Crítica | Florence – Quem é Essa Mulher?

Florence

estrelas 4,5

O que leva uma mulher a distribuir convites exclusivos para determinadas pessoas, no intuito de evitar os críticos culturais detonando os seus espetáculos? Reza a lenda que Florence Jenkins, personagem da cinebiografia em questão, dirigida por Stephen Frears, com base no roteiro de Nicholas Martins, tinha esta prática. Apaixonada por música, Florence passou longo período da sua vida envolvida com este mundo de fascinação, mesmo que a crítica e uma parte da sociedade não tivessem interesse em ovacioná-la.

Neste comovente e bem humorado drama, Florence Jenkins (Meryl Streep) é uma mulher muito rica, dona de uma herança exorbitante, apaixonada por música, conhecida por perseguir constantemente a carreira de cantora de ópera. Diferente de musas contemporâneas que desejam cantar ou ser artista da performance, sem o mínimo de talento/vocação, mas por ter o desejo e a fama como massageadores de seus respectivos egos, Florence queria apenas cantar, dar conta de uma das suas paixões.

Do seu ponto de vista, a sua voz é magnífica, mas para os que estão próximos, o seu canto é um tormento musical, uma ofensa ao mundo da música. Será o paciente esposo, o ator Snt. Clair (Hugh Grant), um homem que esbanja elegância, o responsável por protegê-la de todas as formas da realidade, principalmente das críticas profissionais que massacram o desenvolvimento artístico de Florence.

As coisas começam a ficar mais complexas quando o surgimento de um concerto público, num dos palcos mais prestigiados do mundo, põe estes cuidados em riscos, pois Florence pode ser exposta de uma maneira bastante perigosa em termos midiáticos. Interessa na perfeição do processo, ela contrata Cosmé McMoon, interpretado de forma hilária e eficiente pelo excepcional Simon Helberg. Apesar de todo o carisma do personagem de Grant, 80% de toda a comoção em torno do filme depende bastante da relação de Florence com o personagem de Helberg.

No geral Florence – Que Mulher é Essa? é um filme otimista, impregnado do charme dos anos 1940, uma cinebiografia que retrata a trajetória de uma mulher quase anônima e nos permite refletir sobre o que se convencionou a chamar de “talento”, bem como os limites do julgamento artístico, leia-se, a crítica, se é que existe limites dentro deste campo intelectual.

O roteiro é eficiente ao construir, através da ridicularização e do constrangimento, uma heroína típica do cinema hollywoodiano, com personagens coadjuvantes gravitacionais que atravessam os caminhos do bem e do mal. O triângulo amoroso, o grave problema de saúde da personagem central e os seus dilemas internos (privados) e externos (públicos) são as bases do desenvolvimento narrativo, numa iniciativa bem sucedida do cineasta Stephen Frears pelo campo do humor.

Ao deixar de lado o clima nebuloso de filmes como A Rainha e Philomena, as suas cinebiografias anteriores, Frears investe no humor com altas doses de elegância. Para compor o equilíbrio das suas imagens, o cineasta contou com o figurino de Consolata Boyle e a magistral execução musical da trilha sonora de Alexandre Desplat.

O espaço cênico também colabora. O filme foi rodado entre Londres e Liverpool. A cena que nos remete ao famoso Carnegie Hall, mas rodada no Hammersmith Apollo, com 300 figurantes, é digna de deslumbramento do espectador. Iluminação, enquadramentos e desempenhos dramáticos unidos em prol da emoção diante de um momento importante para a personagem. Florence não buscava fama e prestígio, mas apenas alimentar a sua paixão por música, por isso, subir neste palco e se apresentar era algo que representava o seu sonho enquanto ser humano, um desejo irrefreável de passar os seus dias no meio de algo que lhe dava prazer: a música.

Apesar de pouco conhecida, Florence Jenkins, a “soprano que destruía as notas de Mozart” é um mito do século XX, admirado por ícones da música, tais como David Bowie e Cole Porter, ganhadora de três investimentos audiovisuais para a sua biografia, apenas em 2016. Além desta versão bem humorada, temos ainda Marguerite, do francês Xavier Giannoli e o documentário alemão ainda inédito por aqui.

Florence – Que é Essa Mulher? (Florence) – Reino Unido/2016
Direção: Stephen Frears
Roteiro: Nicholas Martin
Elenco: Meryl Streep, Hugh Grant, James Sobol Kelly, John Kavanagh, Jorge Leon Martinez, Josh O’Connor, Liza Ross, Marie Borg, Mark Arnold, Martin Bratanov, Martyn Mayger, Neve Gachev, Nina Arianda, Paola Dionisotti, Phelim Kelly, Philip Gascoyne, Philip Rosch, Rebecca Ferguson, Rosy Benjamin, Sid Phoenix, Simon Helberg, Solomon Taiwo Justified, Stephanie Lane, Tony Paul West
Duração: 110 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.