Crítica | FEZ

Carl Sagan certa feita elaborou um vídeo extremamente didático para tentar explicar o que seria a quarta dimensão. Para isso, ele utilizou um mundo chamado planolândia, totalmente bidimensional e demonstrou as limitações visuais de seus moradores. FEZ provavelmente se inspira nessa ideia e utiliza da estrutura de um jogo para ir muito além do que seria possível apenas com um vídeo.

Gomez, nosso simpático protagonista, vive em sua própria planolândia. Seu mundo é repleto de pessoas felizes, que dormem e acordam olhando para a esquerda e para a direita, indo para frente e para trás. Ocorre que, como em todos os mundos, existem hereges que insistem em pensar fora da caixa, criando suposições infundadas e questionando as regras existentes. Na planolândia isso não é diferente e os boatos de que existe uma outra dimensão se espalham. Ela permitiria que seus habitantes enxergassem o mundo através de uma nova perspectiva, algo que a maioria não conseguiria sequer abstrair. O jogo então começa com Gomez explorando seu vilarejo 2D até que rapidamente é surpreendido com a chegada de um misterioso ser cúbico, forma nunca antes vista por aqueles moradores.

Falando uma espécie de “cubonês”, o poliedro tridimensional, que aparentemente é responsável por manter a coerência de todo aquele universo, explica coisas ininteligíveis para qualquer pessoa presa em um mundo bidimensional e se divide em 32 cubos que se espalham por todo o mundo. Gomez recebe então um chapéu, que lhe confere a habilidade de enxergar a terceira dimensão. O jogo então é interrompido e simula um erro de sistema, que força uma reinicialização do mesmo, passando por todas as telas que vimos assim que abrimos o game pela primeira vez. Não bastasse a genialidade desse evento, é interessante perceber que, apesar de todo o mundo tridimensional agora disponível graças aos poderes concedidos pelo chapéu, o jogo nunca abandona sua jogabilidade estilo plataforma 2D. Uma proposta singular e inovadora.

Agora que o mundo deixou de ser um quadrado e se transformou em um cubo, seu objetivo é se movimentar entre os lados deste novo mundo e explorar cada um deles para coletar todos os 32 cubos e os outros 32 anti-cubos espalhados pelo jogo. A exploração sempre vale a pena. Sempre queremos ir até onde a vista alcança em profundidade em busca de novas áreas, portais, passagens secretas, baús, e claro, os cubos.

FEZ tem visual retrô, inspirado claramente nos games old school feitos em 8 bits. Mas tudo é feito com muito capricho, dando um ar de modernidade mesmo em um estilo já ultrapassado. O mundo é vivo também, bastante colorido e possui uma variedade enorme de ambientes, dando a sensação de que você nunca mais vai conseguir voltar em um determinado local. Isso se agrava com o fato de que o jogo não te dá nenhuma instrução de caminho e nossa única ferramenta é um mapa não muito intuitivo. Felizmente, o jogo incentiva fortemente a exploração. Não há inimigos, tempo ou penalidades.

Composta por Rich Vreeland, a trilha sonora segue a linha da jogabilidade e da narrativa: simples, inspirada nos anos 80 e extremamente bem executada. As batidas têm papel fundamental na imersão que o jogo alcança e mesmo após dezenas de horas jogando, elas não ficam enjoativas.

Sem loadings, chats ou menus para nos lembrar que estamos em um jogo, e com tantos elementos bem executados, FEZ torna-se uma experiência maior do que aparenta. Trata-se genuinamente de uma bem-sucedida soma de experiência visual polida com jogabilidade impecável e trilha sonora devastadora. Genial, nostálgico, engenhoso e primorosamente executado, FEZ é uma das experiências mais gratificantes que tive com games nos últimos tempos, mesmo o tendo jogado apenas recentemente, cinco anos após seu lançamento original no Xbox 360.

Grandes empresas gastam milhões de dólares para criar jogos com gráficos de ponta em mundos gigantescos e frequentemente tem como resultados produtos pouco inspirados e repetitivos. Tendo sido feito por um grupo muito pequeno de pessoas, que resistiram bravamente aos percalços de longos 5 anos de desenvolvimento, FEZ pode ser visto também como uma lição de que a criatividade, inspiração e dedicação talvez sejam os recursos mais importantes para o desenvolvimento de um game, tornando-o capaz de proporcionar uma experiência memorável e inesquecível para quem joga.

FEZ
Desenvolvedora: Polytron Corporation
Lançamento: 13 de abril de 2012 (Xbox 360) / 1 de maio de 2013 (PC) / 25 de março de 2015 (PS4, PS3 e PSVita)
Gênero: Plataforma, Puzzle
Disponível para: PC, Mac, Linux, PS3, PS4, PSVITA, Xbox 360, Xbox One

BRUNO CAVALCANTI . . . [Ao som de Top Gear....] Localização: Terra - Via Láctea - Universo Observável. Sou um terráqueo padrão, que se entretém sabe-se lá do quê com livros, filmes, quadrinhos e games. Falante excessivo a 30 anos, só dispenso um bom papo se o assunto for pagode ou Big Brother. Adepto da paz, não gosto de polêmicas. Mas a DC é claramente melhor que a Marvel. Se for me dar um livro, abra-o antes e escreva uma dedicatória. Não dou muito valor ao plástico do lacre, já que ele sempre vai pro lixo. Agora, se o presente for pro meu filho de 2 anos, ele me disse aqui que prefere um carrinho. De preferência um Jipe. E de preferência azul.