Crítica | Fim dos Tempos

estrelas 4

Se A Dama na Água foi o filme incompreendido, Fim dos Tempos foi o filme maldito. Se a história da narf Story gerou motivos de desconfiança, a trama do vento assassino (colocando de uma forma banal) foi motivo de chacotas para cima do indiano. E não havia para onde o cineasta fugir, uma vez que seu contra-ataque em A Dama na Água se tornou motivo mais que suficiente para seus detratores levarem o cinema de Shy ao fundo do poço. Pronto, estava armada a suposta decaída de Shyamalan?

Mas desde então, ou talvez desde muito antes, essa fase nada popular dos projetos do diretor têm sido alvo de debates e discussões sobre quem levou Shyamalan a este estado: o próprio ou o público? Pois, claro, a posição de um nome da indústria muitas vezes, se não sempre, irá depender da resposta do público ao seu trabalho. E aqui, Shyamalan sempre incomodou. Incomodou desde sua reviravolta clássica em O Sexto Sentido, que o alçou ao patamar de “novo Hitchcock”, e assim foi com projetos cada vez mais inusitados como um filme de super-herói, uma história sobre aliens, um estudo sobre a paranoia pós-11 de Setembro e uma fábula baseada numa história de ninar imaginada pelo próprio para suas filhas. Shyamalan andava pelas linhas tortas de um gênero.

E chegando ao ápice de sua má aceitação pelo público e crítica, e já passado anos desde então, Fim dos Tempos pode ser analisado racionalmente e sem a influência exterior de defensores e detratores: no que Shyamalan se tornou, de fato?

Questões como essa, é claro, denotam o típico cineasta que dá o que falar, para o bem ou para o mal. E o filme em si? Bom, Fim dos Tempos não parte de uma premissa quieta, para começar. Mas tentando ser simplista, o longa trata de uma suposta toxina liberada pelas plantas (!) e propagada pelo vento (!!), que altera as coordenações motoras e cerebrais das pessoas e as leva ao suicídio (!!!). Nesse meio, temos Elliot (Mark Wahlberg) e Alma (Zooey Deschanel), um casal em crise no relacionamento que acompanhados do amigo Julian (John Leguizamo) e sua filha Jess (Ashlyn Sanchez) tentam sobreviver ao evento cataclísmico.

Anunciado pelo diretor como um filme B desde seu primeiro momento (algo prontamente ignorado pelos detratores para condenar o filme pelo que ele se recusa em oferecer), Fim dos Tempos se assume, sem ressalvas, como uma auto-paródia de Shyamalan à sua própria formação, novamente retomando seus temas recorrentes como a fé, a crença, a ciência, o medo do desconhecido e, neste meio, um núcleo familiar em decomposição, mas aqui levando-os a um toque de humor que, bizarro, é mais que motivo para o desconforto e, consequentemente, incompreensão de vários. Pois ora, o humor inconsequente em Fim dos Tempos não seria o mesmo que veríamos posteriormente aprimorado em A Visita?

O que pode questionado, claro, é a funcionalidade deste humor. Enquanto que o diálogo do personagem de Wahlberg com uma planta o leva ao estado de vergonha para o público, o que temos nas entrelinhas é uma representação imagética do desespero do ser humano em manter sua sobrevivência diante do medo do desconhecido. Pois Shyamalan também fala sobre isso em Fim dos Tempos: o estado de preservação do ser humano (não curiosamente, algo invertido pela suposta toxina), a ausência de comunicação entre o mundo (reparem em como as informações transmitidas pela televisão são filmadas no mesmo tom de humor proposto pelo filme) e a paranoia diante de um inimigo invisível e intocável (as mil teorias imaginadas pelos personagens sobre terrorismo e a “revolução das plantas”, nenhuma jamais confirmada pelo roteiro).

Com isto, Shyamalan se dá ao direito de brincar com o absurdo, o bizarro, o incerto, o desespero humano pela compreensão do desconhecido. E talvez por estar tão preocupado com a lapidação de sua estranha narrativa, Shyamalan tenha esquecido de estabelecer uma relação mais próxima com seus personagens, aqui descuidados em termos de identificação. As escalações de Wahlberg e Deschanel são acertadas no que lhes é proposto fazer, mas seus conflitos pessoais são inseridos e resolvidos de forma abrupta, inclusive com suas confusões internas simbolizadas de forma rasa através de um anel do humor.

Mas como já dito, as preocupações de Shyamalan são outras, e assim como A Vila, é o clima de Fim dos Tempos o seu grande personagem. Clima este que pode ser sentido desde o primeiro momento em que acompanhamos os suicídios coletivos das pessoas afetadas, onde o diretor mais uma vez comprova seu talento para a composição de cenas nervosas e bem filmadas, chegando ao seu ápice com todo o ato após a aparição da bizarra Sra. Jones (Betty Buckley), que particularmente, rende o melhor momento da fita.

Deixando ao final a dúvida cruel entre os motivos do acontecimento apocalíptico (explicações cientificas racionais ou apenas um ato da natureza que jamais compreenderemos completamente?), Fim dos Tempos é mais uma experiência rica em sensações e reações de Shyamalan, fora dos padrões em excesso para ainda ser bem aceita, mas que certamente possui muito o que oferecer. A tal decaída de Shyamalan ainda não se faria aqui.

Fim dos Tempos (The Happening) — EUA/ Índia, 2008
Direção:
 M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo, Ashlyn Sanchez, Betty Buckley,  Spencer Breslin
Duração: 91 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.