Crítica | Filha do Mal (2012)

Em Por Que Ler os Clássicos, o ensaísta Ítalo Calvino alega que os clássicos são livros que “exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória”, isto é, “mimetizam-se como inconsciente coletivo ou individual”. Talvez os realizadores de Filha do Mal, filme de exorcismo lançado em 2012, tenham lido este trecho do livro de Calvino e levado a sua admiração pela obra-prima O Exorcista às últimas consequências, a ponto de realizar um filme dramaticamente anêmico.

Calvino fala de um ponto de vista literário, mas a sua colocação pode ser muito bem associada ao relacionamento de uma geração de cinéfilos com o clássico de 1973, ganhador de admiração por ser pioneiro na formulação de estratégias audiovisuais em prol do medo e do pavor extraídos da plateia. Tornou-se redundante ao analisar um filme que tenha práticas de exorcismo em seu conteúdo, mas não há jeito: qualquer produção do subgênero vai encontrar paralelo com a história da menina Regan.

Em Filha do Mal, o cineasta William Brent Bell convidou Matthew Peterman para ser roteirista de um filme que segue o estilo documental, em uma mescla de A Bruxa de Blair, Cloverfield e Rec, para contar a história de Isabella (Fernanda Andrade), uma jovem que decide investigar os motivos que levaram a sua mãe a matar três pessoas violentamente, durante uma sessão de exorcismo que ocorreu há 20 anos. O grande conflito se estabelece neste reencontro: a mãe não passa por distúrbios psicológicos, mas na verdade ainda guarda em si a presença de quatro demônios em seu corpo.

Para organizar a sua investigação, Isabella filma cada passo: uma aula sobre o tema no Vaticano, um ritual supostamente real de exorcismo, além de outros momentos de sua pesquisa, haja vista a opinião frequente da dupla que lhe acompanha, formada por Bem (Simon Quaterman) e David (Evan Helmuth), sempre insistentes no bordão “a prática é melhor que a teoria”.  Dentro da diegese fílmica pode até ser relevante, mas o resultado comprova que ao sabotar a teoria, os envolvidos caminham por uma via narrativa sinuosa e derrapante.

Produzido pelos mesmos criadores de uma das piores franquias de terror de todos os tempos, a fantasiosa e chata Atividade Paranormal, Filha do Mal custou U$1 milhão e rendeu a quantia exorbitante de U$33 milhões apenas nos Estados Unidos. A trama começa bem, mas degringola até o agonizante final, demonstrando falta de apuro dramático e tentativa de excessos visuais que não acrescentam em nada na história.

Há alguns bons momentos, como o desempenho de Susan Crowley como a convincente mãe possuída, envolta numa atmosfera assustadora e tenebrosa. Uma cena no interior de um batismo também alcança eficiência, além do desconforto de algumas passagens que contam com ótimo auxílio do design de som. No entanto, as vantagens narrativas de Filha do Mal ficam por aí: a montagem destroça qualquer intenção de naturalidade proposta pelas sequências ao estilo documental, bem como os personagens não estão devidamente envolvidos com o roteiro.

Para ficar ainda pior, a sensação que temos é a seguinte: ao passo que os 83 minutos avançam, sentimos que a trama é uma compilação de tudo que já foi contado anteriormente, num formato muito melhor. Há críticas sociais relevantes, tais como os escândalos sexuais envolvendo a Igreja Católica e a hipocrisia desta instituição religiosa que ainda mantém uma postura patriarcal e antiquada na contemporaneidade, no entanto, nenhum destes elementos reflexivos ganham o devido destaque, afinal, os problemas narrativos são tantos que o espectador perde boa parte dos interesses contextuais lá pela metade do filme.

Filha do Mal (The Devil Inside) — EUA, 2012.
Direção: William Brent Bell
Roteiro: William Brent Bell, Matthew Peterman
Elenco: Fernanda Andrade, Simon Quarterman, Evan Helmuth, Ionut Grama, Suzan Crowley, Bonnie Morgan, Brian Johnson, Jeff Victoroff, Pamela Davis, John Prosky, Claudiu Istodor
Duração: 104 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.