Crítica | Final Space – 1ª Temporada

Quando o segundo episódio de Final Space acabou, apressadamente bati o martelo: seria, muito claramente, apenas mais uma série animada “moderninha” com um protagonista insuportavelmente falastrão e que usa referências pop como bengala narrativa. Como não sou de desistir tão facilmente, até porque eram apenas mais oito episódios e todos de pouco mais de 20 minutos, insisti e, para minha completa surpresa (e, mais do que isso, alegria), meu veredito precipitado estava absolutamente errado. Ou quase, já que sim, Final Space é repleta de referências sci-fi, especialmente a 2001 – Uma Odisseia no Espaço, obra-prima pela qual seu criador, Olan Rogers, obviamente tem uma sadia reverência, e sim, Gary Goodspeed (voz de Rogers), o protagonista, é um chato que não para de falar, mas, na medida em que os episódios progridem, a narrativa começa a realmente ficar interessante, com o bom uso dos clichês estruturais de sci-fis de referência costurados de maneira harmônica em um conjunto próprio e consistente.

Criado por Rogers originalmente como uma web-série, com o primeiro episódio “upado” para o canal pessoal dele no YouTube no já longínquo ano de 2010, seu projeto sofreu diversas modificações ao longo dos anos até que ele foi comprado pelo canal TBS, que começou a transmiti-lo em seu aplicativo e site e, depois, na televisão. Conceitualmente, ele é efetivamente a costura de tudo o que o leitor pode imaginar de referências sci-fi com pegada adulta e uma premissa inusitada: o protagonista é um prisioneiro em seus últimos dias de cinco anos de encarceramento solitário em uma nave comandada pela inteligência artificial H.U.E. (voz de Tom Kenny, conhecido por “ser” o Bob Esponja, fazendo um delicioso pastiche de HAL 9000) que acaba criando laços com uma fofíssima, mas super-poderosa, criatura verde que ele batiza carinhosamente de Mooncake (também voz de Rogers), por sua vez cobiçada pelo vilão Lorde Comandante (David Tennant, o 10º Doutor, absolutamente perfeito nessa hilária versão nanica do Imperador Palpatine). Como artifício narrativo, cada episódio dos 10 da 1ª temporada (a 2ª, com 13, já foi encomendada) começa com alguns segundos mostrando Gary “perdido no espaço“, com apenas 10 minutos de oxigênio e, claro, de vida, conversando com H.U.E. em uma espécie de prólogo que funciona como contagem regressiva.

A ação, quando ela realmente engata – o que aconteceu comigo somente após o fatídico segundo episódio – é frenética e variada, com Gary lidando constantemente com o severo H.U.E., odiando o robô faz-tudo (ou, melhor dizendo,”faz-nada”) chamado KVN (Fred Armisen), sonhando com e mandando mensagens diárias para o amor de sua vida, Quinn Arigone (Tika Sumpter), que ele conheceu por alguns segundos e fazendo uma hesitante amizade com o alienígena felino Avogato (Coty Galloway) que, inicialmente, o caça e, depois, passa a aliar-se ao astronauta-prisioneiro para salvar seu filho Gatito (Steven Yeun, o Glenn de The Walking Dead). Só essas situações já são suficientes para manter o espectador desperto e ansiando por mais a cada novo episódio, mas os roteiros ainda conseguem trabalhar uma curiosa e surpreendentemente complexa e fluida história por trás que gira em torno do tal “espaço final” do título, misturando um sem-número de conceitos sci-fi clássicos com os passados dos personagens e até mitologia grega . E o melhor é que, em meio a tudo isso, a chatice crônica de Gary acaba diluída e mais aceitável, ainda que, volta e meia, pensamentos do tipo “como seria bom se ele morresse logo” passassem flutuando em minha mente.

Como fica evidente desde os primeiros minutos, o tipo de abordagem cômica tende ao besteirol e certamente apelará mais para o público juvenil, com muita repetição das mesmas piadas, mesmos trejeitos e mesmas situações, tendo Gary constantemente como centro das atenções. Mas, como mencionei, na medida em que a trama avança e finca mais profundamente seus pés no sci-fi de boa estirpe com abordagens até arranhando na filosofia, abre-se espaço para variações temáticas e, com isso, o protagonista deixa o histrionismo e “emudece” um pouco, o que mostra a consciência de Rogers e do showrunner David Sachs (trazido pela TBS em razão da inexperiência do criador da série), de um lado, em estabelecer um arco crível de crescimento e desenvolvimento para Gary e, de outro, brevemente permitir que os demais personagens – até mesmo KVN – ganhem construções próprias.

A animação combina designs eficientes e simples, com computação gráfica não exagerada e, portanto, não intrusiva, e o uso de sobreposição sobre imagens reais do espaço a partir de fotografias e filmagens da NASA, mas sem que o espectador consiga perceber onde uma coisa acaba e outra começa. Não é algo espetacular – e nem esperava por isso -, mas que cumpre sua função dentro da premissa da série, sem chamar atenção demais para si mesma. É, talvez, o equilíbrio que atualmente exista entre forma e função, considerando que aquela impressão de pasteurização da animação permanece firme e forte do começo ao fim, algo não necessariamente ruim, mas também sem merecer maiores comendas.

A 1ª temporada de Final Space acaba com um final escancaradamente aberto (desnecessariamente, diria), mas a jornada até lá, entre caçadas a referências mil e reviravoltas na trama, sem dúvida diverte e prende a atenção. É como injetar sci-fi de efeito imediato e fugaz na veia para uma descompromissada viagem que começa bem lugar-comum, mas termina – ou não, considerando o cliffhanger – prazerosamente.

Final Space – 1ª Temporada (EUA, 15 de fevereiro a 30 de abril de 2018 // Distribuição Internacional pelo Netflix: 20 de junho de 2018)
Criação: Olan Rogers
Showrunner: David Sacks
Direção: Mike Roberts, Dan O’Connor, Ben Bjelajac, Chris Paluszek
Roteiro: Olan Rogers, David Sacks, Jane Becker, Alyssa Lane, Alex Sherman, Adam Stein, Christopher Amick, Ben Mekler, Cameron Squires
Elenco: Olan Rogers, Fred Armisen, Tom Kenny, David Tennant, Tika Sumpter, Steven Yeun, Coty Galloway, Caleb McLaughlin, Ron Perlman, John DiMaggio, Gina Torres, Shannon Purser, Keith David, Andy Richter, Conan O’Brien, Tobias Conan Trost, Xzibit
Produtora: TBS
Duração: 210 min. (10 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.