Crítica | Fogo no Mar

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estrelas 2,5

Lampedusa integra o arquipélago das Ilhas Pelágicas, no Mar Mediterrâneo, parte da região da Sicília, pertencente à Itália. Pala localização estratégica, diante de sua proximidade com a Líbia e a Tunísia, a ilha se tornou um ancoradouro para refugiados. Desde o início dos anos 2000, o número de pessoas que fogem de nações do Oriente Médio e países ou regiões africanas em guerra civil (e nas mãos de facções) tem aumentado grandiosamente na ilha, o que forçou as autoridades locais a aprimorarem a vigilância dos portos e território marítimo. Também foram instaladas centrais hospitalares, escritórios de integração cultural e outras organizações que têm por objetivo facilitar a recepção dessas pessoas na ilha.

Gianfranco Rosi, diretor de documentários elogiáveis como Boatman (1993) e El Sicario, Room 164 (2010) assina este Fogo no Mar (2016), onde filma o cotidiano de Lampedusa considerando a nova onda migratória na região. O diretor deixa o lado turístico da ilha (uma de suas bases econômicas, além da pesca e da agricultura) e olha para o mar, para a chegada de pessoas subnutridas e desnutridas; para homens e mulheres desidratados, obrigados a beber a própria urina durante a viagem; para jovens com queimaduras causadas pelo combustível do porão das embarcações; para as dezenas de mortos ao longo da viagem.

O tema é pesado, o tratamento é o mais cru possível — mas não entregue ao apelo emocional — e a relevância da abordagem é histórica, faz parte do momento de massas de refugiados que a Europa passou a receber progressivamente após 2003. O problema do documentário acaba sendo o caminho utilizado pelo diretor para dar conta dessa realidade social. Se chegamos ao filme sabendo mais ou menos do que se trata (e imagino a dificuldade dos desavisados para estabelecerem um foco, durante a projeção), esperamos uma melhor base para que o tema seja assentado. Mas isso nunca acontece.

Existem diversas escolas de documentário na história do cinema, assim como diferentes formas de diretores para registrarem o real. O modelo que mais exige do cineasta é o que Rosi fez uso aqui em Fogo no Mar, ou seja, a exposição direta dos fatos, contando apenas com o recorte interno para guiar o olhar do público. É a partir da observação do supérfluo, do silêncio, do comum e também dos temas centrais que precisam ser documentados que o espectador deve criar a sua opinião e formar seu entendimento. Ocorre que não é todo diretor que consegue guiar o olhar do público para as “coisas certas” (lembrem-se que o recorte interno é dele!), e principalmente, não é todo editor de documentários nessa linha que consegue sustentar de maneira fluída mais de uma hora de objetivas visuais e temáticas como as que temos aqui. [o pior desses casos que presenciei até hoje foi em A Árvore dos Morangosde 2011].

Ao escolher alternar (por um motivo que em nenhum momento fica claro) a vida do simpático garoto Samuele e outros habitantes de Lampedusa à miserável condição dos refugiados, Rosi cria a dúvida: por quê esse contraste? Como já disse, o filme é honesto na exposição, então sem o fator emotivo e gratuito e sem nenhum tipo de contato dos nativos com os recém-chegados (à exceção de um “pobres-coitados!” que uma das habitantes deixa escapar), qual a necessidade da via dupla? Sem narrativa e sem intromissões para a interpretação do enredo, sobra para o público a pior coisa que um cineasta pode deixar: o caminho livre para se pensar qualquer coisa sem que haja nenhum por quê pensar assim. Se isso já é ruim em ficção, imaginem em um documentário!

Se a intenção do diretor era realmente nos fazer refletir sobre condições internas e externas, sobre diferentes culturas (mas não há base para ir por este caminho, estou apenas forçando uma interpretação, já que o filme praticamente implora por isso) e sobre diferentes necessidades humanas, que ele ou que o editor Jacopo Quadri fossem coerentes com a mensagem-muda e fizessem melhor aquilo que o diretor já estava fazendo ao ESCOLHER O QUÊ o público veria: desse um corte melhor à obra. Longas cenas de pesca de esponjas e anchovas, brincadeiras de criança, funcionamento da rádio local, preparação do jantar e caminhadas silenciosas não dizem nada se a direção e a edição não as fazem, de fato, dizer.

Fogo no Mar tem tomadas muito bonitas da ilha de Lampedusa e cenas com descrições dos horrores pelos quais os refugiados passaram, e isso toca profundamente o público. Lamenta-se que para um documentário com financiamento grande e muitos recursos disponíveis, a direção tenha escolhido a narrativa solta, mostrando duas realidades que nem se completam nem se anulam, apenas se avolumam no filme e dificultam a nossa chegada em algum lugar. Ao menos o bloco sobre as viagens dos refugiados acrescentam algo à nossa lista de horrores sociais. E os blocos com Samuele, ao menos os que o vemos falar e ouvir, ganha nossa atenção pela simpatia do garoto. Ao cabo, a sensação que temos é que vimos dois filmes e que gostamos mais ou menos deles. Haja paciência!

Fogo no Mar (Fuocoammare) — Itália, França, 2016
Direção: Gianfranco Rosi
Roteiro: Gianfranco Rosi
Elenco: Samuele Pucillo, Pietro Bartolo, Giuseppe Fragapane, Maria Signorello, Samuele Caruana, Francesco Paterna, Maria Costa, Francesco Mannino, Mattias Cucina
Duração: 114 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.