Crítica | Foi Apenas um Sonho
Será que há algo pior do que ver um sonho ser destruído? Um sonho que tinha tantas chances para se realizar, nesse caso a pior coisa é a distância. Quanto mais distante do sonho se está, menos se sofre com sua derrota. Mas quando a realização está apenas a dois passos e, do nada, ela some, o sofrimento é ainda maior. A não concretização da idealização, quando esse ideal se mostra mais do que possível, é uma dor infernal. Em matéria de desejos e vontades, o melhor é a união de dois sonhos iguais, já que ambas as partes procuram ardentemente uma realização. Mas e quando os sonhos são iguais, mas um deles insiste para si mesmo de que ele é impossível? A negação dos instintos e o ato de vontade duelam em cena em Foi Apenas um Sonho.
O longa-metragem narra a história dos Wheelers. April Wheeler (Kate Winslet) é uma atriz fracassada. Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) é um homem frustrado com seu trabalho. Ambos se conhecem numa festa e acabam se casando e tendo filhos. Alguns anos depois, eles vivem a vida americana padrão – mas ambos estão intimamente desgastados com a vida, fingindo o tempo inteiro a maravilha que é a união de ambos. Depois de brigas de casal, Frank e April acabam tendo a ideia de se mudarem para Paris, o que aceitam de primeira mão. Mas algumas complicações começam a arriscar a viagem dos dois, e consequentemente, a relação existente entre ambos.
O filme, aos poucos, começa a trabalhar com metáforas existentes no padrão de vida da América. Uma dona de casa feliz, um marido que volta do trabalho alegre, mas ambos exaustos por dentro. O medo da sociedade de se achar um problema na vida da família é mais alto do que a própria felicidade. Em certo momento Helen Givings, a vizinha interpretada por Kathy Bates, traz uma flor para o casa do casal Wheeler, já que o jardim da família era vazio. Os Wheelers não cultivavam o que queriam, apenas o que queriam que eles quisessem. Tanto April quanto Frank são duas pessoas vazias na mesmice e no comodismo em que se encontram. A diferença é a vontade de potência, é o quanto eles lutam para atingir seu objetivo após a paixão passageira de ambos ter se tornado apenas numa convivência qualquer. O amor dos Wheeler se transformou num bom dia, num sorriso, num choro abafado pelo fingimento de estar tudo bem. Tudo estava bem, mas poderia estar infinitamente melhor. O plano de fuga dos dois pode parecer bastante ingênuo para o espectador e bastante diferente para os padrões da época. Como uma mulher trabalha sustentando um marido ocioso na década de 50? E como o casal tem tanta convicção de que a felicidade deles se encontra em outro lugar? Aos poucos o filme mostra uma faceta diferente: os Wheelers não podem mais buscar felicidade, já que essa se esgotou para eles com a instituição matrimonial. Com duas personalidades tão iguais mas vontades diferentes, a alegria do casal virou uma melancolia.
A principal diferença se dá nos personagens. Frank é infeliz e isso fica claro após sua discussão no filme, logo no começo e dando a entender de que aquela não era a primeira divergência de opiniões do par. Se é assim, como ambos podem permanecer como o casal alto-astral, os jovens e divertidos Wheelers para a vizinhança? Frank é infeliz em seu casamento, é infeliz em seu trabalho, mas é engolido pela sociedade numa batalha de bem-estar. Seu exterior é o homem feliz, mas por dentro ele é internamente amargurado. Frank está tão engolido pela sociedade de 50, altamente patriarcal, que é completamente suscetível a outras formas de manipulação. Sua paixão por April terminou a muito tempo, ou não seria tão fácil a desistência da ideia de ser feliz. Aliás, sua paixão pela felicidade própria também já tinha acabado a muito tempo. Um menino desejoso que nunca quis se tornar igual ao pai, mas acabou exatamente como ele: trabalhador e infeliz. E é realmente difícil encarar a chance dos sonhos diante de tanta mudança. Leonardo DiCaprio é um ator excelente como já mostrou em outros trabalhos, e aqui ele prova o que não precisava mais de provas. Sua atuação está ótima.
Em contrapartida, temos April. Se Leonardo DiCaprio está ótimo em seu papel, aqui Kate Winslet está confortável com sua amargura de um modo bastante crível. Ela encarna sua personagem com uma vivacidade extrema e sempre exprime sua infelicidade em faces ou cenas. Ao passo que Frank não tem tempo para pensar em sua felicidade, April já tem excesso disso. Vivendo sabendo que é o sexo frágil, sabendo que não é uma boa atriz, ela entra na personagem cheia de ódio. Ela pega uma coisa e corre atrás dela, e com sua atitude repressora ela mostra ser mais independente do que Frank enquanto Foi Apenas um Sonho dura. Do mesmo modo, ela lida com o fracasso de uma forma bastante extremista e bipolar, o que fica claro numa das primeiras cenas. April detesta seu casamento, sua família, seus vizinhos, seu subúrbio. E a única maneira que ela acha de reencontrar a felicidade de tudo isso é se mudando, para qualquer lugar bem longe, onde todos possam mudar de vida. Ela pode trabalhar, as crianças podem aprender francês, o marido pode ficar o dia inteiro em casa como ela, descobrindo qual o verdadeiro caminho de sua felicidade. O que ela não contava era com o fracasso de seu plano, e o que o público não contava eram com as consequências causadas na mente de April.
O que reduz a felicidade do casal é o povo, que não aceita ver alguém sendo feliz enquanto eles permanecem impotentes numa situação de vazio existencial. O mascaramento em bebida, em paixões, em felicidade é inútil e faz com que o sofrimento volte pior. A vizinhança não aguenta ver duas pessoas peregrinando pelo mundo buscando o que fazer, isso é vagabundagem. Afinal, é melhor abandonar uma situação estável para viver uma aventura sonhadora? O ponto divergente do preconceito e da inveja social está na atuação excelente e insana de Michael Shannon, que faz John Givings. Bastante sequelado após os tratamentos de loucura da época à base de choques, ele é o único que insiste na vontade dos Wheelers de perseguir o sonho. Assim como é o único que os vê como eles realmente são. Ele, um homem que apenas sonha, mas tem medo da ação, e prefere sacrificar a felicidade a arriscar-se. Ela, uma mulher forte que não mede seus atos num casamento e age individualmente. Para ilustrar isso, há a fotografia suburbana de Roger Deakins, a trilha sonora certeira de Thomas Newman, o roteiro crítico e cru de Justin Haythe, além da grandiosa direção de Sam Mendes.
O que o casal, que já tinha trabalhado junto em Titanic, fez aqui é fazer exatamente o contrário do que fizeram no grande ganhador do Oscar de 1998. Ao invés de acenderem um amor intenso, eles tiveram que apagar a chama fraca de uma paixão passageira. E a química – ou as cinzas dela – em cena dos dois funciona muito bem. Foi Apenas um Sonho é mais do que uma situação em especial, são todas as falsidades vividas num matrimônio. O que Sam Mendes faz aqui é desconstruir, o que já tinha feito com a família perfeita em Beleza Americana. Ele desconstrói o casamento, ele mostra o que há dentro das paredes de uma casa e ele mostra como um casamento pode se suportar. O fato que se torna latente nas cenas finais é que o ser-humano ainda não está pronto para um comprometimento tão grande como é o casamento casto, puro e perfeito promovido pela Igreja.












