Crítica | Final de Semana

estrelas 4

Bem, você sabe como é quando você dorme com alguém desconhecido pela primeira vez. […] Você se torna uma tela branca, e então se apresenta a oportunidade de você projetar nessa tela branca quem você quer ser. Isso é interessante porque todo mundo faz isso. […] O que acontece é que enquanto você projeta quem você quer ser… uma lacuna se abre entre esse ser e aquele que você realmente é. E nessa lacuna aparece o que impede você ser quem você quer ser.

Glen

Fim de Semana já está rolando pelas bocas como “o possível melhor filme gay de 2012”, e por aí vai perdendo a sua verdadeira importância. A mania do rótulo tem sido grande inimiga dos filmes fora do ambiente “Pipoca, Coca-Cola & Michael Bay” (lembrando que isso também é um rótulo, porém, muito consumido e popular), mania de espectadores e críticos de adequarem um filme a um grupo específico, gerando, a partir daí, um nicho de consumo e interesses. Os rótulos artísticos podem até funcionar na maioria de suas aplicações, mas deixa passar muitas “exceções à regra” e particularidades, como é o caso de Fim de Semana, segundo filme de Andrew Haigh. Bem longe de se enquadrar num termo reducionista, o longa se apresenta como um reflexo dos relacionamentos, vida e amores dos jovens adultos em nosso século.

O longa acompanha a relação de sexo, conversas e drogas em um final de semana de Russell e Glen. De personalidades muito diferentes, os rapazes se conhecem por acaso, em um bar, e o tempo que passarão juntos consistirá o início de algo que o filme não se atreve a mostrar: o despertar para um novo momento na vida ambos. Russel é salva-vidas e romântico, Glen é artista e devasso. Na manhã seguinte ao se conhecerem, Glen pede para gravar um depoimento de Russel: “como foi a noite que passamos juntos?”. Essa gravação voltará em outro momento do filme e em outro formato, como representação de uma memória sexual e sentimental de dois jovens que não conseguem reter muita coisa em suas vidas por muito tempo, e por isso mesmo precisam de um registro, uma memória externa a si mesmos, impessoal e fria, como um bote salva-vidas esperando o naufrágio de mais um relacionamento fracassado, uma traição ou o abandono de alguém.

O precioso roteiro de Andrew Haigh propõe e consegue erguer e problematizar uma história que aborda o sexo casual num contexto em que cabem a paixão, diversos questionamentos sobre a vida e várias formas de pensar o tema da existência em relação ao outro – ou o velho impasse do convívio. Foi por isso que citei o perigoso rótulo de “filme gay” ao início do texto, uma vez que, mesmo que tenhamos uma história sobre dois homens, o que está sendo abordado transpõe a barreira do gênero, do rótulo, da orientação sexual e adentra ao campo dos temas universais: é possível se apaixonar em pouco tempo? Por que somos condicionados a seguir uma cartilha de “modelo correto de vida”? É possível ser feliz sozinho? Nossos amigos nos limitam? Que tipo de pessoa somos a cada vez que conhecemos alguém? A lista de perguntas não acaba, e penso que com elas o leitor tenha entendido a minha posição de que Final de Semana não é “apenas um filme gay”, mas um filme-flerte, de conteúdo e impacto fortes, legítimo e realista sobre a era do fast-love. Embora muitas questões ali trabalhadas sejam inovadoras para o Queer Cinema e mais cabíveis ao “mundo gay”, elas estão espalhadas em qualquer outro “mundo” onde duas pessoas diferentes se conhecem, se gostam e tentam con-viver. Para elevar ainda mais esse tom de “amor líquido” baumaniano, o título do longa é decisivo em relação ao conteúdo abordado e em relação ao tempo da história.

O Ciclo

O leitor deve se lembrar daquele filme de Matheus Souza chamado Apenas o Fim (2009), onde uma garota resolve terminar com o namorado e fugir para um lugar desconhecido. Pois bem, a mesma urgência de acontecimentos da história de Tom e Adriana acontece com o final de semana de Russell e Glen, e é com a mesma perspicácia que vemos a edição Andrew Haigh tornar esse curto espaço de tempo em algo muitíssimo dinâmico, sem atropelar histórias ou deixar uma ponta solta no enredo. Tanto a construção do roteiro é perfeita em focar na personalidade dos garotos e sua relação problemática, relutante e arisca com o mundo em torno, quanto a edição é inteligente em articular no tempo certo cada um dos espaços dramáticos que a história atravessa. O filme possui um dos melhores ritmos já vistos em um roteiro com tão poucas ramificações narrativas.

A direção cuidadosa de Andrew Haigh mentém evidente o tom de afastamento das personagens, e paradoxalmente cria uma estreita proximidade com o espectador. Não vemos uma estrutura familiar se formar, como em De Repente, Califórnia (2007), nem temos um afastamento sentimental como no curta-metragem brasileiro Café com Leite (2007). Embora haja o sentimento surgido quase que milagrosamente de uma pseudo-relação sem estrutura nenhuma para isso, Fim de Semana não é um filme sentimental, e este é um outro grande mérito do diretor e roteirista. O foco está mais na falta, na solidão e no medo do que no sentimento. É claro que temos duas visões diferentes sobre isso no próprio filme, mas o tom geral da obra atende mais ao vazio que à saturação. Esse tom de estiagem é sustentado pela planificação limpa do diretor e pela sensível direção de arte, numa composição tão mesclada de ambientes, que as personalidades poderiam ser lidas apenas por eles, caso não houvesse um soberbo roteiro como sustentação.

A fotografia da polonesa Urszula Pontikos caracteriza-se pelo amplo uso dos ambientes abertos e bem iluminados, uma excelente escolha que gira entre o absoluto do branco fosco e brilhante (encarnando a ausência ou a soma das coisas no próprio filme); e uso de lentes abertas, de modo deixar as personagens um pouco diminutas, quase perdidas no meio de ambientes urbanos tão grandes. A caracterização é finalizada pelo excelente trabalho dos atores Tom Cullen e Chris New, numa ótima relação em cena e admiráveis criações dramáticas. Tom Cullen é o destaque, dando vida e emoção ao romântico Russell. A sequência em que ele, mesmo bêbado e drogado, discute com Glen sobre a felicidade e o amor é um dos momentos mais incríveis do filme.

Bem longe do bairrismo do “filme gay” comum, Final de Semana se firma como um novo fôlego na abordagem das relações homoafetivas e na rapidez funcional com que tratamos as pessoas. É como se o diretor chamasse a atenção para um mundo aonde tudo é objeto de uso (sexual, comercial, fetichista, exibicionista), e propusesse uma pausa para olharmos uma possível janela que se abre. E como se não bastasse a genialidade do roteiro, percebemos que no meio desse complexo residencial escuro, no início de uma noite qualquer, uma janela aberta sob forte luz amarela denuncia a presença de vida e de esperança. Mesmo que o conto de fadas não aconteça, algum conto há de acontecer, e o mérito disso não está no fato de a esperança indicar um final feliz, mas na coragem de expor que um final de semana é o início de um ciclo com portas abertas para a felicidade ou para a tristeza. Quem nunca depositou esperanças e fantasiou após um encontro casual não vai entender. No entanto, fica a pergunta: existe alguém que nunca tenha feito isso?

Final de Semana (Weekend) – UK, 2011
Direção: Andrew Haigh
Roteiro:  Andrew Haigh
Elenco: Tom Cullen, Chris New, Jonathan Race, Laura Freeman, Johnny Wright, Loretto Murray, Sarah Churm, Vauxhall Jermaine, Larry Joe Doherty, Kieran Hardcastle
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.