Crítica | Flaked – 1ª Temporada

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estrelas 2,5

Flaked é mais uma produção da febril Netflix, que não para de criar conteúdo próprio desde que abriu essa sensacional caixa de Pandora com Lilyhammer em 2012. E é a terceira com Will Arnett, que estrelou o revival de Arrested Development e deu voz ao protagonista cavalo (no sentido literal e figurado) de Bojack Horseman. Agora, o ator não só protagoniza sua série com mais do que sua voz, como é o produtor executivo e também o co-roteirista.

Apesar de parecer despretensiosa e, por ter Arnett no protagonismo, dar impressão que é uma comédia, Flaked está bem longe dessas classificações. Na verdade, a série foge tanto de um rótulo que chega a faltar um pouco de identidade a ela, especialmente quando notamos que Chip (Arnett), dono de uma terrivelmente largada e vazia loja de design de “banquinhos” (daqueles de bar), é um personagem desagradável ao extremo, daqueles que temos que nos esforçar para gostar apenas um pouco. Ainda que seu Bojack Horseman também seja difícil de engolir, o Chip de Arnett é pior, pois sua postura irresponsável fica tão à tona que ele afasta no lugar de atrair o espectador mesmo que seja só por curiosidade.

Muito provavelmente, porém, foi esse o objetivo. Chip parece reunir nele tudo de negativo. Alcoólatra que se engana e também a seu único amigo (Dennis, vivido por David Sullivan) com reuniões do A.A. enquanto continua bebendo escondido e mulherengo que não titubeia em ignorar a namorada mais nova em momentos importantes e em traí-la, além de jamais dar valor a amizade com Dennis, o protagonista é uma espécie de tornado que destrói tudo por onde passa sem nem realmente perceber o que está fazendo. Sua atitude blasé em relação a tudo e a todos é daquelas que dá vontade de socar a TV, de enforcar o sujeito se o encontramos no meio da rua. E, nesse sentido, Will Arnett acaba triunfando. Seu personagem é como se fosse uma fusão mais realista de Gob Bluth e Bojack Horseman, no final das contas.

Sua loja vazia e desarrumada em Venice Beach, na Califórnia, local tradicional, mas que passa por momento de especulação imobiliária e mudanças é, claro, o reflexo de sua vida em uma metáfora enfiada goela abaixo do espectador, assim como a presença de alguns coadjuvantes, como Christopher Mintz-Plasse como um nerd milionário que se interessa pelo “não fazer nada” de Chip e de Kirstie Alley (sim, aquela Kirstie Alley de Olha Quem Está Falando) como a mãe carente de Dennis que adora Chip, que só refletem partes de sua persona. O que resulta daí é uma espécie de espiral auto-destrutiva que, porém, não mostra evolução do personagem. Ele começa e acaba praticamente da mesma forma, com a mesma atitude em relação à vida. Ainda que os curtos oito episódios da série não permitam que o espectador enjoe do material, faltou, aqui, cuidado maior do roteiro para trabalhar seu protagonista e para dar um propósito maior à série que não seja uma sucessão de situações trágicas com pitadas leves de comicidade duvidosa que acaba não levando propriamente a lugar algum.

Sim, há uma narrativa maior perpassando todos os episódios e que lida com um momento do passado de Chip que é mencionado repetidas vezes: bêbado, ele atropelou e matou uma pessoa há alguns anos. Todo o seu infortúnio é visto e tratado como consequência desse trauma, mas fica evidente que a tragédia era a proverbial (e, no caso, literal) morte anunciada e que os problemas de Chip são, na verdade, bem mais profundos e complexos. Mas a história acaba não enveredando de verdade por esse caminho com a devida problematização da situação, mesmo quando London (a bela Ruth Kearney), uma garçonete, entra na vida dele indiretamente como o “objeto de desejo” de Dennis, o que acaba formando um estranho triângulo amoroso. O papel de Kearney é maior do que o mero terceiro vértice do triângulo, mas a personagem acaba também sofrendo com o pouco desenvolvimento temático da temporada.

No entanto, apesar dos pesares, o lado humano de Flaked traz elementos interessantes, ainda que espalhados e diluídos ao longo da narrativa. A pegada quase neo-realista da direção, da fotografia sem firulas e dos cenários filmados em locação ajuda a emprestar veracidade às atuações que são, apesar de tudo, boas a partir do momento em que o espectador conseguir aceitar o quão desagradável é – e precisa ser – Chip e, por tabela, todos ao seu redor. A curta duração dos episódios ajuda ao mesmo tempo a tornar a temporada mais fácil de assistir em quase uma sentada só e a evitar que os personagens sejam desenvolvidos a contento. De certa forma, é uma troca aceitável e que acaba gerando curiosidade por uma eventual segunda temporada, mesmo considerando os problemas detectados aqui.

Flaked – 1ª Temporada (Idem, EUA – 11 de março de 2016)
Criação: Will Arnett, Mitch Hurwitz
Direção: Wally Pfister, Josh Gordon, Will Speck, Tom DiCillo
Roteiro: Will Arnett, Mark Chappell
Elenco: Will Arnett, Ruth Kearney, David Sullivan, Lina Esco, George Basil, Christopher Mintz-Plasse, Mike Cochrane, Jeff Daniel Phillips, Kirstie Alley, Heather Graham, Seana Kofoed, Annika Marks, Robert Wisdom
Duração: 240 min. (aprox.) – 8 episódios

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.