Crítica | Fear the Walking Dead – 4X12: Weak

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São os pequenos detalhes que me irritam. Faz parte da estrutura dessa segunda metade da temporada descobrirmos aos poucos onde estão os membros do grupo depois da tempestade, mas nós não precisamos de momentos como o abandono do caminhão da S.W.A.T. por Al e June com as chaves na ignição para elas procurarem combustível e comida, assim como nós não precisamos que June, depois de, a duras penas, recuperar o caminhão, deixar mais uma vez as chaves na ignição. Uma vez já é burrice extrema nesse mundo pós-apocalíptico, mas DUAS vezes é absolutamente estúpido e uma demonstração da preguiça de Kalinda Vazquez em escrever o fraco (com trocadilho) roteiro de Weak.

Afinal de contas, se há um objeto de desejo incomparável em Fear the Walking Dead (depois do finado iate de Strand, claro), este é a “van” turbinada de Althea que serve de abrigo, transporte e fortaleza armada até os dentes ao mesmo tempo. E, como tal, faz absoluto sentido que ela faça das tripas coração para tê-la de volta, o que automaticamente torna incompreensível os atalhos do roteiro em deixar as chaves na ignição por duas vezes seguidas e, também por duas vezes seguidas, fazer com que o ladrão de carro milagrosamente ache diesel dando sopa por aí. Podem ser pequenas coisas, mas que, no episódio, tornaram-se enormes distrações, daquelas de fazer o queixo cair não de surpresa, mas de completa incredulidade.

Aliás, também não me convenceram muito a conveniência da doença repentina de Al e a mentira que ela conta para fazer June tentar recuperar o caminhão. Se a doença não estiver de forma alguma conectada com o que parece ser o envenenamento da água pela mulher misteriosa (pelo menos foi a impressão que tive dela ali agachada na caixa, depois que Morgan a deixa), ela terá sido aleatória demais com o objetivo único de tirar a jornalista do páreo para deixar June agir sozinha. Sobre a mentira, será que ela era mesmo necessária ou bastaria Al insistir que seu caminhão é mesmo a melhor chance de sobrevivência das duas? Afinal de contas, é a mais pura verdade. Creio que June teria cedido sem a historinha fajuta dos remédios que colocou as duas em perigo mortal, com Al fraca demais para esfaquear um zumbi, mas forte o suficiente para empurrá-lo para baixo do carro e, depois chutar sucessivamente o próprio carro para derrubá-lo em cima da cabeça do desmorto. Mais um momento de revirar os olhos…

No entanto, nem tudo se perde. Dirigindo o episódio, temos Colman Domingo, o próprio Victor Strand, em seu primeiro trabalho nessa condição. E que trabalho. Ele não só extrai o máximo de Maggie Grace e de Jenna Elfman, abrindo espaço para as atrizes brilharem em sua interação, como mostra que tem controle sobre seu ofício, com enquadramentos que realmente funcionam para amplificar o suspense, como na sequência de Al versus o zumbi, com a câmera no chão e o momento bizarro – tornado assim pela serenidade da tomada – em que Morgan esbarra na misteriosa “mulher imunda” vivida por Tonya Pinkins, em uma caracterização desnecessariamente semelhante à de Michonne ao final do episódio, aliás. Se Domingo faz o que faz com um roteiro assim tão fraco, fico pensando do que ele será capaz se tiver em mãos algo um pouquinho melhor.

Sei, porém, que talvez esteja sendo duro demais com o texto de Vasquez. Ela até consegue dar bom estofo para o passado de Al ao “transformá-la” nas pessoas que entrevista, uma bela forma de não só homenagear a profissão do jornalista, como também de manter a aura de mistério sobre a personagem que é, sem dúvida alguma, a que menos foi explorada até agora, servindo quase que exclusivamente como artifício narrativo. E digo isso no bom sentido, que fique claro, pois tem sido um uso benigno e bem costurado na narrativa macro. Morgan também é outro que se beneficia dos diálogos de Vazquez, ainda que sua caracterização como “mala sem alça” continue firme e forte, quase como se os showrunners não soubessem mais o que fazer com ele. Porém, é fato que o personagem de Lennie James, ao fazer referência à Rick e suas comunicações diárias por rádio lá no comecinho da série-mãe, empresta coesão narrativa a esse mundo perdido.

Já conhecemos o paradeiro de Alicia e Charlie, mesmo que elas não tenham ainda se juntado a mais ninguém. Resta, agora, descobrirmos onde estão John e Strand e, claro, aguardar a reunião do grupo todo em algum momento em breve, considerando que, aparentemente, a vilã já apareceu de vez. Minha única dúvida é se a personagem de Pinkins tem mesmo capacidade de tornar-se uma ameaça crível a eles, mesmo considerando que, agora, ela tem o tão querido caminhão de Al para servir de casa, escudo e arma de destruição em massa.

Com apenas mais quatro episódios para o encerramento de uma temporada que começou de maneira muito ousada, fraquejou, melhorou novamente e, agora, tem se mostrado não mais do que morna, Fear the Walking Dead precisa encontrar seu norte mais uma vez e mostrar-se digna de ser acompanhada por quem viu tudo mudar de um ano para o outro. Se pequenos detalhes como a maldita chave na ignição não forem aparados, não haverá direção e atuação de qualidade que mantenham os espectadores ansiosos pelos capítulos seguintes.

Fear the Walking Dead – 4X12: Weak (EUA, 02 de setembro de 2018)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Colman Domingo
Roteiro: Kalinda Vazquez
Elenco: Lennie James, Garret Dillahunt, Maggie Grace, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Tom Payne, Kevin Zegers, Jenna Elfman, Alexa Nisenson, Sebastian Sozzi, Aaron Stanford, Daryl Mitchell, Mo Collins, Tonya Pinkins
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.