Crítica | Felizes Juntos

Criado na Argentina, o tango é um estilo musical normalmente dançado a par e inspirado em histórias de amor, sensualidade, tristeza e agressividade. Aliás, Discépolo, autor de letras e dramaturgo, descreveu o gênero como “um pensamento triste que se pode dançar”. Em minha concepção, o tango é encantador por ser igualmente apaixonante e melancólico, intenso nas duas partes, como se a tristeza fosse a única consequência possível para o amor. Surpreendentemente, o diretor asiático Wong Kar-Wai, responsável pelo ótimo Amores Expressos, captou perfeitamente a essência desse estilo musical e transpareceu com o devido vigor em Felizes Juntos.

O filme apresenta a história de Lai (Tony Leung Chiu-Wai) e seu namorado Po-Wing (Leslie Cheung) que, ao tentarem chegar em Foz do Iguaçu, se perdem no caminho e vão morar na Argentina. Entre términos e recomeços, o relacionamento dos dois torna-se abusivo e repleto de brigas. No entanto, quando Lai faz amizade com um colega de trabalho, Chang (Chang Chen), ele vê a inutilidade de continuar com o promíscuo Po-Wing. Longe um do outro e de seu país natal, Lai e Po-Wing se vêem desesperadamente solitários.

Desde a sequência inicial, o diretor Wong Kar-Wai constrói o relacionamento entre os protagonistas de maneira visceral. Se pegarmos como exemplo uma das primeiras cenas do longa, o sexo do casal demonstra perfeitamente o funcionamento do namoro: cheio de paixão, mas agressivo e com uma leve afobação de ambos. Portanto, assim continua Felizes Juntos, transmitindo informações mais pela ação de seus personagens do que por suas falas, inserindo também certa sensibilidade à obra, visto que nada é expositivo.

Inclusive, esse turbilhão de emoções é representado perfeitamente por Tony Leung Chiu-Wai e Leslie Cheung, conseguindo transmitir o amor entre seus personagens, mas também quais características de suas atrapalham o relacionamento, como a preguiça e promiscuidade de Po-Wing e a falta de tesão e calculismo de Lai.

Outra estratégia inteligente de Kar-Wai está no uso de adereços cênicos, como a luminária decorada com a imagem das cataratas do Iguaçu, um símbolo claro de recomeço dentro da narrativa e constantemente resgatado durante o filme. Como ocorre em outros relacionamentos, o reinício é o melhor momento do namoro entre os protagonistas, uma vez que deixam suas individualidades de lado; por isso, em determinadas brigas, eles observam o objeto como se pedissem para que os bons momentos retornem. 

Aliás, se o roteiro constrói o sentimento dos protagonistas com sutileza, o mesmo ocorre com suas desavenças. Claro que há de discussões com diálogos mais contundentes, mas o ciúme, desconfiança e a possessividade de Lai e Po-Wing ficam mais explícitos em comentários discretos, como um leve “onde estava?”, críticas à vestimenta do parceiro ou meras olhadas ao presenciar o namorado saindo.

Com isso, Kar-Wai constrói uma obra próxima do público, uma vez que os sentimentos ali presentes são palpáveis, seja o amor ou a agressividade. É fácil se identificar com aquelas pessoas, logo, nossas reflexões ao assistir também são maiores. Para isso, o diretor torna o segundo ato repetitivo em alguns momentos, apresentando situações semelhantes, mas que servem para criar um senso de rotina, destacando como aquele sentimento foi se estabelecendo com o tempo. Aliás, a direção do chinês reforça essa proximidade com o espectador, colocando a câmera próxima dos personagens e, em algumas sequências, utilizando-a na mão, dando ares de realismo.

Além disso, a fotografia mostra-se inventiva, com uma paleta de cores que oscila durante a projeção, servindo para pontuar o estado emocional dos personagens. Quando Lai sente-se solitário, por exemplo, o filme é fotografado em preto e branco, com planos médios para isolá-lo. Porém, ao reatar com Po-Wing, a película é tomada por cores extremamente saturadas, focando no vermelho e no amarelo, ressaltando como a vida de Lai torna-se mais bonita com seu companheiro, mas, ao mesmo tempo, sufocante, visto que o excesso de brilho incomoda em alguns momentos, servindo até como uma representação do relacionamentos entre os protagonistas.

Enquanto isso, a trilha sonora utiliza várias faixas de tango para evocar a aura de melancolia e paixão daquele universo. Já a montagem destaca os citados contrastes, pulando de cenas saturadas para tomadas mais escuras, transmitindo o quão volátil pode ser o sentimento de tristeza ou felicidade, perdendo-se em um instante.

Não bastasse a relação envolvente entre Po-Wing e Lai, o roteiro apresenta outro interessante personagem próximo da virada para o terceiro ato, Chang. Se os dois protagonistas não sabem se querem ficar juntos ou separados, Chang surge como um contraponto à postura de ambos, mostrando a felicidade que há na solitude e suas consequências boas, como a liberdade. No entanto, há belas reflexões sobre a própria busca pela independência, como o momento em que Lai diz: “imagino porque gosta de correr livre, ele tem sempre um lugar para retornar”, em alusão aos pais de Chang, ou seja, ao mesmo tempo que o roteiro de Kar-Wai condena a possessividade, ele também destaca que, um dia, todos voltam para onde amam.

No fim, essa frase do protagonista torna-se uma análise de seu namoro com Po-Wing, visto que, mesmo que os dois ajam de maneira errada um com o outro, eles sabem que podem recomeçar quando desejarem. Infelizmente, a confiança de que o parceiro estará sempre presente resulta em descaso com o relacionamento para alguns. A zona de conforto gera preguiça e egoísmo. Às vezes, parece que a tristeza é a única consequência possível para o amor.

Felizes Juntos (Chun Gwong Cha Sit) – Hong Kong, 1997
Direção: Wong Kar-Wai
Roteiro: Wong Kar-Wai
Elenco: Tony Leung Chiu-Wai, Leslie Cheung, Chang Chen, Shirley Kwan
Duração: 96 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.