Crítica | Fear the Walking Dead – 4X15: I Lose People…

  • Há spoilers. Leia, aqui, a crítica de todos os episódios da série.

Das duas uma: ou os novos showrunners desistiram de vez de qualquer traço de verossimilhança na série ou eles simplesmente resolveram transformar Fear the Walking Dead em um pastiche de série de zumbi, não muito diferente do que vemos em Z Nation. Não há outras explicações possíveis – além de incompetência – para o que está acontecendo nesta segunda metade da quarta temporada da série. É como se tudo o que veio de bom e excelente nem tanto tempo atrás esteja sendo gradativamente enterrado debaixo de sucessivos roteiros que parecem ter sido escritos por amadores que se apegam a um conceito (no caso, como fugir do telhado de um prédio cercado de desmortos) e partem dele para criar qualquer coisa que, na cabeça deles, se pareça com uma história que faça sentido.

Se MM 54 foi um episódio terrivelmente esburacado, crivado de implausibilidades que esgarçaram a suspensão da descrença, retirando qualquer chance de imersão pelo espectador, I Lose People… não faz muito melhor, o que é decepcionante se lembramos que a temporada nos trouxe People Like Us e Close Your Eyes, isso só para ficar nessa segunda parte (afinal, se lembrarmos de Laura, a decepção torna-se raiva pura e simples). Sem dúvida que uma série sobre o apocalipse zumbi tem em seu DNA a necessidade de suspendermos a descrença mais do que o usual, mas isso faz parte da apreciação de qualquer filme que foge do realismo duro do dia-a-dia. Muito poderiam argumentar que, se é possível acreditar na praga que assolou esse universo, então seria apenas um pequeno passo acreditar ser fácil arremessar corpos em carros sete andares abaixo e, mais ainda, que é provável que esses carros, depois de anos, ainda têm alarmes anti-furto que funcionam perfeitamente bem (foram duas tentativas, dois acertos e dois alarmes que funcionam, o que afasta o fator “tentativa e erro” que certamente reduziria a suspensão da descrença…). E isso sem contar com o primeiro carro que os fugitivos acham – uma ambulância – ainda está funcionando perfeitamente bem e que a escada hidráulica de um caminhão de bombeiros tem energia elétrica para seu funcionamento. Mas a grande verdade é que são essas “pequenas coisas” que fazem ruir a base lógica de qualquer obra de ficção. É algo parecido quando, em épicos históricos passados no Antigo Egito ou em Roma, o protagonista aparece com um relógio de pulso ou vemos à distância um avião. Somos arremessados bruscamente para fora da obra e o retorno é difícil mesmo quando esses problemas não se repetem, o que certamente não é o caso do episódio sob análise.

Mas além dos problemas básicos do roteiro, há outro que vem constantemente criando amarras para a progressão narrativa e ele tem um nome muito específico: Morgan, ou Momo para os íntimos. Esqueçam o personagem em The Walking Dead e foquemos nele aqui no spin-off. Sua presença em Fear the Walking Dead, que se livrou de seus dois personagens mais importantes em uma temporada só, deveria ganhar em relevância aos poucos, até mesmo para justificar sua transposição de uma série para outra. O que vemos, porém, é justamente o oposto. Morgan vem sendo apagado. Na verdade, minto, pois, se ele estivesse sendo apagado, ele não atrapalharia a história. Ele vem sendo inexplicavelmente utilizado como uma âncora que não deixa que a narrativa progrida. Sua existência se resume ao pacifismo acima de qualquer coisa – o que, visto de maneira independente do contexto, é um elemento interessante – e uma constante e irritante dúvida existencial acoplada a um sentimento de culpa que nem Ray Donovan sentiria. Como todos os demais personagens buscam em Morgan respostas para tudo e elas não vêm ou vêm de maneira críptica e redundante, a engrenagem que movimenta a temporada vem perdendo força, estando, agora, próxima de uma pane completa.

Com a divisão em pequenos grupos, no lugar de trabalhar bem cada um deles, os roteiros somente trouxeram o que poderia ser resumido como “anedotas de sobrevivência”, o que contou até mesmo com um surreal crocodilo em um lago formado pelo furacão que, descobrimos agora, era raso o suficiente para um caminhão passar, outro momento de revirar os olhos, aliás. Essas anedotas, algumas até boas, com especial destaque para a que lidou com Alicia e Charlie, acabaram escravas de uma deferência a um “líder messiânico” que nunca justificou toda essa adoração cega, o que acabou tendo o condão limitativo de apagar personagens muito interessantes como John Dorie e Victor Strand. E a inclusão de uma ameaça encarnada na tal “mulher imunda” é como o proverbial sal sendo esfregado na ferida. Não bastasse a “bateção” de cabeça nos últimos episódios, os showrunners tentam nos fazer engolir uma vilã que, na falta de um termo técnico melhor, é completamente ridícula, que em momento algum traz sequer um grama de peso para a história ou de senso de ameaça para os personagens a seu redor.

O drama de Jimbo, em circunstâncias normais, poderia ter ressonado melhor. Sua reação violenta a seu inexorável destino, apesar de infundada, é uma boa maneira de se encarar a morte, normalmente vista com um olhar passivo nas séries deste universo. O cervejeiro não se conforma com seu fim próximo e não quer suavizar nada nem para ele e nem para seus colegas. O problema é que o personagem de Aaron Stanford é desagradável do começo ao fim não por inabilidade do ator, mas pelos roteiros tê-lo feito assim propositalmente. E, claro, não ajuda o fato de esse momento dramático estar inserido em um episódio cravejado de momentos inaceitáveis dentro da lógica da série e de tudo o que vinha sendo apresentado até aqui (já falei antes e repetirei em desespero: até as regras pétreas sobre os zumbis estão sendo alteradas para a conveniência da história!).

Mesmo com uma morte no horizonte e com o protótipo de vilã ainda à espreita – apesar do tiro que levou e a apesar de estar amarrada no caminhão da S.W.A.T. – o viés do episódio é positivo, mas é um positivo tão positivo que chega a ser brega, com momentos como o que Strand reverte à sua persona positiva (seria ele bipolar?), a receita da cerveja com direito a “amor” como ingrediente e, claro, aquela ridícula tentativa de suspense sobre a fuga de Morgan do telhado, como se alguém tivesse algum resquício de dúvida de que ele alcançaria a escada. Ou seja, nem mesmo o tom de reunião, de vitória, de redenção o episódio consegue acertar completamente.

I Lose People… é marginalmente melhor do que o tenebroso episódio anterior e isso é grave a essa altura do campeonato, com apenas mais um episódio para a temporada chegar ao fim. Como os showrunners aparentemente chutaram o balde da plausibilidade, então que pelo menos o embate final entre o grupo de Morgan e a “mulher imunda” envolva a utilização por ela de um exoesqueleto como Ripley em Aliens, o Resgate e quem sabe até mesmo a chegada de Michonne no último segundo para vingar-se da usurpação de sua imagem pela vilã. Seria pelo menos divertido assim…

Fear the Walking Dead – 4X15: I Lose People… (EUA, 23 de setembro de 2018)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: David Barrett
Roteiro: Kalinda Vazquez
Elenco: Lennie James, Garret Dillahunt, Maggie Grace, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Kevin Zegers, Jenna Elfman, Alexa Nisenson, Sebastian Sozzi, Aaron Stanford, Daryl Mitchell, Mo Collins, Tonya Pinkins
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.