Crítica | Feliz Aniversário Para Mim

FELIZ ANIVERSARIO PARA MIM

estrelas 2

Feliz Aniversário para Mim não possui o mesmo prestígio que outros títulos do mesmo gênero dos anos 1980 possuem, mas foi um marco do VHS na época das locadoras de vídeos: era quase impossível entrar num espaço desses e não encontrar, na sessão de terror, o vídeo que trazia na capa um homem prestes a ter um imenso espeto de churrasco enfiado goela abaixo, tendo ainda a seguinte nota em um dos cantos do estojo: “seis dos mais chocantes assassinatos que você verá”.

Chocantes? Talvez, mas nada que outras produções da mesma época não tenham mostrado concomitante ou em algum espaço de tempo posterior. Com o aquecimento deste mercado nos anos 1980, época pós Halloween e o sucesso de filmes independentes, vários produtores estavam atiçados pelo rendimento de histórias que apostavam em um assassino misterioso cujo método para assustar investia numa longa trilha de corpos ensanguentados e numa iconografia emblemática (o que às vezes incluía máscaras e roupas excêntricas).

Em Feliz Aniversário para Mim somos apresentados a Ginny (Melissa Sue Anderson), uma jovem que está prestes a completar 18 anos. Ao invés de organizar uma comemoração para a data, Ginny precisa lidar com o assassinato em sequência de seus amigos, aniquilados com requintes de maldade. A situação se torna mais tensa pelo fato da moça ter sofrido um acidente no passado, e por isso, sofre de lapsos de memória, o que dificulta a busca por pistas que alcance o responsável pelos assassinatos.

O foco do roteiro é brincar de mistério com o espectador. O problema é que diferente dos suspenses criado por mestres como Hitchcock, Brian De Palma e Wes Craven, falta sofisticação e dedicação em algumas situações do texto fílmico. Como pode uma produção escrita por quatro roteiristas deixar o assassino (ou assassina, quem sabe?) aparecer em montagens alternadas que nos mostram os assassinatos e um grupo afastado da cena do crime? Não adianta se desculpar dizendo que a montagem revela intervalos temporais porque isso não fica evidente no filme, ao contrário, a narrativa reforça que ao passo que um assassinato acontece, um grupo está realizando algo separadamente.

No encalço do mistério, há a pergunta frequente para cada cena de morte: “ah, é você?”, um questionamento que nos deixa entender ser alguém do próprio grupo o responsável pelos crimes. A câmera também flerta com o mistério pretendido pelo roteiro. Há alguns closes em trechos do filme que focam num olhar psicótico de determinados personagens, numa brincadeira que deixa as pessoas sem a possibilidade de matar a charada final, que por sinal, é absurda e exagerada.

Descobre-se, no desfecho, que a mãe de Ginny foi a responsável pelo fim do casamento dos pais do assassino (ou assassina), o que gerou a motivação para a vingança. A pergunta é porque não se vingar apenas da moça, ao invés de matar todo mundo ao redor, algo mais trabalhoso. Você pode se perguntar os motivos da defesa em torno de Pânico, se os finais são parecidos, mas há uma diferença crucial entre os filmes: a vingança é só um pretexto para a discussão das ressonâncias dos filmes de terror na psicopatia, ou seja, a influência do cinema na vida cotidiana, além das diferenças em como a “coisa” é contada. Se há diálogos interessantes e ritmo narrativo coeso na saga de Wes Craven, falta muito na horripilante história de Ginny.

O filme até se esforça para fazer parte do gênero com “certa” dignidade. Além da presença de Glenn Ford, um ator de renome para filmes deste quilate, há a influência dos filmes de terror italiano, como as luvas pretas do assassino, o que nos remete aos filmes de Dario Argento, além da maquiagem de Thomas R. Burman, profissional que quatro anos depois ganharia mais notoriedade com o trabalho em Os Goonies, entretanto, o que fica evidente é a necessidade de matar, da forma mais sangrenta possível, os jovens que bebem, fumam e arranjam confusão com extrema facilidade.

Incrível como as datas comemorativas inspiram e muitas vezes servem como desculpa para a existência de filmes ao estilo de Feliz Aniversário Para Mim, produção canadense de 1981, financiada pelos envolvidos em Dia dos Namorados Macabro. Sexta-Feira 13, Halloween, Reveillon Maldito, Dia do Terror, Natal Sangrento: filmes que nos levam a questionar quais os motivos para indústria brasileira não ficar de olho nesse mercado? Talvez produções como Carnaval Maldito, São João do Terror, 7 de Setembro da Morte, dentre outras datas, aquecessem o mercado cinematográfico de horror brasileiro, um caminho que ainda pede bastante chão a ser trilhado.

Feliz Aniversário Para Mim (Happy Birthday To Me, Canadá – 1981)
Direção: J. Lee Thompson.
Roteiro: John C. W. Saxton, Peter Jobin, Timothy Bond e John Beaird.
Elenco: Melissa Sue Anderson, Glenn Ford, Lawrence Dane, Sharon Acker, Jack Blum, Matt Craven, Frances Hyland, Lenore Zann, David Eisner.
Duração: 110 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.