Crítica | First They Killed My Father

Difícil pensar em outro nome para levar à frente uma história de caráter e apelo tão humanista como o de First They Killed My Father do que Angelina Jolie. Baseado nas memórias de uma das sobreviventes do período em que os rebeldes comunistas invadiram o Camboja quanto esta tinha apenas cinco anos, o longa distribuído pela Netflix denota a todo momento ser um projeto extremamente pessoal da atriz e diretora, que não apenas já havia filmado um de seus maiores sucessos do passado no Camboja, o infame Lara Croft: Tomb Raider, como também adotou por lá um de seus filhos, Maddox Jolie-Pitt, que não por acaso, também é produtor da película. Assim, de boas intenções o filme de Jolie está cheio, e estas são louváveis, mas mesmo após algumas investidas como o desastroso Invencível e o introspectivo À Beira Mar, Jolie parece não ter amadurecido nada como contadora de histórias.

O foco do roteiro de Jolie escrito ao lado de Loung Ung, autora do livro First They Killed My Father: A Daughter of Cambodia Remembers na qual a obra se baseia, é deveras corajoso, não há como negar, especialmente pela opção narrativa em detalhar momentos de fome, escravidão e trabalho infantil forçado através dos olhos de uma menina de cinco anos, o que certamente ressalta a crueldade daquele regime, além de valorizar um processo de “amadurecimento” através de uma ótica feminina, ou mais especificamente, de uma menina que se vê obrigada a aprender como se cuidar e sobreviver naquele ambiente.

É irônico notar que, apesar das peças muito bem posicionadas neste tabuleiro, é no próprio “jogo” de Jolie que o filme encontra seus percalços. É decepcionante que, diante de uma narrativa propositalmente lenta que valoriza a falta de energia e o abatimento daqueles rostos diante de tantos maus tratos, Jolie insista em um grande número de diálogos expositivos e que quebram nossa confiança para o poder das imagens que, apesar de já dizerem tudo, são sabotadas pelas palavras didáticas que saem da boca dos personagens, ressaltando o óbvio a todo momento (mas é de se admirar, porém, a opção em se manter no idioma original do Camboja). Tais diálogos que quebram a força da expressão corporal de seu elenco também acusam o maniqueísmo com que Jolie elabora suas situações, revelando aí um trabalho de visão burocrática e simplista que, se funciona como ponto de acusação, revela um ponto de visão frágil e sem muito equilíbrio enquanto objeto cinematográfico.

Prova disso é que o filme dedica mais tempo que o necessário para a rotina da garota e sua família no campo de trabalho forçado, uma vez que já havíamos compreendido perfeitamente a desumanidade daquele espaço. O acontecimento sugerido pelo título original demora a chegar, e até lá, somos engolidos por uma sucessão de cenas que parecem se repetir demais, e quanto tentam evitar esse cansaço narrativo, investem em sequências de sonhos e delírios que somente ressaltam a burocracia do conjunto.

Há, é claro, cenas grandiosas que acontecem em meio as sequências de maior intensidade, como aquela no tiroteio em meio a floresta onde a garota precisa atravessar um campo minado. Mas Jolie exagera na vibe “sem meias palavras”, apesar de bem intencionadas, levam seu projeto ativista a um overacting, que dilui quase toda a força que seu retrato daquela realidade sangrenta poderia ter.

First They Killed My Father — Camboja/ EUA, 2017
Direção: Angelina Jolie
Roteiro: Loung Ung, Angelina Jolie (baseado no livro de Loung Ung)
Elenco: Sareum Srey Moch, Phoeung Kompheak, Sveng Socheata, Mun Kimhak, Heng Dara, Khoun Sothea,  Sarun Nika
Duração: 136 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.