Crítica | Fim dos Dias (1999)

Engraçado como o Diabo pode causar medo nas pessoas, mesmo naquelas que não acreditam na sua existência ou então sequer compreendem a sua formação mitológica ao longo da história da humanidade. Além dos filmes apontados nas análises, pude ver isso de perto cinco anos depois da paranoia acerca do “final dos tempos”, isto é, em 2005, época da polêmica envolvendo Paul Bentacur, autor de A Máquina de Brincar, livro infantil boicotado por uma corrente de pessoas desinformadas, preocupadas com o caráter diabólico da obra que pedia a seguinte regra: os 25 textos em forma de poemas deveriam ser lidos no escuro e no claro.

Comprado pelo Governo de São Paulo, tendo em vista a distribuição em bibliotecas públicas, o livro foi alvo de críticas, defendidas pelo autor que alegava “ter criado algo diferente para as crianças da época”, reiterando que não via problema algum em “com Deus e o Diabo, o lado bom e o lado mau das coisas”, apontando como fora incompreendido. Ateu convicto, o escritor largou a seguinte afirmação: “busco a beleza das palavras e das imagens, não faço propaganda religiosa”. Deus e o Diabo, em seu ponto de vista, são “ótimos personagens de ficção”, magnéticos enquanto geradores de conflitos no cinema, mesmo que seja para colocar medo nas pessoas, tal como a suposta e infundada propaganda satânica do livro de Bentacur.

Arnold Schwarzenegger tinha opinião semelhante quando topou interpretar Jericho em Fim dos Dias, sob a direção de Peter Hyams, cineasta que também assumiu a direção de fotografia, tendo como guia o roteiro de Andrew W. Marlowe. Juntamente com a equipe que contou com o “infernal” design de produção de Richard Holland, com a efusiva condução musical de John Debney e com a edição veloz e furiosa de Steven Kemper e Jeff Gullo, os realizadores dialogaram, por meio de muitas cenas de ação e horror, com o segmento apocalíptico que ganhou as telas dos cinemas ao redor do mundo, através dos lançamentos de Stigmata, Dominação, O Último Portal, etc.

Alguns seguiram a onda das prévias acerca da virada do milênio, isto é, as imprecisões do enigmático ano de 1999. Outros caminharam pelas incertezas dos anos 2000. Fim dos Dias faz parte do primeiro grupo. Por meio de cenas de ação praticamente incessantes, a produção nos apresenta ao ex-policial Jericho Cane (Schwarzenegger), um homem comum e com passado trágico que se encontra envolto numa série de acontecimentos sobrenaturais. Ao descobrir que o destino da humanidade está em Christine York (Robin Tunney), uma moça perseguida por ninguém menos que o Diabo, interpretado com graça e ironia por Gabriel Byrne.

Jericho Cane precisará recuperar o seu equilíbrio emocional e espiritual, tendo em vista derrotar as poderosas forças do mal ao longo dos 123 minutos de Fim dos Dias, trama que aposta nas incertezas de uma época marcada pelo medo das profecias de Nostradamus, além do bug do milênio. Perseguido não apenas pela Igreja Católica, insatisfeita por conta do uso “indevido” de imagens sagradas pelos realizadores do filme, a produção também foi alvo da crítica de cinema especializada, contrária ao desempenho de Schwarzenegger como um herói trágico, graças ao seu talento limitado para desenvolver um papel de carga dramática forte.

Repleto de tensão e convincentes efeitos especiais, Fim dos Dias é uma produção que não chega a ser prejudicada apenas pela interpretação do ator, intérprete que estávamos acostumados apenas nos filmes que lhe exigiam esforço físico. O roteiro de Andrew W. Marlowe falha ao propor uma teoria pouco sólida sobre o número 666 significar 1999, além da desnecessária “urina” de Satanás ser inflamável e de alguns furos de roteiro que abrem buracos maiores que a saraivada de balas recebida pelo Diabo nas cenas de confronto.

A ausência de diálogos sofisticados, tais como os grandes momentos de Coração Satânico e O Advogado do Diabo tornam Fim dos Dias um filme apenas bom, dentro da sua proposta de filme de ação.  A inserção menos impactante do Diabo não o impediu, no entanto, de continuar sendo um personagem marcante no bojo das produções da indústria cultural, em especial, das realizações cinematográficas e televisivas.

Fim dos Dias — (End of Days) Estados Unidos, 1999.
Direção: Peter Hyams
Roteiro: Andrew W. Marlowe
Elenco:  Arnold Schwarzenegger, C.C. H. Pounder, Derrick O’Connor, Gabriel Byrne, Kevin Pollak, Robin Tunney, Rod Steiger
Duração: 120 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.