Crítica | Fear the Walking Dead – 4X16: …I Lose Myself

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Pelo menos em termos comparativos com os dois episódios imediatamente anteriores, …I Lose Myself sai ganhando. Não parece um final de temporada, claro, e nem mesmo é um episódio bom, mas ele pelo menos consegue ter um roteiro menos conveniente e fecha as pontas do drama existencial irritante de Morgan que, para todos os efeitos, tornou-se o grande destaque da série, já que os demais personagens – antigos e novos – foram completamente soterrados debaixo de sua quase onipresença e embate com a “grande vilã” apresentada nesta segunda metade.

É, diria, um final aguado, mas não ruim (e “não ser ruim” é, inevitavelmente, um problema), para uma temporada que começou muito bem, com coragem de realmente mudar o status quo de tudo – o que incluiu ignorar completamente as consequências da destruição da represa ao final da temporada anterior –  e de caminhar por rumos novos. Mas esses rumos novos não se concretizaram e foram perdidos em algum momento, mesmo considerando episódios sensacionais até mesmo na segunda metade, quando a coisa realmente começou a degringolar de vez, com a introdução da “mulher imunda” e da separação do grupo. Fica aquela sensação de que os novos showrunners tinham a metade de um plano para a temporada. Eles tiveram que matar Nick, pois Frank Dilane resolveu sair, mas eles não precisavam fazer o mesmo com Madison, já que Kim Dickens, ao contrário, queria ficar. Sem uma liderança, imaginava-se que Alicia tomaria à frente, como uma espécie de herdeira, mas a grande verdade é que a tão falada entrada de Morgan acabou fazendo o personagem abocanhar o posto de líder, com um drama insipiente ao seu redor que se tornou o equivalente televisivo do cachorro correndo atrás do rabo.

Quando o furacão arrasou o Texas, em mais uma sacudida estrutural, o elenco separou-se e sua reunião passou a ser o “objetivo” da segunda metade da temporada. Coloquei as aspas, pois isso poderia ser um bom objetivo para um ou dois episódios, mas não para oito e certamente não com a tentativa de construção de uma ameaça misteriosa que só se tornou um semblante disso pela mais completa incompetência do grupo liderado por Morgan ninja-paz-e-amor. Mas mais incompetente foram os roteiros que, de uma hora para outra, passaram a fiar-se em uma sucessão aparentemente inesgotável de coincidências, conveniências e deus ex machina que corroeram seriamente a credibilidade da série.

Portanto, nesse cenário complicado, …I Lose Myself não poderia ser apenas razoável e certamente não poderia ser Morgan-cêntrico, literalmente colocando todo o restante do elenco como moribundos caídos no posto de gasolina onde ficam quase o tempo todo esperando a salvação. Aliás, esse envenenamento da água já plantado lá atrás pela maluca andarilha foi uma ameaça anti-climática ao extremo, pois ficou dolorosamente óbvio que, ao atingir todos, ninguém morreria. Foi-se a época em que Fear the Walking Dead matava todos os habitantes de uma comunidade por asfixia em um armazém no subsolo. A era em que estamos agora é a da pegada positiva, como é o desconcertante final em que todo o grupo decide ficar por ali, continuando o sonho do Urso Polar e de Madison de ajudar quem precisa de ajuda (ouviram o som de meus olhos rolando enquanto escrevo isso?). Mas, voltando ao posto de gasolina e às conveniências de roteiro, foi completamente hilário quando Morgan, finalmente conseguindo falar com o grupo, diz o que a “mulher imunda” havia colocado na água e, automaticamente, a enfermeira June conhecia o antídoto, etanol, como se toda enfermeira tivesse a resposta para tudo na ponta da língua. Mas o melhor é que havia um caminhão inteiro com etanol do lado de fora que serve como o momento final de união do grupo moribundo que, se segundos atrás não conseguia nem se arrastar pelo chão, de repente sai pela porta da frente (e não pela dos fundos…) com toda a pompa e circunstância, com direito a Al metralhando os desmortos e, claro, burramente furando o caminhão todo.

Aliás, falando nos furos, jura que o roteiro quer nos fazer acreditar que todo o etanol sumiu assim de uma hora para outra? Não dava para o roteiro ter inserido algo como “corta – o caminhão explode” para tornar essa situação um pouquinho mais crível? Afinal de contas, de incrível já chega a chegada mágica de Morgan trazendo do nada – rufem os tambores! – um caminhão inteiro das cervejas artesanais de Jimbo que, mesmo morto, desmorto e morto, salva o dia no ponto alto da breguice zumbificada. Mas a cereja no bolo foi mesmo o aviso, depois dos créditos, de que a situação de envenenamento era fictícia e que o etanol não necessariamente era um antídoto. Desliguei a televisão me escangalhando de rir.

E isso tudo porque eu falei que o roteiro foi menos conveniente que os anteriores, hein? Mas é que foi mesmo, se fizermos um comparativo direto.

De toda sorte, mais problemática que as coincidências, foi a “luta final” entre Morgan e Martha naquele carro de polícia. Se metralhar o caminhão de etanol foi burrice, burrice maior foi Morgan, antes, cair na conversinha mole da mulher, como se ele fosse um sujeito que nasceu ontem, sem nenhuma experiência no mundo selvagem em que vive. E isso porque nem vou abordar o lado absurdamente samaritano de Morgan ao realmente tentar salvá-la depois de tudo o que ela fez. Olha, ela é uma serial killer louca e fedida, mas ela merece uma segunda chance e não tem nada melhor para isso do que nós a albergarmos em nosso seio familiar… Ora, Morgan, haja o benedito, viu? Até pacifismo deve ter limite, pois eu sei que a minha paciência tem e ela já havia acabado alguns episódios atrás.

Como season finale, sinto dizer que …I Lose Myself é um não mais do que medíocre episódio padrão. Faltaram relevância, força e habilidade para provar aos valorosos espectadores da série que todas as mudanças valeram a pena. Talvez seja o caso de repensar tudo, mandar Morgan para o raio que o parta, inventar que Madison na verdade sobreviveu ao fogaréu no estádio e, principalmente, trazer Daniel de volta como um vilão de verdade. Mas, provavelmente é pedir demais e a já aprovada e em produção quinta temporada periga não ter capacidade de atrair seus espectadores.

Fear the Walking Dead – 4X16: …I Lose Myself (EUA, 30 de setembro de 2018)
Showrunner: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Direção: Michael E. Satrazemis
Roteiro: Andrew Chambliss, Ian Goldberg
Elenco: Lennie James, Garret Dillahunt, Maggie Grace, Alycia Debnam-Carey, Colman Domingo, Kevin Zegers, Jenna Elfman, Alexa Nisenson, Sebastian Sozzi, Aaron Stanford, Daryl Mitchell, Mo Collins, Tonya Pinkins
Duração: 53 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.