Crítica | Fenda no Tempo

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estrelas 3

Stephen King é um escritor de sorte. Se vivesse apenas dos seus livros, provavelmente seria mais um na multidão de escritores da contemporaneidade. A vantagem da sua posição no campo cultural é ser um dos profissionais que mais ganhou adaptações audiovisuais para as suas obras literárias. Longe de estabelecer uma análise focada no famigerado ideal de fidelidade ao texto original, questão já colocada em xeque pelos estudos de tradução intersemiótica, na maioria dos casos, os filmes são mais interessantes que os textos literários.

Em 1995, Tom Holland escreveu e dirigiu a adaptação da novela The Langoliers, intitulado de Fenda no Tempo aqui no Brasil. O filme aborda alguns temas comuns no bojo da cultura pop, como a viagem no tempo, o insólito, outras dimensões etc. Em um voo de rotina ligando os passageiros de Los Angeles a Boston, algo estranho acontece: dez passageiros acordam e descobrem que estão sozinhos no avião. Os demais passageiros desaparecidos deixaram objetos pessoais como relógios, passaportes e até próteses dentárias.

O que terá acontecido com o voo? Adentrou em uma nova dimensão? É tudo um sonho? Será esse o questionamento do espectador até o ápice da terrível verdade por detrás dos acontecimentos envolvendo personagens cheios de altos e baixos: um piloto com problemas pessoais relacionados a ex-esposa, um engenheiro aposentado, uma jovem viciada em drogas e a outra cega, dotada de poderes psíquicos, um escritor, um investidor bancário, uma professora, um violinista, dentre outros. Todos envolvidos no horror interligado entre o avião e um aeroporto deserto, local onde os sons não fazem eco, a eletricidade não existe e há um zumbido irritante que se revelará como algo monstruoso mais adiante.

Fenda no Tempo podia assustar na época do seu lançamento, a depender da faixa etária do espectador, tendo em vista que numa era pós-Jurassic Park, os Langoliers, criaturas monstruosas que habitam o passado de um dos personagens parecem trabalhos de desenho de ensino fundamental. A edição é um pouco letárgica, a direção razoável, ficando com saldo negativo apenas algumas atuações e o final do roteiro, nada bonito e muito ordinário.

Indicado ao Emmy, Fenda no Tempo não é um primor audiovisual, mas consegue ser minimamente curioso e atraente. Ao longo dos seus 180 minutos (para quem, como eu, viu em VHS ou DVD, unificados no formato filme) a produção cria um clima claustrofóbico que fisga o espectador, mas infelizmente, escorrega e cai no ridículo no final. Um desperdício, mas que não chega a estragar o produto como um todo.

Fenda no Tempo (The Langoliers, Estados Unidos – 1995)
Direção: Tom Holland
Roteiro: Tom Holland (baseado em obra de Stephen King
Elenco: Patricia Wetting, Dean Stockwell, David Morse, Frankie Faison, Mark Lindsay Chapman, Baxter Harris, Kimber, Bronson Pinchot
Duração: 180 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.