Crítica | Feud – 1ª Temporada: Bette and Joan

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estrelas 4,5

Ryan Murphy é hoje um profissional que dispensa apresentações. Apesar de ter começado sua carreira no final dos anos 1990, foi apenas com Nip/Tuck (2003 – 2010) que ele ganhou destaque como produtor, escritor e diretor, o que lhe abriu as portas para hits televisivos nos anos seguintes, como Glee (2009 – 2015), American Horror Story (2011 – ), American Crime Story (2016 – ) e agora Feud.

A série tem o mesmo formato de antologia que se tornou uma marca recente do produtor (especialmente ao lado de Brad Falchuk). Nesta primeira temporada, Feud recebe o subtítulo Bette and Joan, e se destina a contar a histórica e já muito falada rivalidade entre duas estrelas de Hollywood, Bette Davis e Joan Crawford. Em 1989, poucos meses antes da morte da atriz, Ryan Murphy entrevistou Bette Davis, que lhe concedeu 20 minutos para perguntas sobre a carreira e a arte de fazer cinema. A entrevista, no entanto, acabou durando 4 horas e essa experiência marcou para sempre Ryan Murphy, que cresceu admirando Davis e agora tinha uma grande quantidade de material sobre ela, um material que ele teve a oportunidade de coletar pessoalmente.

Bette and Joan foi inicialmente pensado como um telefilme. Murphy já lera por incontáveis vezes o livro Bette and Joan: The Divine Feud (Shaun Considine, 1989) e adicionando as informações do próprio material gravado, sentia-se seguro para escrever um roteiro a respeito. Ele também não via muita dificuldade para aprovação do enredo por uma emissora, principalmente depois de seus sucessos recentes. O processo de escrita, todavia, revelou que existia muita coisa para ser dita, e o autor resolveu estender a história e criar com ela uma série. Ao lado dos colegas Jaffe Cohen e Michael Zam (nenhum dos dois com experiência relevante como produtores) e tendo como fonte a Fox 21, Plan B e sua própria produtora, Ryan Murphy foi capaz de criar uma série cuja premissa é delicada — pois estamos falando de pessoas reais — mas que de imediato desperta a atenção do público, notadamente porque os casos de inimizade retratados são clássicos (a criação da série já veio com a encomenda de uma segunda temporada, prometendo trazer os inimigos Príncipe Charles e Princesa Diana).

A rigor, Bette and Joan é uma jornada por um momento bastante difícil para as estrelas da Era de Ouro de Hollywood. A base nuclear da série é um documentário gravado em Los Angeles, nos anos 70, e a partir de entrevistas a atores, atrizes e outros profissionais que trabalharam com Davis e Crawford, partimos para uma jornada em flashback, diretamente para a pré-produção de O Que Aconteceu Com Baby Jane?. A primeira grande “bandeira” da série é levantada já no Piloto: o glamour oferecido pela Cidade dos Sonhos às suas estrelas tem data de validade, principalmente para a mulher. O envelhecimento e o trabalho em um Universo dominado por homens é uma dupla dificuldade para profissionais do cinema e nós sabemos que este problema não se encerrou nos anos 1960, ele permanece até hoje, mesmo que em menor escala. Frases como “é hora de se aposentar” ou “você não serve porque não é mais bonita” ou “só serve para o papel se for gostosa” são pequenas amostras do que os bastidores dos grandes estúdios colocavam para as atrizes, além de absurdas exigências estéticas que chegam a cortar o coração do espectador no último episódio, You Mean All This Time We Could Have Been Friends?.

O cuidado do desenho de produção e da direção aqui são tremendos. A pesquisa histórica, idem. Não há um figurino fora do lugar, uma má representação de tecnologia de época, um mal uso de música; um único episódio com uma direção, fotografia ou arte ruins. E isso é bastante coisa para uma série que retrata o Universo de Hollywood durante quinze anos, entre a pré-produção de Baby Jane, em 1962 e a morte de Joan Crawford, em 1977. Os pequenos arranhões ao longo dos episódios podem ser vistos na montagem, que às vezes alonga demais as cenas dramáticas, pisando inadvertidamente no melodrama — distanciando-se da proposta geral, que é de um tele-docudrama metalinguístico –; e de algumas partes do roteiro, que vez ou outra tira de eventos importantes o seu devido lugar na série (como os prêmios dos artistas fora o Oscar e a proximidade da dupla protagonista com outros artistas) ou simplesmente retrata mal um coadjuvante ou desacelera em demasia uma cadeia narrativa, como vemos no finale.

