Crítica | Flores do Oriente
Denúncia de atrocidades em novo filme de Zhang Yimou.
As Guerras Sino-Japonesas são eventos normalmente pouco difundidos no Ocidente. Todos lembramos – ou ouvimos falar – que os japoneses atacaram Pearl Harbor, mas poucos de nós sequer sabemos que eles estavam intermitentemente em guerra com a China desde 1894. Os conflitos bélicos acabaram sendo engolidos pela Segunda Guerra Mundial e somente cessaram com a rendição do Japão em 1945.
No entanto, como qualquer guerra, o amargor da destruição e morte ainda é presente entre as duas nações, talvez especialmente na China, onde foram travadas as batalhas até a entrada dos aliados na equação, em 1941. Um dos mais conhecidos – e terríveis – eventos da Segunda Guerra Sino-Japonesa foi a invasão de Nanquim, então capital da China, em 1937. Tamanha foi a brutalidade do ataque que ele acabou sendo conhecido como o Estupro de Nanquim. E o termo “estupro” não foi usado apenas como uma metáfora para a destruição da cidade e do exército chinês mas sim em seu sentido literal já que, conta a história, milhares de mulheres sofreram as mais inimagináveis violências por parte dos soldados japoneses.
Flores do Oriente, baseado no livro 13 Flowers of Nanjing da autora sino-americana Geling Yan, conta uma história ficcional inspirada nesses fatos históricos, passada no fim da tomada de Nanquim. Logo na abertura, vemos o agente funerário americano John Miller (Christian Bale) tentando chegar à Catedral de Winchester, para cuidar do funeral do padre lá residente. Chegando ao local, ele não encontra o corpo para enterrar nem o dinheiro para receber e acaba forçado a encarnar o papel do religioso para tentar salvar 13 meninas que estudavam no convento, além de uma espécie de filho adotivo do falecido, George (Tianyuan Huong) e 14 prostitutas que correram para esse território neutro.
Zhang Yimou, talvez o mais celebrado diretor chinês da atualidade, está à frente desse filme e ele parece estar muito à vontade, apesar da temática pesada, e ao mesmo tempo, politicamente delicada. Conhecido por obras-primas como Sorgo Vermelho, Lanternas Vermelhas e A Árvore do Amor, além de outros filmes de época como Herói, O Clã das Adagas Voadoras, Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Macarrão, o diretor tem o total domínio da arte e nos apresenta cenas arrebatadoras.
Por exemplo, o cuidado com a cena inicial, em que acompanhamos, paralelamente, a fuga das meninas e também de John Miller, pelas ruas destroçadas da cidade, é impecável. A desolação é palpável e, juntamente com os personagens, estamos perdidos no meio da fumaça e dos escombros. Balas voam para todos os lados e a morte está à espreita.
Quando todos – ou quase – chegam à Catedral, segue-se uma das melhores cenas do filme, lindamente coreografada. O último soldado do exército chinês guarda o local com sua vida e faz de tudo para evitar que a enlouquecida tropa invasora estupre as garotas. O combate é impressionante, com a paleta de cores muda contrastando com explosões multi-coloridas como fogos de artifício, em razão das roupas dos civis. Sim, há muita câmera lenta e Yimou faz de tudo para valorizar o visual. No entanto, o resultado é recompensador.
Mas, a partir do segundo terço do filme, o diretor, galgado no roteiro de Heng Liu, começa a exagerar no melodrama. Todos os personagens passam a revelar suas tristes histórias pregressas, começando pela mais bela das prostitutas, Yu Mo (a curvilínea Ni Ni), passando pela menina principal, Shujuan (Zhang Xinyi), também por George, e, finalmente, John Miller. É uma espécie de festa de clichês com cada um querendo sobressair-se mais que o outro, o que acaba retirando a verossimilhança da trama.
Não é correto dizer que Yimou seguiu o caminho lacrimoso de Spielberg em Cavalo de Guerra mas certamente pareceu que estava tentando. A diferença é que os personagens em Flores do Oriente são mais interessantes do que os do filme live action mais recente do diretor americano. A comparação mais justa seria, ainda usando o mesmo diretor, com o Spielberg de A Lista de Schindler. Aliás, em muitos momentos, as duas estórias tangenciam-se.
No entanto, diz-se por aí que um dos maiores pecados de Flores do Oriente talvez tenha sido a armadilha em que Zhang Yimou caiu, ao usar como protagonista um ocidental (no livro, o personagem principal também é um ocidental: o padre verdadeiro da catedral). De fato, diante de um conflito eminentemente oriental, a inclusão de John Miller na trama como o bêbado que se transforma em herói da noite para o dia parece forçada, e em última análise, desnecessária. Poderia até mesmo ser visto como uma ofensa aos verdadeiros heróis da guerra.
Zhan Yimou, porém, soube lidar com isso e, ainda que realmente a presença de John Miller pareça alienígena no começo, ela acaba sendo justificada dentro do próprio roteiro pois aprendemos que os japoneses não querem conflitos com os ocidentais e o mero rosto de Miller funciona quase como um salvo conduto no meio do inferno. E é fácil acreditar nessa “desculpa” pois o Estupro de Nanquim resultou na aniquilação de 200 mil chineses. O americano no meio disso tudo realmente poderia funcionar como um fio condutor para a salvação. Mas, claro, lá no fundo, aquela situação clichê do “americano herói salvando o dia” incomoda qualquer um.
O episódio do Estupro de Nanquim poderia servir de pano de fundo para diversos filmes pois há material ali para grandes obras-primas. O esforço de Zhang Yimou, apesar de bem-intencionado e bem dirigido, acaba se perdendo no arrastado terço final mas, mesmo assim, é uma obra digna que, pelo simples fato de denunciar as atrocidades, já mereceria ser vista. Não prejudica o fato que o estilo do diretor é fantástico e muito agradável, ainda que esse filme não esteja entre suas obras-primas.












