Crítica | Feito Gente Grande

estrelas 3,5

Acho que as distribuidoras esperam o final de ano para lançar filmes sem apelo comercial, mas que tem um nível de “fofura” bem alto. Surpreendi-me com a leveza e simpatia de Questão de Tempo e, agora, novamente tive uma surpresa com Feito Gente Grande. Filme francês de 2012 que ficou entre as dez maiores bilheterias daquele país no ano passado, ele conta a história de Rachel (Juliette Gombert), uma precoce  menina de nove anos que não aguenta mais morar com os pais.

Em tom de conto-de-fadas e paleta de cores muito viva que lembra o trabalho de Jeunet em O Fabuloso Destino de Amélie Poulin, a história, que se passa no comecinho dos anos 80, é narrada por Rachel, que abre o filme vagarosamente dedilhando uma máquina de escrever, com o objetivo de escrever uma carta de ajuda à sua psicóloga Madame Trebla (Isabella Rossellini). Esse início, que serve de moldura para a narrativa que acontece toda em um flashback contínuo, já serve para estabelecer a personalidade da menina e como ela lida com as dores do crescimento.

Voltando alguns meses, vemos que Rachel vive com seus pais, Michel (Denis Podalydès), terno, mas apagado e Collete (Agnès Jaoui), extremamente possessiva e cheia de manias, especialmente a de só permitir que Rachel coma comida não industrializada, o que a força a levar uma sacola de frutas para a escola como lanche. Rachel também compartilha seu quarto com sua calada, mas completamente maquiada e penteada avó materna (Judith Magre) que ela faz questão de conferir, todo dia pela manhã, se ainda está viva usando um pequeno espelho para ver a condensação da respiração.

Aliás, a preocupação com a morte e como lidar com isso é um tema que permeia toda a fita. Rachel sente-se deslocada e coloca a culpa em seus pais que ela interpreta como disfuncionais. Quer de toda forma que sua mãe morra e, pois mais horrível que seja esse pensamento possa ser, o roteiro, escrito pela também diretora Carine Tardieu, com base em romance de ficção de Raphaële Moussafir, é leve e jocoso, o que logo retira a seriedade do que Rachel fala, sem, porém, retirar a importância do assunto.

Quando Rachel finalmente acha alguém com quem se identifica, uma colega de turma chamada Valérie (Anna Lemarchand) que seus pais logo classificam como “intrépida”, ela passa a ser a menina que esperamos que seja e o tema do crescimento sexual também aparece de forma marcante primeiro na figura do irmão roqueiro de Valérie (Virgile Leclaire) e, depois, na figura da voluptuosa professora Danielle (Elsa Lepoivre), casada, mas que tem um caso com o professor de educação física que as meninas descobrem.

Paralelamente, vemos a fria relação dos pais de Rachel ser escrutinada na fita, na medida em que Michel passa a se interessar pela mãe solteira de Valérie, Catherine (Isabelle Carré). A forma como vemos essa evolução é muito interessante. Michel é montador de cozinhas planejadas, mas a cozinha do apartamento onde vive é velha, caindo aos pedaços, cheia de problemas, exatamente como sua relação com a esposa. Mas ele não liga e a vida segue. Quando ele se depara com a cozinha de Catherine, também acabada, ele fica todo ouriçado e decide, sem cobrar nada, reformar tudo.

Não quero dizer, aqui, que a metáfora é discreta ou particularmente inteligente. Não. Apenas creio que ela tenha sido utilizada de maneira bem costurada na narrativa, de forma que as histórias paralelas de descoberta e crescimento não ficassem completamente separadas e estanques. O amadurecimento de Rachel leva ao amadurecimento de Michel e de Colette que têm a chance de acharem novamente, debaixo dos escombros de uma relação paralisada, algum lampejo do amor que antes sentiam.

A pequena fábula que é Feito Gente Grande (uma tradução que, apesar de não ser péssima, é pouco graciosa se compararmos com o belo título em francês, que pode ser traduzido literalmente como “O Vento em Minhas Panturrilhas” e que é devidamente contextualizado ao final), trará muitos sorrisos nos rostos pelas enternecedoras atuações das meninas Juliette Gombert e Anna Lemarchand. Mas, na convergência dos dois temas, crescimento e morte, preparem-se, também, para lágrimas.

Feito Gente Grande (Du Vent dans mes Mollets, França – 2012)
Direção: Carine Tardieu
Roteiro: Carine Tardieu (baseado em romance de Raphaële Moussafir)
Elenco: Juliette Gombert, Anna Lemarchand, Denis Pdalydès, Agnès Jaoui, Isabelle Carré, Isabella Rossellini, Judith Magre, Elsa Lepoivre
Duração: 89 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.