Entre o machismo, a misoginia, a fortíssima disputa de egos entre artistas de ambos os sexos e a “Indústria da Fofoca”, aqui encabeçada por Hedda Hopper (considerada uma má atriz, mas que mesmo assim trabalhou em 150 filmes, entre 1916 e 1966. De 1938 até sua morte, ela também trabalhou como jornalista de fofocas, tendo uma coluna própria, a Hedda Hopper’s Hollywood), vivida com perfeição por Judy Davis, vemos todos os meandros da indústria do cinema, a parte ruim, os maus tratos, os enganos e humilhações que a câmera não mostra. E como era de se esperar, há referências a uma grande quantidade de filmes em toda a série, como vocês podem ver na lista abaixo.

Lista de Filmes Diretamente Citados em Feud + Playlist

Para não alongar ainda mais o texto da crítica e para que eu não tenha que contextualizar todas as citações (o que seria insanidade), deixarei na lista que se segue todos os filmes citados ao longo da temporada. Existem diversas outras referências indiretas, claro, mas eu anotei apenas as obras que são de fato inseridas por reprodução de rádio, TV, cinema, jornal ou citadas por algum personagem da série nos diálogos.

  1. Grande Hotel (1932)
  2. Perigosa (1935)
  3. Sonho de uma Noite de Verão (1935)
  4. A Dama das Camélias (1936)
  5. …E o Vento Levou (1939)
  6. Meu Reino Por um Amor (1939)
  7. As Mulheres (1939)
  8. Pérfida (1941)
  9. Casablanca (1942)
  10. Insuspeitos (1943)
  11. Madame Curie (1943)
  12. Alma em Suplício (1945)
  13. Uma Vida Roubada (1946)
  14. Acordes do Coração (1946)
  15. Só Resta uma Lágrima (1946)
  16. A Filha de Satanás (1949)
  17. Crepúsculo dos Deuses (1950)
  18. A Malvada (1950)
  19. Nascida Ontem (1950)
  20. Precipícios d’Alma (1952)
  21. Janela Indiscreta (1954)
  22. A Rainha Tirana (1955)
  23. A Morte num Beijo (1955)
  24. Folhas Mortas (1956)
  25. Boneca de Carne (1956)
  26. Ben-Hur (1959)
  27. Psicose (1960)
  28. Céu de Agonia (1960)
  29. El Cid (1961)
  30. Julgamento em Nuremberg (1961)
  31. Trama Diabólica (1961)
  32. Divórcio à Italiana (1961)
  33. Escândalos Ocultos (1961)
  34. O Último Por-do-Sol (1961)
  35. Sodoma e Gomorra (1962)
  36. Doce Pássaro da Juventude (1962)
  37. O Milagre de Anne Sullivan (1962)
  38. Longa Jornada Noite Adentro (1962)
  39. O Sol É Para Todos (1962)
  40. Vício Maldito (1962)
  41. Vendedor de Ilusões (1962)
  42. David e Lisa (1962)
  43. Dois na Gangorra (1962)
  44. Lawrence da Arábia (1962)
  45. O Que Aconteceu com Baby Jane? (1962)
  46. Os Quatro Heróis do Texas (1963)
  47. Almas Mortas (1964)
  48. Alguém Morreu em Meu Lugar (1964)
  49. Minha Bela Dama (1964)
  50. A Dama Enjaulada (1964)
  51. Com a Maldade na Alma (1964)
  52. Confidências de Hollywood (1966)
  53. Os Doze Condenados (1967)
  54. Sem Destino (1969)
  55. Trog, o Monstro da Caverna (1970)
  56. Chinatown (1974)
  57. Era uma Vez em Hollywood (1974)
  58. Momento de Decisão (1977)
  59. Amargo Regresso (1978)

Segue também a minha playlist com as músicas tocadas na série. Divirtam-se!

