Crítica | Flor da Neve e o Leque Secreto

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Posted 24 de abril de 2012 by in Críticas
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Nota
 
 
 
 
 

3/ 5

Título Original: Snow Flower and the Secret Fan
 
Ano de Produção: 2011
 
País de Produção: China, EUA
 
Direção: Wayne Wang
 
Roteiro: Angela Workman, Lisa See, Michael Ray, Ronald Bass
 
Elenco: Bingbing Li, Gianna Jun, Russell Wong, Vivian Wu, Wu Jiang, Zhong Lü, Hu Qing Yu, Hugh Jackman
 
Duração: 104min.
 
Subcategoria: ,
 

Quando o amor supera a tradição

by Gabriel Neves
Full Article

É com tanta veemência que o cinema contemporâneo cospe histórias de amor platônico e idealizado na figura de romances adolescentes ou comédias amorosas, quase que esquecemos que existe uma ligação forte em outros ramos da grande paixão de um ser humano por outro. Somos expostos de forma tão frequente a situações do amor sexual ou da paixão matrimonial eterna que não lembramos – exceto em poucas obras ainda existentes – de ligações fraternais, do amor existente entre si mesmo e outras pessoas sem exigir a entrega completa. É um amor puro. Obviamente que é muito mais interessante explorar as histórias familiares conturbadas, gerando grandes roteiros e várias explicações para o conflito entre os personagens. Mas vamos nos lembrar dessas ligações por um instante, do amor entre um pai e um filho, de uma mãe e uma filha, de uma avó e um neto, de um tio e um primo. E, por favor, lembremos do amor que não provém da família, mas da amizade. É desse amor, dessa completa ligação que Flor de Neve e o Lírio Secreto ganha força em seus vários defeitos e perdas apresentadas em cena e consegue completar sua metamorfose num filme que poderia ser muito melhor, mas possui sua beleza individual.

Dias atuais, estamos na China. Conhecemos então Nina (Bingbing Li), uma empresária bem sucedida e trabalhadora, que acaba de receber uma promoção e está indo para Nova York assumir seu cargo. Na festa logo após a anúncio, Nina se diverte com seus amigos, bebendo e conversando normalmente. Graças à música alta, ela não consegue ouvir seu celular tocando, as chamadas desesperadas de sua melhor amiga Sophia (Gianna Jun). Essa menina, por não conseguir falar com a amiga, decide voltar pra casa com sua bicicleta e no caminho é atropelada por um táxi. Quando Nina ouve da notícia, ela corre até o hospital para ver a amiga desacordada. Desde então, somos visitados entre memórias do passado das duas amigas, do presente de Nina e de uma história ocorrida em 1829, com a antepassada de Sophia. Nessa história, vemos a ligação especial entre a tataravó da menina atropelada, Flor de Neve (Gianna Jun), e sua melhor amiga, Lírio (Bingbing Li). O filme nos mostra que a amizade das mulheres são ligadas por laços laotong, um voto de amizade eterna. Interessante ver a ambientação das duas épocas feitas pelas mesmas atrizes, cada personagem envolta na mesma preocupação, cada mulher do passado igual a uma mulher do presente. O que não é interessante é aguentar as atuações por muito tempo.

Flor de Neve e o Lírio Secreto é um filme de altos e baixos. Os altos são belíssimos, mas os baixos conseguem deprimir o espectador. As atuações comprovam isso. O elenco é guiado por Bingbing Li e Gianna Jun, ambas com interpretações medianas. Não compreendi o que acontecia em tela, já que em alguns momentos elas nos brindavam com uma atuação de encher os olhos, mas em outros as atrizes nos entregavam diálogos e emoções sofríveis. Atribuo essa falha, pessoalmente, à língua inglesa. Dá pra ver que há muito mais sintonia quando o mandarim é usado, e o inglês serve apenas para o entendimento do público direcionado do filme. Das outras atuações, não há mais nenhum destaque, nem mesmo do único nome conhecido no elenco que é Hugh Jackman. O roteiro poderia ser transformado em alguma animação dos estúdios Walt Disney, pois é raso e exalta demais a utopia dos seres humanos. Flor da Neve é uma história feita para ser bela e difundida com uma visão diferente da do ocidente. Esse é um dos pontos altos. A visão oriental de amizade, tradição, honra, casamento e alguns costumes nos são apresentados. Não são aprofundados, mas já desperta o mínimo de curiosidade no espectador que desconhece o que lhe é mostrado na tela. O outro ponto alto do roteiro de Angela Workman, Ronald Bass, Michael Ray e Lisa See é a junção das duas narrativas do filme, por mais que a edição e a direção não tenham ajudado nesta parte. Quando uma parte conseguia se ressaltar no passado, o filme passava bruscamente para a visão futura. E houve um aprofundamento intenso na narrativa presente, enquanto o lado passado se mostrou apressado.

Wayne Wang mostra como foi fortemente influenciado pelos Estados Unidos em sua direção. O chinês, que também já dirigiu Em Qualquer Outro Lugar e As Férias da Minha Vida, tem uma direção extremamente cuspida e infantil neste seu longa-metragem, dando argumentos suficientes e os repetindo para que qualquer público entenda a mensagem. Seja através de falas, seja através de imagens, percebemos desde o início o desespero pela moral da amizade. Por outro lado, compensando as falhas da direção, temos a direção de arte que é de uma beleza única. A fotografia exalta bem as cores e transforma a atmosfera do filme em algo vivo em todas as cenas, fazendo nossos olhos brilharem para qualquer aspecto visual, para qualquer vermelho berrante, para qualquer amarelo dourado. A maquiagem e o figurino, ressaltando o passado, são primorosos. A trilha sonora de Rachel Portman, a mesma dos recente Não Me Abandone Jamais e Um Dia, é pacata e imperceptível. Consegue aumentar alguns momentos de tensão, mas em outros serve apenas para transformar a atmosfera em algo ainda mais piegas e emocional. Esse, na verdade, é Flor da Neve e o Leque Secreto. Tem pontos altos, tem mais pontos baixos. Tem um roteiro descartável e fácil. Tem algumas cenas bonitas, mas nada que faça um ingresso valer tanto a pena. Não é um filme ruim, no final das contas. É um filme sobre mulheres que querem ser amadas, e são pelo valor de uma amizade. Nem preciso dizer que o filme tem um final feliz. Pena que ele só consiga permanecer vivo nas telas.



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About the Author

Gabriel Neves

Amante da arte antes de qualquer coisa, principalmente da sétima. 18 anos, estudante de Audiovisual, um ator e um crítico que se achou no cinema há pouco tempo, entre as sessões de A Troca e Bastardos Inglórios.

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