Crítica | “Femme Fatale” – Britney Spears

estrelas 1,5

Femme Fatale foi um álbum que carregou muita esperança para os fãs da musa pop. Não digo os fãs incondicionais que não conseguem compreender a regressão presente no trabalho da artista desde o seu colapso, mas aos que esperavam um retorno triunfal, pois os trechos do videoclipe Hold It Against Me, single do álbum em questão, demonstravam uma artista de volta e com força total. Ledo engano: ao ser lançado, o videoclipe nos mostrou que a artista continuava perdida dentro do próprio trabalho, ajudada com a edição frenética das imagens do vídeo.

Nem isso foi possível para disfarçar a falta de habilidade da artista em segurar o seu posto dentro do molde de pop que buscou se estabelecer. Explico: Britney é o tipo de artista moldada dentro de um padrão estabelecido por Madonna desde os anos 1980. “Cantar”, dançar, transmitir mensagens e mostrar elementos de artes diversas nos limites de seu palco. Não podemos esperar da artista um banco, um microfone e uma voz afinada cantando e lacrimejando a plateia. Este não é o formato. Sendo assim, julgar Britney por sua voz é incoerente, pois desde o seu primeiro trabalho, esta nunca foi e creio que nunca será a sua proposta como musa do pop.

Desta forma, é de se esperar de um artista deste molde, videoclipes ousados e um álbum que mexa com os ouvintes. Com o lançamento do videoclipe single, fomos apresentados a uma realidade que talvez não fosse mais agradável: Britney não estava de “volta”. Ela estava apenas fazendo o mais do mesmo, uma variação ruim do que havia sido os seus dois últimos álbuns.

“Eu entreguei meu coração e minha alma neste álbum”, afirmou Britney Spears em entrevistas. Será? Se isso for verdade, creio que a entrega não tenha sido necessária, haja vista a qualidade artística de Femme Fatale, um álbum insosso, repetitivo e com poucos bons momentos. Ao pegá-lo, esqueça as “flopadas” Gasoline, Inside Out e Big Fat Bass. O foco, caro leitor, deve ir para Hold It Against Me, Till The World Ends e I Wanna Go. Talvez assim, você consiga tirar algum divertimento deste trabalho pouco inspirador.

Hold It Against Me foi escrita por Max Martin e Billboard, tendo Bonnie McKee na produção. Com uso de sintetizadores que elevam a voz, a faixa apresenta Britney Spears gemendo em dó menor e auxílio dos elementos do grime, estilo conhecido por versos de oito compassos e diversidade de sons eletrônicos, influenciado pelo hip hop.  A faixa havia sido oferecida a Katy Perry, mas acabou ficando com a princesinha do pop. Rendeu um dos piores videoclipes da cantora, dirigido pelo eficiente Jonas Akerlund, cheio de suposta complexidade, quando na verdade nos mostra uma Britney incapaz de retomar o seu lugar de dançarina exímia.

Till The World Ends é uma faixa sobre dançar até o fim do mundo. Composta por Kesha, Dr. Luke e Max Martin, carrega em sua produção elementos do eurodance (batida forte entre 110 e 150 BPM e estrofes com raps) e batidas do electropop (som eletrônico repetitivo). O videoclipe possui um eficiente design de produção, mas gerou polêmica por ser supostamente dançando por uma conhecida cover de Shakira, durante as cenas de impacto. De fato, o editor não foi cuidadoso e há um frame que ao ser pausado, nos mostra por menos de 01 segundo que a pessoa que ocupa o lugar da Britney não é ela mesma. E no âmbito da criatividade, soa como releitura pouco criativa de I’m Slave 4 U, pois os enquadramentos e outras propostas visuais soam muito semelhantes.

Em I Wanna Go, Britney canta sobre a perda da ilusão e ironiza a sua necessidade de liberdade sexual. Auxiliada por um baixo pesado, a canção foi o terceiro single do álbum, seguida da terrível Criminal, faixa em que a voz da cantora parece mais insuportável que o habitual. Britney canta num tom enjoado, melódico e arrastado, algo que ela acreditou ser sensual, mas que na verdade só soou bem nas versões remixadas por fãs, pois a voz quase desaparece para batidas que pegam carona nos melhores momentos do arranho musical da faixa, repleta de teclados sintetizadores.

Comercialmente bem sucedido, o álbum foi lançado em março de 2011 pelo selo Jive Records, produzido por nomes comuns ao terreno pop, tais como Dr. Luke, Max Martin, William Orbit e Stargate. Gravado entre 2009 e o ano de lançamento, Britney Spears retornou de Circus com vocais ainda mais processados, sem assinar autoria/coautoria em quase nada, em suma, um trabalho inferior de uma fase inferior ao que já havia sido feito em Blackout.

A ficha técnica de Femme Fatale não é grande novidade. São em média 44 minutos de sonoridade pop, tendo em seu conteúdo o dance, o dubstep e o trance. Com o dubstep, o álbum consegue trazer vocais ocasionais, samples cortados, a presença de um baixo forte e toda a reverberante bateria, tendo ainda auxílio de subgraves e frequências baixas. A presença das batidas repetitivas do trance, uma das primeiras vertentes da música eletrônica presente com bastante frequência no terreno da cultura pop atual, permite ao álbum compor a sua atmosfera.

Foi um dos álbuns do seu retorno que mais investiu em publicidade: entrevistas, programas de televisão, participações em programas de rádio e TV, além da financeiramente rentável, mas desastrosamente vergonhosa turnê Femme Fatale, único DVD da Britney Spears que fiz questão de repassar assim que foi comprado para assistir. Tudo é de qualidade questionável: os dançarinos são ótimos, mas as coreografias pouco inspiradas; Britney lembra um avatar mal programado de si mesma, tonta e perdida em um palco que não parece mais ser um espaço de conforto para a artista que já fez apresentações de tirar o fôlego; o canto nunca foi uma exigência, pois sabemos que a artista sempre fez playback, opção até melhor, pois quando ousava unificar base pré-gravada e voz própria e real, tínhamos uma representação típica da expressão popular “tiro no pé”. Com uma gama imensa de iluminação e fogos de artifício para os efeitos especiais, o show é comprometedor, tal como o álbum, sinal dos tempos de uma artista apenas financeiramente rentável.

Aumenta: Hold It Against Me
Diminui: quase todas as demais

Femme Fatale
Artista: Britney Spears.
País: Estados Unidos.
Lançamento: 25 de março de 2011.
Gravadora: Jive Records.
Artista: Pop, Dance.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.