Crítica | Filhas do Vento

estrelas 3

Depois do prestígio alcançado com o documentário A Negação do Brasil, o cineasta Joel Zito Araújo investiu em um projeto que trouxesse os mesmos conflitos do material documental, mas desta vez, no formato ficcional. Da ideia nasceu Filhas do Vento, um filme interessante e importante para a história recente do nosso cinema, mesmo que a sua narrativa seja cheia de conexões indevidas com o que se convencional chamar de linguagem televisiva.

Ao assumir direção e roteiro, o realizador nos oferta uma história de rancor, amor, família, sonhos e perdão, com camadas generosas de críticas ao racismo, situada em Lavras Novas, interior de Minas Gerais, cidade que fica a 19 quilômetros de Ouro Preto, espaço que já foi cenário para outra obra ficcional, A Garganta do Inferno, de Bernardo de Guimarães, o mesmo autor do famoso e polêmico romance A Escrava Isaura.

Com sua população majoritariamente negra, a cidade fundada por volta de 1716 possui laços estreitos com histórias de racismos e ecos da escravidão, temas que permeiam Filhas do Vento através dos diálogos dos personagens em constante confusão. A história começa com o encontro entre as irmãs no enterro de Zé das Bicicletas (Milton Gonçalves), pai das senhoras. Este reencontro é marcado por muita tensão, pois ambas não se comunicam há 45 anos.

O título do filme é uma alusão ao que o personagem de Milton Gonçalves chama de “filhas do vento”, mulheres que não fincam as suas raízes, teimosas e interessadas em suas “tramas”, consideradas “irreais” pelos mais céticos, neste caso, ele mesmo, homem grosseiro, machista e ignorante.

Cida (Tais Araújo) e Ju (Thalma de Freitas) são as suas filhas. Ao contrário da irmã mais nova, Ju, Cida não se interessa pela vida no interior e sonha em ser atriz, graças aos românticos enredos das radionovelas que escuta durante a noite. Certo dia ocorre um mal entendido entre as irmãs. O pai, mais distante de Cida por conta da sua aparência com a mãe, mulher que no passado também foi dona de seu destino, acaba castigando a mais velha. Para piorar, a mais nova sequer assume a culpa do problema causado.

Entre idas e vindas, temos Ju, isto é, Dona Maura da Ajuda (Léa Garcia), mulher recebe a irmã no enterro do pai. Há tempos que ela só a via pela televisão, tendo em vista o conflito do passado. Tia Cida (Ruth de Souza), atriz que como os personagens do documentário A Negação do Brasil, também sofre os preconceitos de ser mulher negra na televisão brasileira, tem uma filha que é carrega vários conflitos por não ter conhecido o pai e cuida da sobrinha, filha de Ju, uma criatura totalmente distante do estilo de vida daquelas pessoas comuns do interior, numa postura comportamental bem parecida com a da sua tia.

Dentro deste ciclo de situações não resolvidas, elas precisarão encontrar uma forma de diálogo que dê um fim em suas “metralhadoras cheias de mágoas”. E para isso o filme conduz o espectador bem. A edição de Isabela Monteiro consegue conectar bem os tempos da história, mas o que deixa a trama balanceada na análise é mesmo o seu conteúdo. Há certo domínio da linguagem cinematográfica em alguns trechos, principalmente nas transições temporais, mas os enquadramentos e a direção de arte de Andréa Veloso parecem “sem ânimo”, formais demais ou apenas colocados para registrar uma história que tem o seu foco na postura militante do roteiro.

“Sou um novo estereótipo: figurante de filme do Spike Lee”, diz um personagem, enquanto outra profere que a sua mãe consegue alguns trabalhos na televisão, “uma escrava aqui, uma empregada ali, figuração em um terreiro de candomblé”. São louváveis as falas, parte de uma reflexão importante para um país como o Brasil, terreno onde o racismo é dissimulado, diferente, por exemplo, do caldeirão de tensões comuns aos Estados Unidos, presentes em tramas do referenciado Spike Lee.

O problema não está, entretanto, em militar, mas em como o debate é estabelecido sem parecer acadêmico ou oriundo de cenas que parecem leitura dramática, literais, entoadas como num palco de teatro ou aula de literatura, isto é, como se estivéssemos escutando um texto escrito, sem a presença das emoções que devastam tais personagens pertencentes a um tecido narrativo tão cheio de conflitos. Por ter flertado durante tanto tempo com a dramaturgia televisiva em suas incursões intelectuais, Joel Zito Araújo traz este arsenal de gestos novelísticos que comprometem a trama enquanto cinema. No que diz respeito ao terreno conteudista, entretanto, o filme não oferece problemas, é até bem didático, o que pode agradar aos interessados em utilizá-lo como ferramenta pedagógica. Como dito por um crítico na época do lançamento, “não é preciso verbalizar o discurso político quando este já está visível”. Acho taxativo, mas de certa forma coerente. E você, caro leitor, o que acha?

A obra foi alvo de polêmica na 32ª edição do Festival de Gramado, em 2004. O crítico Rubens Ewald Filho, presidente do júri, alegou que os prêmios entregues ao filme faziam parte de uma agenda sociopolítica, algo aparentemente recorrente na contemporaneidade, época do pagamento de dívidas históricas. Acredito que haja um meio termo, mas é preciso pensar na colocação, pois ao menos o crítico foi sincero em seus apontamentos, sem necessariamente ter sido racista. Descuidado e tosco, talvez, haja vista a forma como levantou a polêmica. Independente dos problemas, Filhas do Vento passou por diversos festivais ao redor do Brasil e ganhou muitos prêmios de direção e desempenho dramatúrgico para alguns membros do elenco.

Filhas do Vento — Brasil, 2005
Direção: Joel Zito Araújo
Roteiro: Di Moretti
Elenco: Beatriz Almeida, Cida Moreno, Danielle Ornellas, Jonas Bloch, Léa Garcia, Maria Ceiça, Milton Gonçalves, Mônica Freitas, Rocco Pitanga, Ruth de Souza, Taís Araújo, Thalma de Freitas, Vitória Viana, Zózimo Bulbul
Duração: 85 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.