mas dos dois personagens principais é algo raro de se ver por aí sem uma queda acentuada de qualidade ou a completa perversão do espírito da obra.

E Andrew Chambliss e Ian Goldberg fizeram exatamente isso, com um resultado que, pelo menos até aqui, na metade da temporada, pode ser facilmente considerado acima da média. Uma tarefa decididamente nada fácil e, mais ainda, bem arriscada, pois pode afastar espectadores. Afinal, com a decisão de Frank Dillane de sair da série, a morte prematura de seu personagem Nick, apesar de muito bem trabalhada em Good Out Here, soa estranha se olharmos apenas em termos dramáticos agora que sabemos que Madison também morrera. Havia espaço para apenas um desses grandes momentos em tão pouco tempo e a morte de Nick, de certa forma, “roubou o trovão” (só de brincadeira traduzindo diretamente a expressão idiomática steal the thunder do inglês) da de Madison, cujo mistério foi mantido a sete chaves ao longo desses oito episódios.

Olhando a mesma situação sob outro ângulo, é discernível que o grande sacrifício da impiedosa líder do grupo, que morreu fazendo justiça à sua missão de fazer tudo por seus filhos, perde o impacto quando metade de sua prole morreria logo adiante, com a revelação não-linear transformando o presente em passado e vice-versa para nós, espectadores. É quase como morrer à toa, com pelo menos metade do impacto arremessado pela janela, mas não por culpa dos showrunners, claro, e sim pela falta de escolha sobre o que fazer já que reescalar o papel de Nick, apesar de possível, seria no mínimo estranho.

Com isso, em oito semanas – nove  se adicionarmos o intervalo do Memorial Day lá fora que impediu a transmissão de FTWD – a família Clark praticamente deixa de existir, com apenas uma personagem do núcleo realmente original ainda viva, Alicia, que, até prova em contrário, não me parece ter o que é necessário para substituir sua mãe na liderança de nada. É um literal “começar de novo” e é aí que a proverbial porca torce o rabo para aqueles que vinham acompanhando a série desde o começo e que sobreviveram e perseveraram pela desastrosa 2ª temporada. Será que haverá interesse desse público em continuar acompanhando o que essencialmente é, agora, outra série?

E faço essa pergunta honestamente e afirmando que, apesar do viés aparentemente negativo do que escrevi até agora, estou, ao contrário, elogiando o trabalho da dupla que assumiu o controle da série. Estamos diante de um caso em que as chances de tudo dar extremamente errado era gigantesca e No One’s Gone circunavega todas as armadilhas tão bem que quase consegue apagar o gosto ruim deixado particularmente por The Wrong Side of Where You Are Now. A primeira característica interessante do episódio é confundir o espectador sobre o momento do flashback envolvendo Madison e Al que, de forma intercalada, toma grande parte do capítulo. O início do conflito entre as duas lembra muito a abertura da temporada, com John, sozinho, esperando Morgan aparecer na noite sombria, em uma bela sequência espelhada que serve de rima para o encerramento do arco. A entrevista que se segue é interessante por não se valer de flashback dentro de flashback, algo que em princípio vai contra o “modelo” audiovisual que evita usar palavras quando imagens estão disponíveis. Mas, aqui, o subterfúgio faz sentido e é bem empregado para deixar-nos temporalmente perdidos, pelo menos até certo ponto, quando passamos a realmente entender que esse encontro casual no meio do mato deu-se antes de Madison fundar sua comunidade dentro do estádio de beisebol, em momento posterior, mas incerto, em relação à explosão da represa.

É perfeitamente possível sentir o finalismo na progressão do episódio, algo que fica pendurado como uma nuvem negra pairando no horizonte. Não é exatamente possível visualizar um final feliz para Madison ou até mesmo para as equipes opostas no conflito do presente no estádio tomado de zumbis tostados. Ainda que o sacrifício de Madison faça todo o sentido para a personagem, creio, porém, que a situação iniciada pelos Abutres poderia ter sido mais urgente, mais inescapável do que a escolha dela em colocar fogo em tudo com ela lá dentro. Claro que há um histórico na série de personagem que sobreviveu a incêndios, mas espero que não seja o caso aqui (mas, é aquilo: sem corpo, sem morte…). De toda forma, houve solenidade ao fim da personagem, mas que poderia ter sido por meio de um evento “à prova de balas”, daquele tipo que não deixa o espectador pensando em diversas alternativas que ela tinha à disposição para sobreviver (afinal, ela é a primeira a entrar no estádio e poderia ter subido as arquibancadas e colocado fogo nos desmortos lá de cima ou algo do gênero…).

Mas, estruturalmente, o episódio funciona no vai e volta entre passado e presente, com uma ação intensa com a fotografia esmaecida, ainda que toda essa raiva de Alicia, que envolve até mesmo o uso de lança-foguetes e a ameaça de assassinato de uma criança (não que eu tenha algum amor por Charlie, que fique bem claro), pareça-me exagerada demais e fora de seu personagem. De toda forma, a resolução pacífica funciona, ainda que o uso do artifício da entrevista mais uma vez ao final tenha me deixado preocupado quando a roda ao redor da fogueira apareceu. Felizmente, porém, o roteiro, desta vez escrito pelos próprios showrunners como no começo da temporada, estabeleceu uma outra dinâmica em que todos contribuíram com a “história de Madison” e com flashbacks usados de forma parcimoniosa que não afetaram o ritmo narrativo e resultaram em uma despedida digna, mas não sem problemas, como comentei anteriormente, para a chefona.

Madison fará falta. Sua liderança e sua força eram extraordinárias ao ponto de arriscar a afirmar que ela era melhor do que Rick Grimes. Não sei qual é o rumo que FTWD tomará, mas, definitivamente, fiquei curioso.

  • FTWD entrará em hiato, retornando em agosto.

Fear the Walking Dead – 4X08: No One’s Gone (EUA, 10 de junho de 2018)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Michael E. Satrazemis
Roteiro: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Elenco: Lennie James, Garret Dillahunt, Maggie Grace, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Frank Dillane, Andrew Lincoln, Melissa McBride, Tom Payne, Kevin Zegers, Jenna Elfman, Alexa Nisenson, Sebastian Sozzi
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.