Crítica | Filha da Luz

Quem era criança ou adolescente nos anos 1990 certamente temeu a virada do milênio, principalmente os envolvidos em famílias de formação católica. Desde pequenos, os adultos conversavam em tom misterioso sobre o que possivelmente aconteceria quando ecoasse o ano 2000. O mundo iria realmente acabar? Será que as profecias iriam se estabelecer? Este mar de incertezas não inundou apenas as mentes férteis de muitos jovens e adultos crentes nestas narrativas fantasiosas, mas foi também combustível dramatúrgico para produtores cinematográficos ao redor do planeta.

Há vários filmes que tangentes no que concerne este tema, tais como Stigmata, Fim dos Dias e Dominação, além deste suspense sobrenatural mediano, Filha da Luz, produção assinada pelo cineasta Chuck Russel, filmada entre a Alemanha e os Estados Unidos num momento crucial do final do século XX. Baseado em um romance de Cathy Spellman, o filme teve o roteiro de Thomas Rickman, Clifford Green e Ellen Green, conjunto de mentes pensantes que poderiam dar versatilidade ao material, mas na verdade demonstram mais confusão que acertos nesta narrativa que tem como parâmetro, os ótimos A Profecia e O Exorcista.

As referências são inevitáveis. O problema é que também são decepcionantes. Em prol da violência gráfica em alguns trechos, o filme perde na composição dos seus personagens e na dimensão dramática da história que conta. Observe: na trama temos a trágica trajetória de Cody (Holliston Coleman), uma garota abandonada pela mãe para ser criada por sua tia, Maggie O’Connor, interpretada pela veterana Kim Basinger.

Tudo parece tranquilo até a criança completar seis anos de idade. É quando determinado alarme dispara e a garota começa a ser perseguida por uma seita de adoradores do demônio, haja vista os seus dons especiais. Para ajudar na resolução de todo este drama sobrenatural, entra em cena um especialista em crimes que envolvem práticas ritualísticas, o agente John Travis (Jimmy Smits).

Responsável por outras produções de terror, tais como A Hora do Pesadelo 3 e A Bolha Assassina, Chuck Russel gerencia uma produção que retrata a eterna luta entre o bem e o mal, através de clichês enlatados e disponíveis para consumo em tantas outras produções do subgênero. Filha da Luz não chega a ser um filme sobre exorcismo, mas o assunto tangencia profundamente a obra. Recebido com pedras pela crítica especialista, o filme circulou bem pelo mercado de DVD/VHS na época, mas hoje é uma das pérolas do horror que estão submersas no extenso e caudaloso mar dos filmes de terror.

Filha da Luz (Bless The Child) — Alemanha/EUA, 2000
Direção: Chuck Russell
Roteiro: Thomas Rickman, Clifford Green, Ellen Green
Elenco: Kim Basinger, Jimmy Smits , Holliston Coleman , Rufus Sewell , Angela Bettis , Christina Ricci , Michael Gaston, Lumi Cavazos , Dimitra Arlys, Helen Stenborg , Jonathan Malen , Alexa Gilmour
Duração: 104 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.