Crítica | Flash Gordon (1980)

estrelas 3

Sem dúvida alguma, a característica mais marcante da primeira versão cinematográfica de Flash Gordon é a inusitada – e sensacional – trilha sonora composta por ninguém menos do que o Queen, super-grupo britânico então no auge de sua fama e que lançara, no mesmo ano, o álbum The Game. Mas Flash Gordon é ao mesmo tempo mais e menos do que sua trilha sonora, sendo um dos raros exemplos de filmes que, se forem revistos pelos adultos que o assistiram pela primeira vez quando crianças, consegue sobreviver à mais inclemente crítica.

Claro que a trilha sonora é responsável por grande parte do apelo nostálgico da fita e por sua, digamos, importância histórica, mas sua gênese desavergonhadamente camp – ou brega, para falar português claro –  é de um charme irresistível, mesmo que saibamos que as atuações são tenebrosas, que os efeitos especiais são ruins mesmo para a época em que foram feitos e que o roteiro mais parece uma colcha de retalhos. Mas é que essa releitura do personagem criado por Alex Raymond, em 1934, na verdade, não é uma releitura e sim uma clara e direta homenagem aos quadrinhos do autor e, também, aos famosos serials dos anos 30, especialmente o primeiro, Flash Gordon no Planeta Mongo.

O famoso produtor italiano Dino de Laurentiis era, nas décadas anteriores ao lançamento, detentor dos direitos de adaptação do personagem e ele queria Federico Fellini na direção, que efetivamente chegou a entabular conversas com o produtor e a exercer o direito de opção de dirigir o filme. Mas o projeto não seguiu adiante (uma pena, pois seria interessantíssimo ver a pegada de Fellini sobre um material tão diferente das obras dele). George Lucas – sim, ele mesmo – tentou adquirir os direitos de De Laurentiis na década de 70, mas não conseguiu, decidindo então partir para seu “pequeno” projeto próprio, Star Wars (imaginem, caros fãs, se Lucas tivesse conseguido os direitos, talvez Star Wars não existisse!). O próximo da lista foi o britânico Nicolas Roeg (diretor dos excelentes A Longa Caminhada e Inverno de Sangue em Veneza), fã de Alex Raymond e que reescreveu o roteiro, o que gerou rusgas entre ele e De Laurentiis e que culminou em sua saída. Em seguida, o produtor procurou Sergio Leone , mas ele não aceitou, pois surpreendentemente considerou  o roteiro pouco fiel à criação de Alex Raymond (mais um diretor que eu pagaria para ver dirigindo ficção científica). Sem saída, De Laurentiis acabou contratando Mike Hodges, do clássico Carter – O Vingador e que vinha de uma ficção científica razoável – O Homem Terminal – seis anos anos antes e que dirigira parte de Damien: A Profecia II, em 1978, até ser defenestrado pela produção.

O roteiro ficou ao encargo de Lorenzo Semple Jr., que escrevera os ótimos Papillon (1973) e Três Dias do Condor (1975), além do tenebroso remake de King Kong, em 1976. A diretiva de De Laurentiis era clara: ele queria humor, que o filme se parecesse com o material fonte. O problema é que, para o produtor, “parecer com quadrinhos” efetivamente significava ser engraçado, algo que Flash Gordon nunca foi, mas o roteirista, bebendo diretamente da fonte, fez o que pode dentro desse estranho conceito, criando uma história de origem e primeira aventura de Flash Gordon no planeta Mongo exatamente como Alex Raymond desenhara e escrevera quase 50 anos antes. O resultado, como disse, pode causar arrepios em muitos hoje em dia pela mais pura “ruindade” de tudo que é visto na tela, mas o mero fato de a película ser uma espécie de serial dos anos 30 em plenos anos 80 (a década dos filmes inesquecíveis de ação, não é verdade?) já merece aplausos. E o espectador que simplesmente esnobar o filme como uma porcaria qualquer não terá capturado a essência do que se tentou fazer.

Como todo mundo que não mora em uma caverna sabe muito bem, Flash Gordon conta a história do herói do título (Sam J. Jones), um jogador de futebol americano que, junto com a repórter Dale Arden (Melody Andeson), é “sequestrado” pelo amalucado Dr. Hans Zarkov (Chaim Topol). A Terra está sendo afetada pela proximidade do planeta Mongo e o desacreditado doutor quer usar seu foguete para investigar o que está acontecendo. Chegando ao planeta, os três são logo levados à majestosa presença do Imperador Ming, o Impiedoso (Max von Sydow) que logo se interessa por Dale e pelo intelecto do Dr. Zarkov. Flash, por sua vez, é alvo da lascívia da Princesa Aura (Ornella Muti), que o ajuda a escapar depois da inesquecível sequência em que o herói usa “ovos” cerimoniais para derrubar o exército de Ming em uma espécie de jogo de futebol americano letal. A partir dali, o roteiro é como uma corrida de obstáculos em que Flash conhece o Príncipe Barin (Timothy Dalton), pretendente à mão de Aura e o avantajado e alado Príncipe Vultan, que se tornariam seus aliados para derrubar o Imperador.

É, em poucas palavras, diversão do começo ao fim. Uma diversão boba (estúpida até), extremamente colorida e mal-atuada (nem Max von Sydow consegue escapar da mais completa caricatura) e com figurinos que cosplayers fazem muito melhor sem qualquer esforço.  Faz-se necessário entrar no espírito da obra e se deixar levar pela magnética e excitante trilha do Queen (sei que você está cantando mentalmente “Flash – a-ah!!!”…) e pela canastrice loira de Sam J. Jones e pela beleza brega de Melody Andeson e Ornella Mutti em suas roupas de odaliscas e maquiagem de circo. Nada funciona de verdade, mas tudo estranhamente se encaixa na proposta de Semple Jr. e na direção burocrática de Hodges, o que acabou contribuindo para a imortalidade da produção ao ponto de ela ser referenciada em diversas outras mídias e de receber gigantesca e hilária homenagem em Ted, de 2012, homenagem essa que deixou muita gente mais nova sem entender patavinas, mas curiosa para descobrir quem raios era aquele ator decadente e que “Jet Ski” voador dos infernos ele pilotava…

Flash Gordon é um daqueles estranhos exemplares cinematográficos inexplicáveis, que simplesmente tem que ser visto (com o espírito certo) para ser devidamente compreendido. Ajuda, claro, se o espectador tiver lido as tiras originais de Raymond ou ao menos assistido a algum serial dos anos 30. Ou simplesmente gostar do Queen

Flash Gordon (Idem, EUA/Reino Unido – 1980)
Direção: Mike Hodges
Roteiro: Lorenzo Semple Jr., Michael Allin (baseado em personagens criados por Alex Raymond)
Elenco: Sam J. Jones, Melody Anderson, Max von Sydow, Chaim Topol, Ornella Muti, Timothy Dalton, Brian Blessed, Peter Wyngarde, Mariangela Melato, John Osborne, Richardo O’Brien
Duração: 111 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.