Crítica | Filhos do Paraíso

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A segunda metade dos anos 90 foi muito produtiva para o diretor iraniano Majid Majidi. Os três longas de sua lavra inscritos nesse período, O Pai (1995), Filhos do Paraíso (1997) e A Cor do Paraíso (1999) receberam reconhecimento internacional e reeditaram a inserção do cinema do Irã em circuitos mais amplos. O sucesso do filme de 97 é, porém, incomparável, já que ele foi o primeiro da história do país a ser indicado a um Oscar, concorrendo em altíssimo nível na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, acompanhado de obras como Central do Brasil (Walter Salles) e da grande vencedora A Vida é Bela (Roberto Benigni).

Filhos do Paraíso consegue se aproveitar de uma premissa simples para chegar a um efeito estético poderoso. Ali (Amir Farrokh Hashemian) é um garoto de nove anos que perdeu os sapatinhos de Zahra (Bahare Seddiqi), sua irmã mais nova. A ocorrência aparentemente banal acarreta vários problemas: o menino não consegue reencontrar os calçados, enquanto a menina fica impossibilitada de reclamar para os pais, por ter medo de uma eventual reação violenta e porque sabe que eles estão sem dinheiro. A solução encontrada, ao mesmo tempo criativa e precária, é o revesamento dos sapatos de Ali pelas duas crianças, o que estraga ainda mais o já envelhecido calçado e faz com que o irmão mais velho, aluno talentoso, passe a chegar atrasado ao colégio.

Seguindo uma estética de claro viés neorrealista, Majidi constrói um retrato crítico dos gargalos sociais iranianos. As ruas por onde circulam os personagens principais parecem esgotos a céu aberto; configuram-se, ademais, devido à sua pequenez estrangulante, como símbolos da situação de descalabro que assola a população pobre da região. Os efeitos da desigualdade são marcados com insistência no drama pessoal de Ali e Zahra, habitantes de um cubículo alugado por seus pais. Emparedado por demandas da crua vida adulta, Ali não pode sequer dar-se ao luxo de brincar, a não ser em momentos de raríssima exceção.

Tal e qual Ladrões de Bicicleta (1948), paradigma da estética realista italiana, Filhos do Paraíso, ao se estruturar sobre a perda de um objeto-chave que dispara as peripécias do enredo, metaforiza, a partir de uma lógica metonímica, uma situação de carência mais ampla. Mas com muita inteligência, não retrata a penúria de maneira unívoca, deslindando tambéma riqueza de alguns bairros, dentro dos quais o pai de Ali (Mohammed Amir Naji) se sente embaraçadamente oprimido.

A ossatura do filme aproveita muito bem uma organização repetitiva que nunca se torna maçante. Ali corre sem parar, angustiado pela busca de novos sapatos para sua irmã ou impelido pelo impiedoso dever de chegar à escola; Zahra pendula entre a cobrança e a reconciliação com o irmão; os eventos se sucedem segundo um ritmo que justapõe carência, ilusão de supressão da carência e retorno doloroso à realidade. Impressiona o modo como recursos tão enxutos conseguem se permutar de modo a criar um retrato simultaneamente tocante e agudo, terno e profundo.

Os atores mirins, a propósito, cumprem bem o papel de crianças sensíveis. Encarnam personagens capazes de chorar copiosamente e, logo depois, num arroubo de espontaneidade, rir com desprendimento. O trabalho de Amir Hashemian concentra não apenas os meneios infantis, mas uma inacreditável precocidade adulta, exigida pelo papel de futuro homem do lar que deve lidar com as agruras da vida. Fica clara a diferença entre ele e os outros meninos quando, nas cenas finais, participa de uma maratona em busca da terceira colocação e de seu respectivo prêmio, um sapato novo que ele desejava dar para a irmã. Mas, num toque de ironia do roteiro, fica com o primeiro lugar, perdendo o presente para Zahra e quedando desolado.

Filhos do Paraíso não comete o erro de A Cor do Paraíso, isto é, evita os abusos do melodrama. Na obra de 99, o excesso de câmeras lentas e a choradeira frequente atrapalham a economia de um enredo que poderia ser melhor trabalhado. O filme de dois anos antes equilibra denúncia social, sofrimento, alegria e sensibilidade; usa até do slow motion nas cenas da corrida, mas transcende o clichê numa ótima sequência de suspense. Escolhe um final que recusa, com acerto, um clímax redentor- contudo estraga o bom trabalho num epílogo, apresentado nos letreiros, que assevera o futuro sucesso de Ali como maratonista profissional. Deus ex machina típico da realidade brasileira que escamoteia, por sua improbabilidade estatística, o que o filme tinha de agudeza e realismo.

Filhos do Paraíso (Bacheha-Ye aseman)- Irã, 1997
Direção: Majid Majidi
Roteiro: Majid Majidi
Elenco: Mohammed Amir Naji, Amir Farrokh Hashemian, Bahare Seddiqi, Fereshte Sarabandi, Nafise Jafar-Mohammadi, Kamal Mirkarimi, Behzadi Rafi, Dariush Mokhtari
Duração: 89 min.

GUILHERME ALMEIDA . . . Estudante de Letras e apaixonado por literatura e cinema, acho Crime e Castigo o auge da inteligência humana, não consigo assistir Tarkovski sem acender uma vela e me emocionar, e toda vez que vejo Taxi Driver me olho no espelho e lanço um “You talking to me?”. Se por uma desgraça cósmica preciso passar um dia sem contato com a Arte, sofro de profunda abstinência e preciso ser amarrado numa camisa de força. Nesses momentos, não se aproximem.