Crítica | Fogo Contra Fogo (1995)

estrelas 5,0

Certas pessoas parecem ter nascido predestinadas a realizar algo em sua vida. Seja um hobby, emprego ou mero talento, alguns indivíduos simplesmente não conseguem viver sem determinada ocupação. No entanto, às vezes, esse sentimento pode ser tão forte que consome tudo a nossa volta, impedindo-nos de dedicar a devida atenção à outras áreas, como um relacionamento, por exemplo. Fogo Contra Fogo apresenta-nos justamente a dois homens, interpretados pelas lendas Al Pacino e Robert De Niro, que são absorvidos totalmente pelas funções que exercem, sobrando migalhas para os que estão ao seu redor, como disse a esposa de Vincent durante filme.

O longa mostra logo no início um assalto no qual são roubados US$ 1,6 milhão de títulos ao portador e três policiais são mortos no assalto. Assim, um detetive da Divisão de Roubo e Homicídio (Al Pacino) assume o caso. Apesar de contar com poucas pistas, de estar lidando com o profissional Neil (Robert De Niro) e sua quadrilha e de ter problemas em sua vida pessoal, ele tenta impedir que esta quadrilha continue operando.

A fotografia utilizada por Michael Mann, com uma paleta de cores baseada no preto e azul, apresenta-nos ao universo obscuro e solitário dos protagonistas, uma vez que, mesmo estando em lados opostos da lei, ambos convivem diariamente com o crime, um executando e o outro impedindo. Aliás, a ótima edição do filme intercala as ações dos dois personagens justamente para destacar o quão semelhantes suas vidas são: um fracasso nos relacionamentos, sem nenhuma família para apoiar, mas implacáveis em suas profissões. Portanto, o roteiro, também escrito por Mann, foge do clichê mocinho e bandido presente em filmes de assalto, pelo contrário, ele desenvolve Vincent e Neil com a mesma atenção, fazendo com que o público se importe com ambos e elevando a trama para além da investigação e ingressando em uma esfera mais intimista da história.

Suas semelhanças resultam até em uma admiração mútua, como pode ser visto no maravilhoso diálogo que ocorre no café, um dos poucos entre eles dentro do filme mas extremamente bem construído e significativo para a trama. Quando os dois conversam, suas semelhanças ficam mais expostas ainda, a ponto de pedirem conselhos, como se eles tivessem consciência que apenas o homem a sua frente entenderia sua situação. Em determinado momento, Vincent pergunta “você nunca quis ter uma vida normal?” e ouve como resposta de Neil que a monotonia do mundo jamais se igualará a emoção que passam, algo que somente eles entendem dentro daquele universo, igualando-os ainda mais. Apesar do respeito que desenvolvem, os dois deixam claro como não exitarão em matar o outro caso seja necessário, ressaltando como suas profissões sempre estarão sempre a frente da empatia por alguém e qualquer tentativa para alcançar isso, como os casamentos do detetive, por exemplo, acaba sendo frustrada.

Portanto, Mann não poderia ter escolhido uma dupla de atores melhor do que Pacino e De Niro, uma dupla que por si só já faz o filme valer. Al Pacino consegue transmitir perfeitamente a dedicação de seu personagem pelo trabalho, a persistência excessiva em desvendar seus casos, utilizando até mesmo métodos controversos, no entanto, a mesma força não é vista tendo que lidar com problemas em casa. Já De Niro não está abaixo e constrói com precisão em Neil um ser solitário, calculista e incomodado com a situação atual de sua vida.

Além dos dois protagonistas, o filme também dá um tratamento especial aos coadjuvantes, principalmente Chris, interpretado de forma competente por Val Kilmer, apresentando suas famílias e mostrando seu lado humano, dando um peso ainda maior à história, uma vez que, caso ocorra a morte de algum personagem, ela será mais sentida pelo público.

Se não bastasse a bela trama, Michael Mann ainda nos presenteia com uma de suas grandes direções na carreira, abusando de planos gerais e planos de ambientação, combinados com a fotografia sombria, para criar uma Los Angeles magnética e repleta de obscuridade, como se corrompesse cada um de seus personagens. Além disso, a direção de arte é precisa em destacar a solidão de Neil, através de sua casa vazia e sem móveis; enquanto o misancene, colocando Vincent e Justine em lados opostos do quadro, estabelece os problemas conjugais deles.

Somente pelo aguardado encontro entre Al Pacino e Robert De Niro (que estiveram juntos em O Poderoso Chefão Parte 2, mas não contracenaram), o filme já valeria a pena. No entanto, a interação entre os dois atores é apenas um detalhe frente ao grande filme que Michael Mann nos entrega em Fogo Contra Fogo, um poderoso estudo de personagem sobre dois homens que, consumidos totalmente por seus trabalhos, acabam influenciando tudo a sua volta.

Fogo Contra Fogo (Heat) – EUA, 1995
Direção: Michael Mann
Roteiro: Michael Mann
Elenco: Al Pacino, Robert De Niro, Val Kilmer, Jon Voight, Tom Sizemore, Diane Venora, Ashley Judd, Amy Brenneman, Mykelti Williamson, Wes Studi, Ted Levine, Dennis Haysbert, William Fichtner, Tom Noonan, Hank Azaria, Kevin Gage, Danny Trejo, Natalie Portman
Duração: 170 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.