Crítica | Feitiço da Lua

Feitiço da Lua

estrelas 4,5

Era uma vez uma história dramática irônica e romântica: uma mulher que deveria unir dois irmãos brigados se apaixona por um deles, sendo que é comprometida com o outro. O que fazer? Diante da possibilidade de uma básica “comédia de erros”, os envolvidos em Feitiço da Lua entregam aos espectadores algo muito além: um filme que radiografa de maneira diferenciada o velho ambiente familiar cheio de forças em atrito, indo além dos estereótipos acerca dos italianos fervorosos e de sangue quente. Eles se reúnem sob qualquer condição, mas isso não significa, no entanto, que haja paz, ao contrário, eles brigam o tempo todo.

Ao flertar com temas universais, tais como o amor, a amizade e a obsessão, a trama ainda consegue fôlego para refletir sobre relacionamentos entre pais e filhos, um tema repleto de simbolismo no bojo de qualquer cultura. No filme, Loretta (Cher) é uma jovem mulher que está noiva e vai se casar com um padeiro, no entanto, apaixona-se por seu futuro cunhado. O seu noivo precisou ir até a Itália para visitar a mãe que está prestes a morrer. Ele pede que ela procure o seu irmão, membro familiar que não conversa há anos, graças a um conflito oriundo de uma desavença antiga.

Loretta o procura e de início há bastante confusão. Ela o acha rancoroso e insuportável, para mais adiante, encantar-se com o rapaz, num conflito que a colocará à beira do histerismo. Ele também se apaixona pela moça, combustível que surge para trazer ainda mais confusão para todos os envolvidos. A coisa fica ainda mais complicada quando Loretta é informada que a sua sogra melhorou e o noivo antecipou o seu retorno. O que fazer? Qual irmão escolher? Ficar com os dois? Abandonar um para casar-se com o outro? Qual o seu papel diante de tanta confusão?

Estas são algumas das possibilidades. Com momentos que trafegam na via da leveza de uma fábula, Feitiço da Lua consegue ser também sério, tal como um bom drama pede. Com final simples e encaminhamento narrativo sem grande complexidade, o filme ainda tem a boa e velha “moral da história”, algo que o público se identifica muito bem. Com subtramas que adicionam força aos personagens principais, o filme é muito bem conduzido em setores como o figurino (Theoni V. Aldredge) e música (Dick Hyman). Há mais um elemento que torna o filme um importante registro na história do cinema recente: Nicolas Cage está comovente e brilhante, algo raro em sua trajetória dramática, pois como sabemos, esta é repleta de filmes ruins e personagens desenvolvidos na mesma profundidade de um pires.

Feitiço da Lua concorreu aos principais prêmios da temporada de seu lançamento, uma época de bons frutos no mercado hollywoodiano. Cher foi quem saiu com a melhor, pois faturou merecidamente o Oscar de Melhor Atriz, troféu disputado por outras feras, tais como Meryl Streep e Glenn Close, grandes rainhas do drama e do trágico contemporâneo, respectivamente. Sob a direção de Norman Jewison, tendo o roteiro de John Patrick Shanley como guia, o filme mescla momentos genuínos de drama, comédia e amor, numa mixagem de sensações proporcionada por produções contadas a dedo dentro do sistema das “comédias românticas”.

Ao longo dos seus 102 minutos, o roteiro se dilui na tela através de enquadramentos básicos, mas personagens intensos, o que torna a experiência bastante agradável. Cher e Nicolas Cage formam o que podemos chamar de casal sem glamour de Hollywood. Ele é o cara desajeitado e sem uma das mãos. Ela é bela, mas extremamente temperamental e sem noção. Juntos, formam uma dupla que reluz diante de coadjuvantes que não estão em cena apenas como adorno, mas possuem funções dramatúrgicas pertinentes para o desenvolvimento dos conflitos.

Feitiço da Lua (Moonstruck) — Estados Unidos, 1987
Direção: Norman Jewison
Roteiro: John Patrick Shanley, Patrick Shanley
Elenco: Cher, Danny Aiello, John Mahoney, Julie Bovasso, Nicolas Cage, Olympia Dukakis, Vincent Gardenia
Duração: 102 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.