Crítica | Filadélfia

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estrelas 4,5

A discussão da AIDS no início da década de 90 nos Estados Unidos foi turbulenta. Movida por mitos e especulações, o medo e as desconfianças se voltavam contra os aidéticos. Criou-se um estigma. O preconceito contra os homossexuais tomou força e a doença por muitos foi considerada uma “peste gay”. Se até celebridades buscavam esconder as suas condições médicas e evitar holofotes, pessoas comuns tentavam sobreviver sem provocar alardes dos amigos, familiares e colegas de profissão. Logo o cinema começava a encontrar sua relevância e espaço na desconstrução de paradigmas.

Ao som da brilhante Streets of Philadelphia, de Bruce Springsteen o público já é imerso no filme em seus primeiros minutos. Adiante surge uma inteligente trama que prossegue com Andrew Beckett (Tom Hanks), um jovem advogado homossexual que começa a apresentar sintomas da AIDS. Após seus empregadores descobrirem a doença, Andrew é sabotado, e consequentemente demitido sobre um falso pretexto, tendo assim que recorrer ao advogado Joe Miller (Denzel Washington) para ajudá-lo a processar o escritório de advocacia onde trabalhava.

O argumento desenvolvido em um tribunal tem o problemático revés de resistir à duração do filme e não tornar-se cansativo. Esse não é o caso. O diretor Jonathan Demme, que vinha do espetacular O Silêncio dos Inocentes, faz questão de progredir com a narrativa de forma eficiente, intercalando entre o julgamento em si e os efeitos que ele causaria nos personagens. Infelizmente, o julgamento não se torna tão interessante como poderia, quando o roteiro evita as reviravoltas comuns do gênero que o final, de uma forma ou de outra, pedia.

Fora isso, temos uma direção de sutilezas. A revelação da doença de Beckett para Beckett não é mostrada. Não há exposição. Indícios nos levam a crer na AIDS, quando, por exemplo, amigos ajudam Andrew a disfarçar as lesões com pesar nos semblantes. Mas nada é dito. Até que somos levados ao personagem de Denzel Washington e a revelação pelo olhar do advogado que irá defender Andrew, preconceituoso e maldoso.

Tom Hanks é a alma de Filadélfia. Apesar de Denzel Washington estar excelente, tomando em seu papel a função de complexar a situação de Andrew Beckett com a ironia de defender algo a que a ele sente desprezo, Hanks é quem tem o desempenho mais destruidor do longa. Em uma de suas interpretações mais cruéis, a degradação física que seu personagem sofre no decorrer do filme acaba por ser levada para as feições e a forma como Tom Hanks passa a se comportar. A vitalidade do personagem nos primeiros minutos do filme some e surge dela um homem apático, que ainda assim consegue transmitir alegria, apesar das circunstâncias. O trabalho de maquiagem também complementa o retrato do personagem que o filme se propõe a passar.

Todo o elenco que compõe a família de Andrew serve narrativamente, e perfeitamente, para acrescentar mais uma camada de empatia do público com o personagem. A história de uma vida, cercada daquelas pessoas, familiares e amigos, é belíssima e tocante, mesmo que pouco seja mostrado. Duas sequências em especial, a primeira em uma espécie de found footage e a segunda em uma reunião perto do derradeiro final, faz com que os entes mais próximos fujam de clichês e tornem-se mais verdadeiros.

Antonio Banderas, interpretando o namorado de Andrew Beckett, não colabora com muita coisa no filme. O personagem é interessante e o ator possui química com Tom Hanks (mais mérito deste último), mas Banderas não tem muito o que fazer e suas aparições não condizem com a intensidade e profundidade da exploração narrativa do resto do longa. Para compensar, Charles Wheeler (Jason Robards) é um antagonista forte que marca presença. A insegurança do seu personagem é demonstrada pelo cinismo que o ator emprega em sua performance.

Com pequenos reveses, Filadélfia consegue ser relevante tanto em relação à sociedade da época em que foi lançado quanto para a sociedade atual que insiste em esconder o preconceito em justificativas banais. Transmitindo com sensibilidade os efeitos da AIDS em suas diferentes formas, o filme torna-se perturbadoramente triste pelo fato de que menos de dois anos após as gravações boa parte dos atores que participaram das filmagens já havia falecido decorrente da doença que dá tema à obra. Nas ruas da Filadélfia de hoje, esse provavelmente não é o filme mais revolucionário com essa temática que já foi feito. Vinte anos, preenchidos de quebra de padrões e arquétipos, já se passaram desde o seu lançamento original. Mesmo assim, o roteiro inteligente, as interpretações honestas e o retrato pioneiro e realista sobre seus personagens homossexuais tornam o filme, enfim, um triunfante drama de tribunal digno de reverência.

Filadélfia (Philadelphia) — EUA, 1993
Direção:
 Jonathan Demme
Roteiro: Ron Nyswaner
Elenco: Tom Hanks, Denzel Washington, Antonio Banderas, Jason Robards, Joanne Woodward, Buzz Kilman, Anna Deavere Smith, Charles Napier, Roberta Maxwell
Duração: 125 min.

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?