Crítica | Flaked – 2ª Temporada

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estrelas 3,5
– Há spoilers. Leiam, aqui, a crítica da 1ª temporada.

A segunda temporada de Flaked acertou o passo errático da série e construiu alguns belos momentos em cima do mentiroso contumaz Chip (Will Arnett) e a revelação de que, afinal, não fora ele quem atropelou o irmão de London, mas sim sua ex-esposa e que ele apenas havia assumido a culpa para evitar que a carreira dela fosse por água abaixo. Mas será que só foi isso mesmo?

O grande acerto da temporada é saber justamente trabalhar essa situação, evitando o que seria o caminho mais fácil para Chip: uma mudança completa e para melhor em sua vida. Ainda que o vejamos junto com London vivendo na casa de amigos dela meses depois de ele ter trabalhado em prol do odiado hotel em Venice Beach, a grande verdade é que o relacionamento dos dois se segura unicamente em cima de uma mentira. Chip usa o atropelamento e morte em seu passado como uma forma de angariar simpatia para sua escolha de vida, basicamente na base de sua preguiça e falta de coragem em encarar o mundo como ele é, conseguindo favores e amores com isso.

E essa patologia de Chip – ou, talvez melhor classificando, canalhice mesmo – ganha contornos mais profundos aqui, o que logo de início merece comenda. Os roteiros não perdoam o personagem e, muito ao contrário, deixam ainda mais evidente que ele não tem jeito. Cabe ao espectador, então, tentar extrair algum lado bom nisso tudo, algum fiapo de simpatia em direção ao protagonista. E a grande verdade é que, muito provavelmente, não encontrará nada.

A coragem da segunda temporada está justamente aí. Chip é um ser humano deplorável, que nos faz odiá-lo não da maneira como odiamos vilões carismáticos do cinema e da TV, mas sim com desprezo verdadeiro, o que mostra o quão eficiente é o trabalho de Will Arnett em sua versão humana e bem menos glamourosa de Bojack Horseman. E, ainda que os demais personagens sejam mais apreciáveis, se pararmos realmente para pensar, eles só trazem à tona sentimentos positivos do espectador pois é natural que os comparemos a Chip. Assim, Dennis (David Sullivan), o alcoólatra que resolve abrir uma pop up store de vinhos (!!!) ganha nossa simpatia, quase pena por ser sempre manipulado por Chip. London (Ruth Kearney) cria um rapport justamente por ser a namorada constantemente traída de Chip e Cooler (George Basil) é o maluco beleza que parece a versão benigna de Chip.

Só que, se olharmos mais friamente, notaremos que todos são tão problemáticos e perturbados quanto Chip. Seu atos podem até não ser tão graves quanto os do protagonita, mas eles representam, diria, o rebotalho do ser humano, gente que vive a vida de forma egoísta, sugando tudo de todos ao redor sem dar nada em troca, como ervas daninhas. Flaked já tinha essa pegada na temporada anterior, mas ela foi acertadamente intensificada na segunda e, ao longo de seus oito episódios, ela parece chegar a um fim circular que não exigiria mais outra temporada. Se houver, há perigo do fator “repetição temática” atrapalhar a narrativa, mesmo levando em conta sua brevidade.

A adição de Lenora Crichlow como Rosa, filha do policial George (Robert Wisdom), é a exceção que confirma a regra acima sobre os personagens. Não só foi uma ótima escalação, como sua relação com Dennis funciona como um alívio cômico trágico à narrativa do personagem, de certa forma espelhando a relação de Chip com London. Basta comparar com a outra adição relevante à temporada: o professor de ioga/auto-ajuda charlatão Karel (Shawn Hatosy), que compete com Chip nas categorias “aproveitador de mulheres” e “personagem mais odiável da série”.

Flaked é uma série que trabalha com uma simplicidade temperada com um pegada de “fatia de vida” (ou slice of life, como classificam os americanos) quase fabulesca, mas fabulesca no estilo original dos Irmãos Grimm, com personagens difíceis de simpatizar do começo ao fim e não algo açucarado como algo vindo da Disney. E, tendo achado sua voz, a série saiu da mediocridade e chegou ao ponto de amadurecimento. Não é fácil de assisti-la – acho que nos acostumamos com a necessidade de identificação com os personagens e assumir que alguém se identificou com Chip é corajoso! -, mas é uma boa pedida para quem não tiver expectativas lá no alto.

Flaked – 2ª Temporada (Idem, EUA – 02 de junho de 2017)
Criação: Will Arnett, Mitch Hurwitz
Direção: Michael Patrick Jann, Mark Chappell, Will Arnett, Ben Berman
Roteiro: Will Arnett, Mark Chappell, Maggie Rowe, Bobby Bowman, Jim Vallely, Evan Mann, Gareth Reynolds
Elenco: Will Arnett, Ruth Kearney, David Sullivan, George Basil, Heather Graham, Elisabeth Röhm, Shawn Hatosy, Lenora Crichlow, Mark Boone Junior, Robert Wisdom
Duração: 180 min. aprox. (8 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.