Crítica | Fleming: The Man Who Would Be Bond

estrelas 2– Fleming. Ian Fleming.

Fiquei esperando por essa forma de apresentação em algum momento dessa minissérie da BBC em quatro episódios sobre a vida do criador de James Bond, o agente 007, e autor de 21 obras, entre romances e contos, com o personagem. Mas ela não veio.

Mas foi a única coisa relacionada ao universo “bondiano” que não veio. Afinal de contas, a BBC fez das tripas coração não para contar a vida de Ian Fleming, mas sim para transformar Ian Fleming em James Bond ou para provar que Bond nada mais é do que Fleming com licença para matar. E é por isso que a minissérie não funciona. Sim, não há dúvida que qualquer espectador esperaria ver piscadelas para a obra de Fleming, mas não 180 minutos de uma obra que poderia muito bem ser uma versão, digamos, simplificada de uma trama com o próprio James Bond.

O próprio Fleming sempre foi claro ao estabelecer que tudo que escreve é, de alguma forma, calcado em suas experiências e a BBC faz questão de deixar isso claro no início de cada episódio, mas daí a absolutamente tudo na vida de Fleming ser ligado ao espião do MI-6 fica um pouco ridículo e exige de nós uma suspensão exagerada da descrença. A escalação de Dominic Cooper (o segundo Howard Stark do Universo Cinematográfico Marvel) também não ajuda, pois ele tenta parecer James Bond, não Fleming e acaba resultando em um caricatura que nos retira da seriedade da narrativa completamente, com olhares 43, posturas exageradas e regurgitação de frases feitas como se fossem barras de ouro.

O roteiro trabalha uma narrativa episódica que não permite que a história flua naturalmente de um capítulo para o outro e retira qualquer brilho que a carreira de Fleming pudesse ter (antes de ser autor) ao caracterizá-lo como um playboy mulherengo que tem Complexo de Édipo e inveja do irmão autor e herói de guerra (Peter Fleming, vivido por Rupert Evans). Sem dúvida, os fãs da franquia 007 ficarão felizes ao verem em Monday (Anna Chancellor) a futura Moneypenny, no almirante John Godfrey (Samuel West) o futuro M e mais um monte de referências aos famosos gadgets de Bond. E os admiradores de boa televisão também perceberão o costumeiro cuidado da BBC com sua direção de arte e reconstrução de época que, para televisão, é bem acima da média de seus concorrentes.

Mas uma minissérie precisa de vida, de um roteiro que prenda a atenção e que nos traga realmente algo que não sabemos ou esperamos sobre seus personagens, especialmente se eles são baseados em pessoas reais. Precisamos nos engajar na narrativa, sentir um mínimo de tensão e perigo (considerando-se, claro, a natureza da história) e não rir com as forçadas situações de ação em que Fleming se envolve ao longo da projeção. E pouco importa se essas situações aconteceram e, em caso positivo, se foram exatamente assim. A questão é que Fleming: The Man Who Would Be Bond não é um documentário, mas sim uma obra de ficção baseada na vida de um famoso autor. E, como tal, a transposição de eventuais ações de Fleming para as telinhas soa falsa e dirigida com mão pesada.

O resultado final, assim, pouco acrescenta ao que normalmente já se sabe sobre Ian Fleming e fica parecendo como uma tentativa mal executada de se fazer uma aventura de 007 sem usar o personagem. Fleming pode até ter sido um James Bond em sua época, mas James Bond consegue ser muito mais interessante que o original, mesmo em suas mais fracas aventuras.

Fleming: The Man Who Would Be Bond (Idem, Reino Unido – 2014)
Direção: Mat Whitecross
Roteiro: John Brownlow, Don MacPherson
Elenco: Dominic Cooper, Lara Pulver, Samuel West, Rupert Evans, Anna Chancellor, Lesley Manville, Pip Torrens, Annabelle Wallis, Camilla Rutherford
Duração: 180 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.