Crítica | Fear the Walking Dead – 4X13: Blackjack

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Admitir erros faz parte do processo de aprendizado. Quando escrevi a crítica do episódio anterior, deixei-me levar pela ótima direção de Colman Domingo (o primeiro ator de uma série desse universo ao sentar nessa cadeira, aliás) ao determinar a quantidade de estrelas, mesmo que ela não batesse com o texto ou, principalmente, que o episódio merecesse minha generosidade em razão de um roteiro mais do que preguiçoso, cheio de conveniências de revirar os olhos.

Tentarei não cometer o mesmo erro aqui, pois Blackjack, apesar de superior a Weak, também sofre com o roteiro mequetrefe e sentimental que o showrunner Ian Goldberg escreveu com Richard Naing. O episódio foca nos três últimos personagens cujo paradeiro depois da mega-tempestade ainda não conhecíamos. Strand e John estão literalmente ilhados, vivendo em um posto da guarda florestal aguardando as águas baixarem e Luciana está por aí, ainda procurando Charlie. Entre uma coisa e outra, voltamos para Momo (adotei o apelido que Sarah deu para Morgan, até porque é uma meta brincadeira, já que a atriz se chama Mo Collins) e seu grupo parado no meio da estrada enquanto ele insiste em ser Cristo reencarnado.

A história de John e Strand começa mal, com uma infindável enrolação que coloca os dois em oposição. John, o eterno otimista apaixonado, constrói uma jangada à la Robinson Crusoé para tentar atravessar o rio, enquanto Strand, o eterno covarde conformado, prefere aguardar por ali mesmo, sem fazer muito esforço. A narrativa é dolorosamente arrastada no início, tornando até mesmo os dois melhores personagens da temporada desinteressantes por um tempo. Tudo muda quando o gigantesco crocodilo aparece, claro, porque qualquer coisa com crocodilos (e tubarões, não se esqueçam dos tubarões!) fica automaticamente melhor. A partir desse ponto, o roteiro e os atores acertam o ponto e a interação passa a ser agradavelmente cômica, ainda que talvez um pouco maniqueísta demais no confronto entre otimismo versus pessimismo.

O lado de Luciana exige que o espectador respire fundo e aceite a coincidência que é ela encontrar o bom samaritano das caixas Clayton (ou Urso Polar, escolham o nome que preferir) moribundo em seu automóvel acidentado, depois de localizar a biblioteca pública de onde originalmente veio a edição de O Pequeno Príncipe de Charlie. É também necessário que o espectador respire fundo novamente e aceite Luciana tentando, ela própria, compensar seus pecados tentando obsessivamente salvá-lo, como se tudo fosse tão simples assim. E, a cereja no bolo da conveniência narrativa vem com o último desejo de Clayton, uma cerveja, que, no momento em que ele diz isso, qualquer um, mesmo que não tenha assistido outro episódio da série, sabe na hora que virá de uma das caixas dele próprio.

Se aceitarmos tudo isso – e sei que é talvez pedir demais – as sequências com Luciana ganham em simpatia, primeiro pelo roteiro nos lembrar que a personagem ainda existe e que não é só um fantasma arrastando correntes pela série, dando-lhe algum tipo de propósito, por mais frágil e efêmero que seja. Depois, há Stephen Henderson absolutamente contagiante como Clayton, mesmo em seu papel imóvel e breve. Seu rosto, sua inflexão de voz, seus pequenos gestos deixam evidentes, desde o primeiro segundo, que ele é o tal bom samaritano cujo caminhão fora furtado por Sarah e Wendell (mais um que deixa a chave na ignição, haja o benedito!). Isso torna a “jornada” (ênfase nas aspas) de Luciana bem mais urgente para nós, pois passamos a efetivamente querer que aquele homem que acabamos de conhecer tenha seu desejo atendido como parte de um raio de sol em meio à tanta podridão. E, apesar de todas as coincidências, todo o texto cheio de conveniências e de uma redenção forçada e a toque de caixa para Luciana, o resultado final é particularmente satisfatório e gostoso de ver.

Mas o mesmo não pode ser dito de tudo envolvendo Momo e seu bando de “homens alegres” e da “mulher imunda” (que provavelmente é a tal pessoa que Clayton não queria ver nem de longe, já que tudo é coincidência nessa metade da temporada). Esse núcleo é quase que o Centro Internacional da Enrolação Narrativa, com personagens desinteressantes em situações cansativas e uma vilã que para conseguir melhorar e alcançar o patamar de genérica tem que fazer um enorme esforço. Afinal, a única coisa que a torna minimamente uma ameaça é o tal caminhão da S.W.A.T. de Al, algo que por si só é estúpido, pois dependeu das falhas grotescas do roteiro do episódio anterior, caindo de para-quedas – e já com diesel – no colo do projeto fora do peso de Michonne . Só falta Sarah, Wendell e Jim terem morrido no atentado, tornando sua introdução na temporada uma perda de tempo completa…

Entre um crocodilo parente do Tic Tac de um lado e Luciana Samaritana achando uma cerveja (gelada, claro) para o Urso Polar de outro, Blackjack até que funciona bem, mesmo que isso signifique glosar outro roteiro escrito nas coxas e tudo que se refere a Momo, cujo único momento bom é a fração de segundo em que ele desarma Sarah com uma pá. Sim, fui leniente na avaliação final do episódio anterior, pelo que peço que considerem esse aspecto se fizerem uma comparação entre notas (o que não deveria ser feito de toda forma, pois o que vale é o texto em si).

Fear the Walking Dead – 4X13: Blackjack (EUA, 09 de setembro de 2018)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Sharat Raju
Roteiro: Ian Goldberg, Richard Naing
Elenco: Lennie James, Garret Dillahunt, Maggie Grace, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Kevin Zegers, Jenna Elfman, Alexa Nisenson, Sebastian Sozzi, Aaron Stanford, Daryl Mitchell, Mo Collins, Tonya Pinkins, Stephen Henderson
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.