Crítica | Filadélfia

estrelas 4,5

“Neste tribunal, Sr. Miller, a justiça é cega independente da raça, crença, cor, religião e orientação sexual.”

“Com todo respeito, meritíssimo, nós não vivemos neste tribunal, vivemos?”

A discussão da AIDS, tanto nos Estados Unidos quanto no resto do mundo, foi extremamente turbulenta, um processo a enfrentar as barreiras do preconceito, fortemente atrelado à mentalidade da sociedade de outrora, como também a atual. Os mitos e especulações geravam o medo e as desconfianças, que se voltavam, naturalmente, contra os aidéticos, criando-se um estigma problemático. O preconceito contra os homossexuais tomou força assombrosa, chegando ao asco insuperável e, como sempre, injustificável. A doença, por muitos, foi considerada uma “peste gay”, para exemplificar a proporção desse fenômeno triste, de impacto alarmante contra a população LGBT da época. Se até celebridades buscavam esconder as suas condições médicas e evitar holofotes, com muitos casos sendo revelados momentos antes ou imediatamente após falecimentos de personalidades conhecidas, pessoas comuns tentavam sobreviver sem provocar alardes nos amigos, familiares e colegas de profissão. A vida precisa seguir, pois o dinheiro não era um auxílio para essas pessoas. O cinema, portanto, começava a encontrar sua relevância e espaço na desconstrução de paradigmas, consequentemente à necessidade por sua participação na questão.

Ao som da brilhante Streets of Philadelphia, de Bruce Springsteen, o público é imerso no longa-metragem Filadélfia. A atmosfera está criada. Uma inteligente trama surge adiante, contendo, como personagem central do enredo, Andrew Beckett (Tom Hanks), um jovem advogado que começa a apresentar graves sintomas, sofrendo as consequências de um infortúnio da vida. Após seus empregadores descobrirem a doença, Andrew é demitido sobre um falso pretexto, sabotado, uma justa causa completamente injusta. A medida contra-atacante é recorrer ao advogado Joe Miller (Denzel Washington), para ajudá-lo a processar o escritório de advocacia onde trabalhara. O argumento, como se estabelece, é desenvolvido em um tribunal. O problemático revés da necessidade em resistir à duração, às vezes maçante, sem tornar-se cansativo, mostraria-se, potencialmente, presente, mas esse não é o caso. O diretor Jonathan Demme, que vinha do espetacular O Silêncio dos Inocentes, progride a narrativa eficientemente, intercalando o julgamento em si com os efeitos causados nos personagens. O julgamento não se torna, porém, tão interessante quando poderia, em razão do roteiro evitar as reviravoltas comuns do gênero. O prosseguimento é mais linear e óbvio.

Essa é uma direção, entretanto, composta por sutilezas. A revelação da doença de Beckett para Beckett, por exemplo, não é mostrada, evitando-se exposições baratas, senão o subentendimento, mais que necessário para a imersão. Os indícios nos levam a crer na doença – por exemplo, quando amigos, com pesar nos semblantes, ajudam Andrew a disfarçar as lesões. O texto, contudo, não é obrigado a comentar nada, até sermos levados ao personagem de Denzel Washington – a revelação pelo olhar do advogado que irá defender Andrew, preconceituoso e maldoso. Apesar do ator estar excelente, tomando, em seu papel, a função de complexar a situação do protagonista, com a ironia de defender algo por si desprezado, Hanks é quem tem o desempenho mais destrutivo da obra – no “bom” sentido -, sendo, definitivamente, a alma de Filadélfia. Em uma de suas interpretações mais cruéis, a degradação física sofrida pelo seu personagem, no decorrer do filme, é evidenciada pelas feições e pelo comportamento do ator. A vitalidade dos primeiros minutos some, surgindo, dela, um homem apático, que, ainda assim, consegue transmitir certa alegria, apesar das circunstâncias. O trabalho de maquiagem também complementa o retrato passado do personagem.

O elenco que compõe a família de Andrew serve, ademais, narrativamente – e perfeitamente – como um imenso acréscimo às camadas de empatia do público para com o personagem principal, à espera do fim. A história de uma vida, cercada daquelas pessoas, familiares e amigos, é belíssima e tocante, mesmo que pouco seja mostrado, porém, o suficiente para uma adesão emocional do espectador na jornada de despedida. A sequência em uma espécie de found footage promove credibilidade a esses entes queridos, fortalecendo vínculos extremamente poderosos, mesmo que breves. A identificação pessoal é uma possibilidade. Um segundo momento, em uma reunião perto do derradeiro final, corrobora derradeiramente para essa ótica sentimental, permitindo essas pessoas fugirem de clichês – o texto não precisa expor muito, adequar-se a batidas óbvias -, evidenciando-se como personalidades verdadeiras. Uma exaltação à humanidade em Filadélfia, mesmo com Antonio Banderas no elenco, interpretando o namorado de Andrew, mas não colaborando em termos específicos, além da química com Tom Hanks – muito mais mérito deste último. O grande momento de aproximação é, enfim, o melancólico canto de cisne, uma performance arrebatadora.

O porquê dessas cenas encontra-se no anseio da obra na identificação, muito além da orientação sexual do protagonista. As doenças afetam a todos. As pessoas morrem em decorrência disso. Assim como Joe Miller enxerga o ser humano em Andrew Beckett, interpretando a ópera, o espectador há também de enxergá-lo dessa maneira, contrariando Charles Wheeler (Jason Robards), um antagonista cheio de inseguranças, demonstradas pelo cinismo empregado na performance do ator. Filadélfia consegue ser relevante tanto em relação à sociedade da época em que foi lançado quanto em relação à sociedade atual. A obra torna-se perturbadoramente triste pelo fato de que, menos de dois anos após as gravações, boa parte dos atores que participaram das filmagens havia falecido, decorrente da doença que dá tema ao filme. Nas ruas da Filadélfia de hoje, essa, provavelmente, não é a fita mais revolucionária contendo essa temática. Mais de vinte anos, preenchidos de quebra de padrões e arquétipos, já se passaram desde o lançamento original de Filadélfia. Mesmo assim, o roteiro inteligente, as interpretações honestas e o retrato pioneiro e realista sobre seus personagens tornam o filme, enfim, um triunfante drama de tribunal, digno de reverência.

Filadélfia (Philadelphia) — EUA, 1993
Direção:
 Jonathan Demme
Roteiro: Ron Nyswaner
Elenco: Tom Hanks, Denzel Washington, Antonio Banderas, Jason Robards, Joanne Woodward, Buzz Kilman, Anna Deavere Smith, Charles Napier, Roberta Maxwell
Duração: 125 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.