Crítica | Florbela

estrelas 2

A importância de Florbela Espanca para a poesia portuguesa e para a (posterior) discussão do papel da mulher em Portugal em pleno início do século XX é bem maior do que normalmente se conhece. Poetisa de vida curta, plena e sofrida, Florbela Espanca teve sua imagem refigurada pelo tipo de ideologia política que tomaria fortemente Portugal após 1932, com a ascensão de António Oliveira Salazar ao poder. Suas fraquezas pessoais foram aumentadas e alguns comportamentos reinterpretados para mostrar à população lusitana que tipo de mulher as portuguesas salazaristas não deveriam ser.

E é justamente nessa encruzilhada histórico-biográfica que o filme de Vicente Alves do Ó empaca. O diretor e roteirista, que já tinha sido responsável por uma minissérie televisiva sobre a poetisa, Perdidamente Florbela (2012), faz um recorte que não sabe ao certo qual caminho seguir. Talvez por ter tido uma experiência melhor e completa na TV, o diretor creditou que uma crônica de um momento qualquer da vida de Florbela Espanca daria um bom filme. Mas ele não se perguntou qual momento serie este e como iria retratá-lo para o público. Primeiro passo, primeiro erro.

Existem filmes que se constroem de maneira completamente livre, sem precisar dar informações sólidas para o espectador sobre o que de fato está acontecendo na tela. Obras de caráter vanguardista e filmes alineares de cineastas que gostam de experimentos cinematográficos se enquadram nesse padrão. Mas em cinema existem coisas que não podem fugir daquilo que o gênero em questão exige. E cinebiografias de caráter histórico não são obras que se podem dar o luxo de trabalhar com fatos soltos, recortes que exigem do espectador um bom conhecimento prévio ou um radar para saber exatamente qual é o momento da vida do biografado que se vê na tela. No caso de Florbela, — à exceção dos momentos da infância — não há indicação alguma, estética ou narrativa, de onde e quando estamos na timeline da escritora.

E então então voltamos novamente à encruzilhada histórica. É evidente que o filme se passa em meses distintos (talvez no período de um ano, provavelmente de final de 1926 a final de 1927), mas por não haver nenhuma colocação nos diálogos, na tela ou no cenário de que fase estamos falando, ficamos confusos. Numa cena, ainda no início do filme, um garotinho vendendo jornal cita a Guerra na China, certamente a Guerra Civil Chinesa, iniciada em 1927. As cenas e os momentos vão brotando na tela sem aviso ou contexto algum! Mesmo para quem é familiarizado com o tema, fica evidente que este não é o modo correto de se encadear e desencadear fatos em um filme.

Por fim, e talvez o item mais complicado: o teor dramático, o conteúdo, a essência da obra. Perguntamos: exatamente o quê Vicente Alves do Ó quis nos mostrar com seu filme? A obra compreende um período de bloqueio criativo da poetisa, mas isso não é um convite para que ele a pinte como alguém completamente desinteressante. Há formas e formas de se trabalhar um bloqueio criativo! Talvez venha desse enorme buraco conceitual a falha do diretor em contextualizar outro ponto importante, a possível relação incestuosa entre Florbela e o irmão Apeles Espanca. Apesar de estar pautado na sugestão visual, o enredo pende mais para um efetivo incesto, em elipse, o que é praticamente a afirmação central dos detratores salazaristas sobre Florbela. E veja, não contesto o fato e nem o afirmo. Minha questão aqui é apenas dizer que o [possível] incesto foi alardeado em Portugal até a era do Sr. Marcelo Caetano como forma de denegrir a imagem da poetisa e não apenas como um tabu na vida de uma escritora portuguesa. Já que Vicente Alves do Ó se mostra tão livre de pensamento, não seria interessante que ele trabalhasse de verdade essa questão? Ou ao menos não a direcionasse para nos fazer acreditar que sim, havia um incesto, embora não o vejamos na tela?

Florbela é uma falha tentativa de mostrar uma fase difícil na vida da poetisa portuguesa Florbela Espanca. O filme possui bons figurinos e atuações de medianas a boas; ótima maquiagem e boa trilha sonora (embora usada de forma inadvertida), mas se perde em seu foco central. Para trazer a vida de alguém às telas, no mínimo, é necessário um contexto, um drama que ultrapasse perturbações pessoais e crises matrimoniais ou familiares de pequena amplitude dramática — e digo isso em relação ao alcance desses atos fora do pequeno elenco central do filme.

Sem aposta no processo criativo da poetisa e sem um caminho certo a seguir, Florbela poderia ser dois ou três capítulos da série televisiva da qual veio, mas não se sustenta como filme porque simplesmente não tem certeza sobre o que quer mostrar. Como também não sabe mostrar o que quer. Pelo menos nessa indecisão desalentada a obra traz alguma coisa de Florbela Espanca, porém, há muito mais nessa mulher do que desespero, lágrimas, depressão e neuroses. Mas o filme não nos mostra isso.

Florbela (Portugal, 2012)
Direção: Vicente Alves do Ó
Roteiro: Vicente Alves do Ó
Elenco: Dalila Carmo, Ivo Canelas, Albano Jerónimo, José Neves, António Fonseca, Carmen Santos, Maria Ana Filipe, Beatriz Leonardo, Marques D’Arede, Anabela Teixeira, Rita Loureiro
Duração: 119 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.