Crítica | Fear the Walking Dead – 4X09: People Like Us

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These grapes are not meant for wrath.
– Strand

Magnus Martens, diretor de Buried e Anna Fishko, roteirista de Laura, formam a dupla que encabeça People Like Us, episódio que marca o começo da segunda metade da 4ª temporada de Fear the Walking Dead. O resultado é uma mescla interessante dos dois episódios citados, com uma pegada de ritmo lento e estrutura entrecortada que mantém a lógica decorrente dos acontecimentos anteriores e constrói um futuro imediato potencialmente interessante, ainda que não particularmente original.

Algum tempo se passou desde a volta ao estádio onde o destino de Madison nos foi revelado. John, que ainda se recupera de seu ferimento, vive em um ônibus com June (ex-Laura, ex-Naomi) e Charlie em uma ponte, Al vive em seu caminhão da S.W.A.T., Morgan em uma tenda, o permanentemente bêbado Strand com a completamente perdida Luciana em uma mansão e, finalmente, Alicia na estufa do jardim da mansão, obcecada com desmortos que trazem bilhetes com pedidos de socorro pregados no corpo. O grupo está separado, mas próximo, com cada um lidando – ou não – de seu jeito com todas as tragédias anteriores. A única linha narrativa que conecta cada um é Morgan e sua decisão de voltar para Alexandria para a qual ele arregimenta Al e tenta convidar todos os demais, apenas para receber negativas pelas mais variadas razões. Enquanto isso, uma gigantesca tempestade – que vemos brevemente no prólogo com CGI de revirar os olhos – avizinha-se, prometendo morte, destruição e, talvez, se eles tiverem sorte, a expiação de seus pecados.

Mas nada é tão fácil, claro. E nem tão rápido. O roteiro não tem pressa alguma em fazer a história andar de maneira significativa. Ao contrário, o texto de Fishko praticamente tem como função primordial nos reapresentar aos personagens passado talvez um mês ou um pouco mais desde a última vez que os vimos. Morgan é o “mestre de cerimônias” que, mancando levemente, pega na mão do espectador e o leva por amostras grátis do comportamento de cada um, em momentos bastante significativos e auto-explicativos sobre eles.

E essa abordagem faz absolutamente todo sentido. Afinal, a primeira metade da temporada foi, para todos os efeitos, uma reformulação completa da série, com o passado na represa sendo esquecido, Madison e Nick sendo limados e, finalmente, Morgan, Al, John e June (e Charlie, não esqueçamos!) sendo acrescentados ao elenco fixo. Um episódio para “limpar o palato” era, portanto, bem-vindo e até necessário, de forma a completar essa transição para algo quase zero quilômetro. Por isso é que a decisão de Morgan de voltar para Alexandria faz sentido aqui, pois cria um propósito não só ao personagem, como para essa metade de temporada, ainda que eu desconfie fortemente que a ideia ficará só por aí mesmo, sem jamais ser efetivada, até porque isso desfaria todo o tão propalado crossover com a série-mãe.

Sem dúvida que a reversão de Strand ao seu jeito auto-destrutivo de ser, o mergulho na depressão de Luciana e a busca por propósito de Alicia parecem artifícios fáceis de roteiro, que praticamente revertem os personagens – talvez com exceção de Luciana – a seus estados anteriores, de onde já saíram e entraram algumas vezes ao longo das temporadas. Mas pensem comigo: por mais que estejamos em um mundo infestado de zumbis, aqueles que ainda vivem são apenas humanos. E esses três carregam o peso da culpa e da perda nos ombros muito fortemente. É mais do que natural que cada um fuja para lugares de conforto na mente, mesmo que, para terceiros observando de fora, esses lugares sejam terríveis, verdadeiros becos sem saída. A morte de Madison, que resulta em um espécie de vingança louca que acaba frustrada tinha que quebrar a trinca original sobrevivente, não havia jeito. Cabe mesmo a Morgan e talvez aos demais tentarem recolocá-los nos trilhos, o que é o mote do episódio.

Com isso, Fishko encontra maneiras eficientes – ainda que levemente convenientes e coincidentes – para separar o grupo em duplas de auto-ajuda. Morgan com Alicia em missão de resgate que obviamente não resultaria em nada, John com Strand tentando localizar Charlie, talvez a mais perdida dali, Al com June e, finalmente, Luciana também correndo atrás de Charlie. A chuva que chega forte, com direito a desmortos sendo levados pela ventania (zumbinado?), os separa ainda mais e estabelece aquilo que espero não seja o objeto dos sete próximos episódios, ou seja, a reunião deles ao final, em um movimento circular que não levaria a lugar algum. Se a primeira metade manteve aquele irritante mistério sobre o paradeiro de Madison, torço para que os showrunners Andrew Chambliss e Ian Goldberg não trafeguem pelo caminho mais fácil, que seria utilizar o que resta de tempo apenas para fazer o grupo voltar a ser um grupo. Seria óbvio demais, cansativo demais. Ou talvez não, nunca se sabe. Muito cedo para dizer, certamente, mas não custa pintar um quadro pessimista para ser surpreendido positivamente, não é mesmo?

Martens, na direção, mantém um controle quase científico da decupagem, com sequências intercaladas de duração parecida que, reunidas, não só não confundem o espectador, como mantém um ritmo cadenciado e bem estruturado. Usando a chuva e o barômetro da mansão como marcadores de fluidez temporal da mesma forma que um marcador de ritmo funciona para treinamento musical, o episódio caminha vagarosa, mas certeiramente, sem maiores percalços. Da mesma forma, a fotografia “morta”, quase depressiva, que vem marcando a temporada é mantida aqui, de forma a evitar que vejamos sequer um traço de esperança. Tudo parece mesmo que vai de mal a pior, com os sonhos de John de retornar à sua cabana e o de Morgan à Alexandria não passando de desejos que não parecem nada próximos de serem realizados.

People Like Us é um bom recomeço de temporada que nos faz mergulhar, em doses homeopáticas, na mente dos personagens, discutindo questões de propósito e identidade e o que é o lar em meio a uma situação apocalíptica sem saída. Resta esperar que Chambliss e Goldberg encontrem efetivamente o norte da temporada e o persigam de verdade, resistindo à tentação de fazer os personagens caminharem em círculos.

Fear the Walking Dead – 4X09: People Like Us (EUA, 12 de agosto de 2018)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Magnus Martens
Roteiro: Anna Fishko
Elenco: Lennie James, Garret Dillahunt, Maggie Grace, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Frank Dillane, Andrew Lincoln, Melissa McBride, Tom Payne, Kevin Zegers, Jenna Elfman, Alexa Nisenson, Sebastian Sozzi
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.