A escalação de Jessica Lange para o papel de Joan Crawford, Susan Sarandon para o papel de Bette Davis foi a grande cartada dos produtores. Ambas as atrizes passaram pelo “efeito vinho”, principalmente Jessica Lange: tornaram-se atrizes cada vez melhores à medida que foram envelhecendo. E isso chega até ser uma ironia diante dos papéis que elas representam aqui. Dos mínimos detalhes vocais ao trabalho com as mãos, movimentos dos olhos, timbre e volume, estilo de atuação, modo de andar, chorar, maneirismos, tudo o que as atrizes que elas representam tinham de características marcantes foram incorporados por Lange e Saradon em suas performances, o que certamente deve garantir indicações para as duas na temporada de premiações que se segue. Em companhia a elas, temos também excelentes atuações de Alfred Molina, vivendo um sensível e simpaticíssimo Robert Aldrich; Jackie Hoffman vivendo com austeridade impressionante a “Mamacita”, fiel escudeira de Crawford; Stanley Tucci como o infame, genial e ao mesmo tempo desprezível Jack Warner; Alison Wright como a assistente de direção e aspirante a diretora Pauline Jameson; e ainda os convidados Catherine Zeta-Jones como Olivia de Havilland; Dominic Burgess como Victor Buono (que interpretação maravilhosa!) e Kathy Bates como Joan Blondell.

Feud é o tipo de série que pela rivalidade entre protagonistas e qualidade de produção, atinge e agrada a todos os públicos, mas não existirá um cinéfilo que não seja tocado por esta produção. O show faz questão de explorar as mais conhecidas lendas de relacionamentos em Hollywood, a sexualidade de atores e atrizes em um período onde “ser abertamente gay” poderia custar a carreira (algo não muito diferente de hoje, dependendo do segmento), a insatisfação e impotência de alguns artistas diante dos Estúdios e demandas de público… tudo o que transformou a sétima arte em um jogo bastante caro e uma mina de dinheiro surge em contexto e é progressivamente discutido nos 8 episódios. A série não é apenas uma ótima maneira de nos fazer conhecer mais — e inclusive poder relativizar e compreender os dois lados em disputa –, mas também uma crítica tremenda à indústria do entretenimento, ao trato e exigências ainda piores para as mulheres e o constante medo do esquecimento, de ser lembrado apenas após a morte, ou nem isso.

Trabalhar sentimentos e relações humanas pode ser uma armadilha hoje em dia. Muito já se mostrou sobre pessoas e artistas. O difícil é fazer de um acontecimento quase mitológico como a briga entre Bette e Joan um produto também do nosso tempo, com lições que parecem não ter surtido efeito no Universo mainstream do cinema, que ainda hoje se mostra marcado, com obrigações e ordens que não se encerram apenas nos escritórios ou sets de filmagens, mas tornam-se igualmente uma demanda do público. Feud: Bette and Joan é sobre a difícil interação entre empatia, reconhecimento e arte. É mais uma série sobre como não tratar seres humanos, sejam eles artistas ou não, do que sobre inimigas que, na verdade, se admiravam bastante e que, ao contrário do que popularmente se pensa, tiveram a oportunidade de dizer isso uma para a outra. A velha história de que da verdade, só conheceremos um lado. E sim, isso também vale para Feud.

Feud – 1ª Temporada: Bette and Joan (EUA, 2017)
Criadores: Ryan Murphy, Jaffe Cohen, Michael Zam
Direção: Gwyneth Horder-Payton, Helen Hunt, Tim Minear, Ryan Murphy, Liza Johnson
Roteiro: Gina Welch, Jaffe Cohen, Michael Zam, Tim Minear, Ryan Murphy
Elenco: Jessica Lange, Susan Sarandon, Judy Davis, Jackie Hoffman, Alfred Molina, Stanley Tucci, Alison Wright, Catherine Zeta-Jones, Dominic Burgess, Joel Kelley Dauten, Kathy Bates, Kiernan Shipka, Molly Price, Brooke Star, Chelsea Summer
Duração: 45 min. / 60 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.