Crítica | Feliz! – 1ª Temporada

Feliz! é baseada na extremamente violenta minissérie Happy!, de Grant Morrison e Darick Robertson que lida com um ex-policial, agora assassino de aluguel que, depois de sofrer um ataque cardíaco, começa a ver um unicórnio azul alado que o coloca em uma missão de salvamento de uma garotinha das garras de um maníaco fantasiado de Papai Noel. Com essa premissa por si só chamativa de tão surreal e muito humor negro, além de hectolitros de sangue, os dois quadrinistas entregaram uma história simples e objetiva, sem enrolações ou arestas a serem aparadas.

Eis que, desafiando todas as probabilidades, o Syfy, canal que vem fazendo grandes e bem-sucedidos esforços para restabelecer seus tempos de glória televisiva, decidiu adquirir os direitos da HQ e trazer o próprio Morrison na qualidade de produtor, consultor e roteirista e colocar nas telinhas uma adaptação igualmente pesada da bizarra história com Christopher Meloni vivendo o protagonista Nick Sax como a exata fusão de seu policial Elliot Stabler, de Lei e Ordem: Unidade de Vítimas Especiais, com o cozinheiro maluco Gene, de Mais um Verão Americano e da continuação Wet Hot American Summer: First Day of Camp. E isso com o bônus de Patton Oswalt como a voz de Feliz, o tal unicórnio imaginário.

O resultado é um escracho felizmente sem freios e cheio de humor negro que lembra muito – guardadas as devidas proporções, lógico – a injustamente cancelada Blood Drive, do mesmo canal. Não sobra pedra sobre pedra nesse festival de sadismo, distúrbios mentais psicopáticos, vício extremo, vilania bondiana e, sim, forte vínculo familial, algo estabelecido logo no começo e mantido até o fim tanto do lado de Sax quanto do lado da família mafiosa Scaramucci. E Meloni se diverte como o protagonista que bebe profusamente dos estereótipos dos filmes noir e os decuplica depois de elevá-los ao cubo, em uma performance que oscila entre o cômico e o nojento.

Claro que a história original, por ser concisa, precisava ganhar “rabichos” que permitissem que a produtora alcançasse os almejados oito episódios de duração regulamentar. Toda a minissérie em quadrinhos está contida na temporada, com o primeiro episódio sendo quase a primeira e metade da segunda edição integralmente, sem tirar nem por. E esse aumento do escopo da história traz, como esperado, consequências positivas e negativas.

De positivo, há, primeiramente, um cadenciamento maior da história que perde o frenesi irrefreável dos quadrinhos e ganha uma boa fluidez. Por outro lado, por diversos momentos a narrativa paga o preço e acaba sendo esticada demasiadamente, com repetição temática e de situações que apenas acrescentam mais obstáculos à jornada de Sax por sua redenção sem efetivamente apresentar novos elementos. Ao passo que a inserção completa de Amanda Hansen (Medina Senghore), ex-esposa de Sax é bem-vinda, sua interferência na investigação da ex-parceira e ex-amante corrupta do ex-policial, Merry (Lili Mirojnick), soa forçada e externa demais ao coração da série para funcionar de verdade. O mesmo vale para o Papai Noel psicopata (Joseph D. Reitman) que deixa de ser uma figura misteriosa para ganhar um passado e uma “justificativa” para sua loucura, sendo também enxertado na investigação e chegando até mesmo a ter percalços diretamente com Sax, em uma escolha estranha de roteiro.

Mas há que se destacar uma presença mais forte do Sr. Blue (Ritchie Coster), sub-chefe da máfia local e patriarca da família Scaramucci que, ao contratar Sax inicialmente para matar seus próprios sobrinhos, dá o pontapé inicial à temporada. Seu desenvolvimento, que se dá paralelamente ao de seu braço direito e sádico torturador de plantão Smoothie (Patrick Fischler), que também tem seu papel muito alargado, funciona bem, com tanto Coster quando Fischler deliciosamente doentios em seus respectivos personagens.

Se existe um elemento realmente negativo em toda essa expansão da história é a subtrama envolvendo Mikey Scaramucci (Gus Halper) e tudo relacionado com ele, inclusive sua mãe – e irmã de Blue – Isabella (Debi Mazar), astro de um reality show.  Ao entrar para um lado sobrenatural bastante forçado e que destoa daquela coisa mais leve que é o próprio Feliz existir aqui, alguns episódios tornam-se estranhos, com uma pegada que quebra o ritmo da história principal e que não acrescenta absolutamente nada de útil que não seja permitir um para lá de estranho gancho para uma (completamente desnecessária) segunda temporada.

A atmosfera da série não tenta emular o tom noir dos quadrinhos, mas torna Nova York um antro de maldade e de vilania tão sujo e tão nojento quanto é o próprio Nick Sax fisicamente. Com isso, o humor negro serve como um fraco facho de luz que ilumina de maneira débil toda a desesperança que marca a história. O unicórnio alado ganha uma animação cartunesca quase idêntica à dos quadrinhos e o contraste é gritante e muito divertido, especialmente nos momentos mais bizarros como quando ele inadvertidamente inala uma dose cavalar (viram o que fiz aqui?) de cocaína ou quando lida com outros amigos imaginários de maneira, hum… pouco ortodoxa. O choque de cores alegres e felizes com a podridão ao redor é um show por si só que já vale o preço do “ingresso”.

Repleto de referências cinematográficas – O Iluminado, Os Intocáveis, Cães de Aluguel e outros – e expandindo o que a mente doentia (no bom sentido!) de Grant Morrison colocou em relativamente poucas páginas, Feliz! é uma diversão só, daquelas que faz com que o espectador sair da experiência sentindo-se tão sujo e pegajoso quanto Sax em seus piores momentos, mas tão feliz quanto o cavalinho dentuço que ele vê. Ou seja, imperdível para quem tiver estômago!

Feliz! (Happy!, EUA – 06 de dezembro de 2017 a 31 de janeiro de 2018)
Showrunner: Brian Taylor
Direção: Brian Taylor, Wayne Yip, David Petrarca
Roteiro: Grant Morrison, Brian Taylor, Patrick Macmanus, Noelle Valdivia, Ken Kristensen, Matthew White (baseado em criação de Grant Morrison e Darick Robertson)
Elenco: Christopher Meloni, Patton Oswalt, Ritchie Coster, Lili Mirojnick, Medina Senghore, Patrick Fischler, Joseph D. Reitman, Debi Mazar, Bryce Lorenzo, Gus Halper, Christopher Fitzgerald
Duração: 344 min. aprox. (8 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.