Crítica | Fear the Walking Dead – 4X10: Close Your Eyes

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Fear the Walking Dead, com Close Your Eyes, volta ao episódio intimista depois do espetacularmente simples Laura. E, melhor, novamente com a direção de Michael E. Satrazemis, que começou nesse universo em The Walking Dead, no já longínquo ano de 2010 como operador de câmera, graduando em 2013 para diretor de fotografia e, no ano seguinte, para diretor e, agora, tornando-se produtor da série-filha, mas sem deixar de pegar no leme de vez em quando. E, aqui, Satrazemis reúne seu olho clínico para a fotografia sombria em um episódio que essencialmente manipula a percepção do espectador sobre o artifício batido da “casa mal-assombrada” em um resultado que, se não chega ao nível de Laura, ratifica o quanto episódios de pequeno escopo fazem bem a uma série como essa.

O deslumbramento visual começa já nos primeiros segundos, quando vemos, pelo vidro de uma porta, alguém se aproximando na chuvarada que não para desde que a 4ª temporada recomeçou. Aos poucos percebemos que é Alicia, que abandona Morgan à sua própria sorte ao final de People Like Us. Ela quer abrigo e a casa parece perfeita e, vagarosamente, ela vai extirpando os zumbis residentes de lá. O que logo chama a atenção é o forte contraste entre a claridade do exterior e as sombras do interior, com constante uso de contra-luz, algo que reflete diretamente a mente de Alicia nesse momento em que ela tenta reconciliar seu papel nesse mundo em que sua mãe não mais está. A construção de uma atmosfera de filme de terror não está lá para gerar sustos fáceis, porém. Aliás, são poucos os sustos verdadeiros ao longo do episódio e eles nem mesmo são importantes, pois o objetivo está em criar uma ambientação que reflita as dúvidas de Alicia, algo que é amplificado com um excelente – em sua sutileza – trabalho de maquiagem que cria uma máscara quase paranoica na personagem e que, aos poucos, sem que percebamos, vai sendo suavizada até normalizar-se.

A presença de Charlie por ali, depois de fugir da mansão onde Strand e Luciana moravam, pode até ser encarada como uma daquelas coincidências de fazer os olhos revirarem, mas a grande verdade é que, mesmo assim, o artifício funciona aqui. Não é importante racionalizar o “como”, mas sim o “porquê” da necessidade desse encontro. E há pelo menos duas razões primordiais. A principal é fazer Alicia enfrentar e exorcizar seus demônios e não havia outra maneira de colocá-la a frente dela mesma se não fosse usando Charlie como o avatar de toda sua frustração, raiva e medo. Calma, calma. Eu sei que Charlie não é das personagens mais queridas da temporada, por tudo o que ela fez até aqui, mas o foco é em Alicia e é ela que precisa encontrar-se de verdade, algo que a faz atravessar diversos estágios ao longo dos breves 45 minutos enclausurada na casa com sua “pior inimiga” (e não falo de Charlie). Do desejo puro de vingança, passando pela maldade e frieza, chegando à acomodação e, depois, a liberação desse peso, Alycia Debnam-Carey dá um show de atuação, algo que já disse que ela tem capacidade de mostrar, mas que Fear the Walking Dead raramente lhe dava a real oportunidade, com sua personagem sempre ficando à sombra de Madison e de Nick.

A outra razão para o embate entre Alicia e Charlie é a necessidade de se desenvolver a menina. Afinal de contas, se pararmos para pensar, ela, até agora, não era mais do que uma espécie de instrumento narrativo para catalisar os principais momentos da temporada, sem qualquer estofo que a transformasse em uma efetiva personagem. Aqui, o roteiro de Shintaro Shimosawa, voltando a série desde o fatídico Good Out Here, tenta humanizar Charlie e convertê-la em alguém com motivações, com passado e, claro, alma. Não é necessariamente para, de repente, gostarmos dela, ainda que o texto seja apressado – diria até meteórico – e com um grau expositivo grande demais, com toda aquela história dos pais dela e da praia em Galveston que cansam a beleza, trabalhado justamente para sairmos da experiência pelo menos neutros em relação à jovem. Infelizmente, Shimosawa “força a barra” tanto dentro da casa quanto especialmente quando as duas, sãs e salvas, estão no carro, com aquele momento master-clichê “feche os olhos e veja a praia” que deu vontade foi de desligar a televisão. E o mesmo vale para o epílogo quebrador de clima que retorna as duas à mansão e ao ônibus, somente para descobrirem que todos sumiram depois da chuva. Mas são pecados menores considerando a ingrata missão que ele tinha aqui de abordar os fantasmas de Alicia e Charlie em meros 45 minutos, tendo o furacão como pano de fundo.

Se cabem todos os elogios a Satrazemis pela belíssima condução do episódio em termos narrativos e fotográficos, que chegam de certa forma a compensar os problemas do texto de Shimosawa, há que citar o papel de Adam Suschitzky como diretor de fotografia desde o começo da temporada. Representante da terceira geração de Suschitzkys na profissão, depois de seu avô Wolfgang (Carter, o VingadorAs 7 Máscaras da Morte) e de seu pai Peter (O Império Contra-Ataca e vários filmes de David Cronenberg), Adam realiza à perfeição a visão estabelecida pelo roteiro e provavelmente influenciada por Satrazemis, em uma narrativa visual que, puxando pela memória, foi a melhor da série até agora, rivalizando até mesmo os melhores momentos do próprio Satrazemis na fotografia de The Walking Dead, algo complicado, considerando que ele tem episódios como What Happened and What’s Going On no currículo.

Não fossem os soluços nos momentos finais causados pelo roteiro que se desvia demais para entregar uma mensagem positiva em meio à catarse das personagens e à destruição causada pela chuva, Close Your Eyes teria cacife para constar no panteão do universo de Robert Kirkman na TV. De toda maneira, ao escolher abordagens intimistas que até podem não avançar a trama central, mas que mergulham no desenvolvimento de personagens, os novos showrunners parecem procurar fazer a diferença, deixando sua marca em Fear the Walking Dead para além das modificações radicais que testemunhamos neste novo ano.

Fear the Walking Dead – 4X10: Close Your Eyes (EUA, 19 de agosto de 2018)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Michael E. Satrazemis
Roteiro: Shintaro Shimosawa
Elenco: Lennie James, Garret Dillahunt, Maggie Grace, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Frank Dillane, Andrew Lincoln, Melissa McBride, Tom Payne, Kevin Zegers, Jenna Elfman, Alexa Nisenson, Sebastian Sozzi
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.